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O acolhimento psicanalítico no Intervalle-Cap1: princípios e aplicações2

Catherine Meut
Diretora do Intervalle-Cap. Membro da École de la Cause Freudienne e da Associação Mundial de Psicanálise
Mathieu Siriot
Psicólogo da Intervalle-Cap
Há quatorze anos atrás, abrimos um centro de acolhimento psicanalítico com psicólogos clínicos, participantes do primeiro Atelier de Psicanálise Aplicada da ECF, criado por Jacques-Alain Miller. Oferecer um acolhimento psicanalítico a algumas pessoas mais pobres e vulneráveis foi um projeto inovador. Por isso, ele foi recebido com interesse e curiosidade no campo social e também no meio psicológico.
A criação do Intervalle-Cap em Paris foi – e ainda é hoje – um ato de resistência contra a ideologia atual que submete cada vez mais o atendimento psíquico e o sujeito a critérios de adaptação e competência social.
Tratava-se de criar um lugar diferente, outro, nem médico nem social: um lugar livre para a fala e de qualquer objetivo pré-estabelecido de adaptação e cura.
Acesso livre e gratuito
O acesso ao Intervalle-Cap é simples e rápido. Você pode vir e ser recebido sem ter marcado uma consulta. Além disso, as entrevistas são gratuitas. Essas condições de acolhimento praticamente sem restrições e muito flexíveis eram completamente novas para um dispositivo de orientação psicanalítica.
Graças a elas, o Intervalle-Cap é um lugar ao qual podem se endereçar os sujeitos que estão em uma grande vulnerabilidade psíquica e social, os sujeitos desorientados, muitas vezes sem trabalho ou mesmo sem domicilio fixo, na errância e que testemunham o instante mesmo da sua ruptura social. Pela escolha decidida dessas condições de acolhimento audaciosas, que facilitam seu acesso, a Intervalle-Cap é, de fato, um lugar que acolhe a urgência subjetiva. Seus praticantes lidam com o real em jogo da urgência subjetiva.
Clínica de fim de semana: escansão
O que também caracteriza esse lugar é sua abertura limitada ao final de semana, sábados e domingos durante o dia, sem interrupção. De fato, no fim de semana, muitas estruturas de atendimento ou sociais estão fechadas ou menos disponíveis. É o momento de suspensão das obrigações e compromissos sociais, para se dedicar à família, aos amigos, aos lazeres e às compras. Assim, esse momento dá lugar também a uma clínica do vazio e do isolamento. Para muitos, este momento se traduz em ansiedade, pensamentos negativos ou suicidas, dor física, errância, alcoolismo.
Assim, no fim de semana, Intervalle-Cap oferece um tempo e um espaço para fazer uma pausa, uma escansão, em contraponto ao resto da semana. Lugar de refúgio contra o isolamento e a errância, o acolhimento psicanalítico é uma presença do corpo e da fala de seus praticantes.
Este acolhimento não faz parte da lógica tradicional de tratamento ou de atendimento, com consulta marcada, obedecendo a um protocolo porque ele opera em primeiro lugar no hic et nunc, o aqui e agora do encontro, da urgência.
Uma prática entre vários inédita
Há outra disposição bastante específica para este lugar: de um fim de semana a outro, os praticantes se revezam, trocam. Quando uma pessoa volta uma segunda vez, muitas vezes, ela não encontrará necessariamente o mesmo praticante.
Se o praticante que recebe não é sempre o mesmo, a série de interventores não é infinita. Um sujeito encontra um praticante e fala com ele; nas próximas vezes, ele encontra outros. Depois de alguns finais de semana, ele pode encontrar o primeiro interventor e os outros. Neste ínterim, algo foi tecido, uma dimensão temporal se instaura e o trabalho não se fixa em uma repetição. Ele leva a um esforço, digamos, renovado, do lado do sujeito e uma renovação da escuta do lado do praticante.
De fato, a experiência mostra que essa organização se adapta a muitos dos quais recebemos que têm uma relação muito problemática com a linguagem e a fala, e que não estão prontos para se endereçar desde o início e regularmente a um único praticante, pelo menos num primeiro momento. Trata-se de um engajamento com o Outro que pode ser muito difícil, se não impossível, para eles. Aqui, o sujeito usará a estrutura do Intervalle a seu próprio critério, de acordo com seu ritmo e uso pessoal, cujo único saber é que ele terá que se endereçar a um praticante. Isso responde à liberdade desses sujeitos marcados por rupturas em suas vidas, cujo laço com o Outro é tênue, desconfiado, o que chamamos de precariedade simbólica, termo forjado por Hugo Freda na época em que dirigia o CPCT Paris-Chabrol (FREDA, 2007).
Opera-se, então, para estes sujeitos, uma «transferência» com o lugar e com o conjunto dos praticantes que permite evitar ou atenuar os fenômenos persecutórios sempre presentes no encontro com um único praticante. É uma transferência que inclui a possibilidade de um acolhimento, ao mesmo tempo contínuo e descontínuo, do qual os sujeitos se apropriam, e dizem algo, a cada vez, de maneira singular. Com esta organização especial do nosso trabalho, introduzimos um tipo novo de Outro, pluralizado, menos ameaçador, que acolhe sua fala e que sobretudo não exige nada.
Ao mesmo tempo, o que faz a coesão e o enquadramento deste trabalho entre vários é a formação psicanalítica comum a seus praticantes: todos em posição de analisantes, inscritos numa transferência ao discurso analítico. Caso contrário, essa prática de acordo com estas modalidades especiais de aplicação da psicanálise em instituição, não seria possível. As anotações clínicas regulares da parte dos vários praticantes que recolhem os ditos do sujeito, seus significantes, permite regular e controlar esse trabalho entre vários, como o de cada interventor. O exercício regular de escrita dos casos, a partir destas notas, engaja também os praticantes.
O acolhimento psicanalítico?
O que os sujeitos que se endereçam à Intervalle nos confiam é sobre um gozo mortífero, invasivo, que os transborda, afeta seus corpos e os isola do Outro. Os praticantes são chamados a responder, sem pressa, produzindo «atos», formulando uma fala, realizando intervenções simples que operam um corte, uma parada, uma borda, para limitar o gozo.
Trata-se de recolher o fora de sentido do gozo, o fora do discurso, de acentuar, registrar, memorizar os significantes S1 isolados, desamarrados, os significantes petrificados que fixam uma identificação, mas também aqueles que nomeiam um gozo, indicadores de uma conduta repetitiva; reconhecer também aqueles que apaziguam, que têm um efeito de pontuação, de parada. Por essa primeira operação, e, pela a segunda, ponderada, do «diálogo», alguns sujeitos poderão, em um segundo momento, construir, minimamente, uma história, a que chamamos de efeito de sujeito.
A Intervalle baseia sua ação no discurso psicanalítico e na sua ética. Em primeiro lugar, este discurso dá lugar ao gozo.
Primeiro efeito do apaziguamento: a descoberta de um lugar baseado em um discurso no qual pode vir se alojar o gozo sem que isso retorne, ecoe em um Outro e suas demandas, suas perguntas intrusivas e suas exigências. Um lugar livre, no seu princípio, não apenas de qualquer objetivo de cura, mas sobretudo de qualquer imperativo de adaptação.
Nessas condições éticas, as da psicanálise, o sujeito pode encontrar uma presença suportável, a do praticante incompleto por esse discurso. Um praticante que não encarna o sujeito suposto saber sobre ele, mas que leva em conta, prioritariamente, a relação traumática que o sujeito mantém com a linguagem, com o Outro. Uma prática que aposta sempre na responsabilidade do sujeito.
Mas, são também as condições concretas, pragmáticas, do exercício do enquadramento geral estabelecido para o acolhimento do Intervalle-Cap – no qual os participantes se inscrevem – que permitem os efeitos de apaziguamento da angústia, de limitação do gozo. Assim, os praticantes e entrevistas, vários e diferentes, formam um conjunto de elementos discretos, um conjunto ao mesmo tempo finito (a série finita dos interventores ligados por uma mesma ética e na posição de analisantes) e incompleta (posição de revezamento da estrutura / seus parceiros e pluralização do Outro barrado pela permutação dos praticantes que abre também para um outro lugar). Esse conjunto constitui a flexibilidade e capacidade de manobra da instituição do qual sujeito poderá fazer uso, no seu próprio ritmo, para se orientar e se reconectar de maneira menos ameaçadora ao Outro, respeitando a sua liberdade.
Finalmente, a Intervalle-Cap permite um manejo descontínuo do tempo que produz efeitos de borda, de limite: a abertura circunscrita nos dois dias do fim de semana em oposição significante aos dias úteis da semana, a escansão da consulta única ou, ao contrário, a pluralidade das entrevistas em um mesmo dia, separadas por intervalos de tempo – o tempo da presença, cadenciado pelo sujeito no local. Esse manejo do tempo, que respeita e segue o tempo lógico do sujeito, determina, assim, uma clínica que visa «deixar a emergência na porta» (LEGUIL, 1995, p. 30). Uma clínica que procura evitar que o sofrimento agudo do sujeito se torne uma emergência psiquiátrica, que sua angústia não repercuta numa lamentável passagem ao ato.
Psicanálise aplicada e conclusões
A validade de uma prática, segundo a orientação lacaniana, é verificada nos seus efeitos para o sujeito no real, uma modificação de sua relação com o real. O termo «Psicanálise Aplicada» foi criado por Jacques Lacan em 1964, no seu ato de fundação da EFP. Jacques Lacan criou, junto à seção da “psicanálise pura”, o que poderia se esperar de uma seção da «psicanálise aplicada» e especificou sua intenção acrescentando: “[…] o que significa terapêutico». Stevens, que foi um dos primeiros a inventar uma nova prática com a criação há 30 anos do COURTIL, instituição de atendimento para crianças psicóticas em Tournai[3], lembrou que não há modelo nem receitas de instituição de psicanálise aplicada. O Intervalle-CAP é um modelo que não existia antes e cujo acolhimento tem suas especificidades que determinam, em parte, a clínica que ali se descobre.
Cada instituição lacaniana de psicanálise aplicada tem seu estilo particular, um modo de acolhimento que tem suas particularidades e que não se sustenta somente no estilo de seus praticantes, mas também no seu modo de organização e de inserção no tecido social e também nas relações que mantém com a política. Assim, a prática entre vários não será realizada sempre da mesma maneira.
O termo «prática entre vários» foi criado por J.-A. Miller para designar o novo trabalho clínico realizado por várias pessoas em 1974 no Antenne 110, outra instituição pioneira para crianças autistas dirigida por A. Di Ciaccia.
A prática entre vários é particularmente indicada e mesmo desejável quando «a demanda analítica é forcluída e que a aliança do sujeito com o significante se tornou frágil» (CIACCIA, 2005, p. 118) por um gozo mortífero, diz Di Ciaccia e, neste caso, acrescenta: «A prática entre vários pode revelar uma certa validade operatória” (p.118).
O acolhimento psicanalítico na instituição é um dos nomes da prática entre vários, prática entre vários de psicanálise aplicada ao tratamento do gozo psicótico. O acolhimento psicanalítico para esses sujeitos tem como propósito terapêutico o efeito de capitonagem do gozo. Requer que o praticante esteja à altura do ato convocado pelo real que surge da experiência, que ele tente «ficar no nível do real» (MILLER, 2001, p.11).
A posição ética do praticante orientado pela psicanálise, que a distingue de todas as outras posições psicoterapêuticas existentes, é que «ele não precisa se inserir no laço social prescrito pelo discurso do mestre” (MILLER, 2010, p. 15). Jacques-Alain Miller nos lembra também que «o discurso do mestre acredita na saúde mental», acredita “nesse ideal que é proibido ao analista». O psicanalista mantém-se à distância desse ideal e procura manter-se o mais próximo do real traumático com o qual esses sujeitos lidam diariamente.
A noção de “acolhimento psicanalítico”, termo que foi utilizado pela primeira vez com a criação do Intervalle-CAP, inspirou outras instituições. Recentemente, foi criado a FIPA, a Federação das Instituições de Psicanálise Aplicada, que reúne as instituições mais ou menos antigas, dentre elas o CLAP – Passagem pour les tous petits[4] (Centro Lacaniano de acolhimento Psicanalítico). Outra, criada para receber adolescentes, Paradoxes.
O Intervalle-Cap é uma estrutura que sustenta uma prática inédita cuja liberdade de ação é favorecida pela sua margem de manobra, pelo seu modo “kit”, instalação pronta para desmontar e remontar em qualquer lugar favorável ou não hostil ao discurso psicanalítico, lugares que se tornaram raros. É um modelo entre outros.
