PSICANÁLISE E CRIANÇA – CARROSSEL

Coordenação: Analícea Calmon e Mônica Hage
Cartel de orientação epistêmica: Alice Munguba, Analícea Calmon, Daniela Araujo (+1), Mônica Hage e Paula Goulart.
Horário: Quartas-feiras, das 9h30 às 11h00
Início: 04/03/2020

Direcionado pela orientação da NRCEREDA, o Núcleo de Investigação de Psicanálise e Criança – Carrossel, este ano se dedicará aos estudos sobre “A diferença sexual”, pautados nas propostas de pesquisa anunciadas por Daniel Roy e Marie-Hélène Brousse, em seus respectivos textos “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual” e “O buraco negro da diferença sexual”. A pergunta norteadora do Carrossel neste ano de 2020 é “Diferença sexual: acontecimento ou reconhecimento de corpo?”

Atividade de abertura do Núcleo de Investigação de Psicanálise e Criança – Carrossel em 04/03/20

Abertura dos trabalhos de 2020

(Alice Munguba e Mônica Hage)

O núcleo Carrossel, coordenado por Analícea Calmon e Mônica Hage, seguindo a orientação da NRCEREDA, este ano se debruçará sobre a “Diferença sexual”, norteado pela pergunta: Diferença sexual, acontecimento de corpo ou reconhecimento de corpo?

Para a abertura dos trabalhos do núcleo, que ocorreu no dia quatro de março de 2020 o Carrossel teve a satisfação de contar com a participação, através de vídeo, dos convidados: Nohemí Brown, atual Coordenadora NRCEREDA e Marcus André Vieira, membro da EBP/AMP – que participou como êxtimo. A conversação contou com a presença de vinte e duas pessoas. 

O primeiro vídeo transmitido foi o de Nohemí e em seguida o de Marcus. Após a transmissão, abriu-se uma conversação. Perguntas e comentários sobre o binarismo foram levantados, assim como sobre a diversidade que encontra-se em torno dele. Alguns participantes citaram vinhetas clínicas a esse respeito.

Foi levantada a questão de como a psicanálise absorve ou dialoga com os discursos de gênero atuais, que também foram trazidos para a roda. Foi questionada a posição feminina diante do falo, como as mulheres podem transmitir, no campo da linguagem, algo sobre seu gozo no corpo atualmente. A posição do analista diante destes novos discursos, constitui um desafio, o que circulou entre as falas.

A partir das perguntas trazidas por Nohemí e Marcus André: “Como se inscreve a diferença sexual nas crianças?”; ”Quando e como as crianças escolhem uma posição sexual?”; “Como as crianças estão criando as possibilidades de estabilizar a diferença sexual?”, discutiu-se também sobre as respostas que as crianças inventam, levando em consideração a queda do patriarcado.

As consequências dessa, também chamada, queda do falocentrismo, podem ser observadas nos sintomas das crianças hoje e nos levou a problematizar a questão da ordem fálica. Reconheceu-se que não se trata, necessariamente, de negar a existência de um gozo que passe pelo falo, mas sim de reconhecer que, para além dele, existe um outro gozo que, por ser ilimitado, não está regido por nenhuma ordem. Essa “desordem” promove também, por sua vez, consequências quanto às diferenças.

Os textos de Daniel Roy – “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual” – e de Marie Helene Brousse – “O buraco negro da diferença sexual” – serão as principais referências para o programa de estudo e investigação que será desenvolvido ao longo deste ano

A coordenação participa e conta com o apoio do Cartel de orientação epistêmica, composto por: Alice Munguba, Analícea Calmon, Daniela Araújo (Mais Um), Mônica Hage e Paula Goulart.

Resenha

Vanessa Serpa Leite – Associado do IPB, participante do núcleo Carrossel

O encontro do Núcleo Carrossel do dia 11 de março foi animado pelo texto de Daniel Roy: Quatro perspectivas sobre a diferença sexual, publicado pelo “Cien digital” em novembro de 2019. As principais perspectivas teóricas deste texto foram levantadas pelos membros do cartel epistêmico: Alice Munguba, Analícea Calmon, Daniela Araújo (Mais Um), Mônica Hage e Paula Goulart, o que provocou uma rica conversação entre os participantes do núcleo. Assim, surgiram questões importantes e norteadoras para o trabalho do NRCEREDA deste ano sobre a diferença sexual, a exemplo: a organização genital infantil e a vertente da organização fálica, a inscrição do sujeito no discurso, diante do desejo do Outro, dos semblantes e as particularidades de identificações e sintomas.

O trabalho com este texto nos mostrou uma extensa e fundamental varredura dos textos orientadores de Freud e Lacan para tratar a diferença sexual, partindo dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, até os estudos de Lacan nos Seminário 18 e 19.  Os participantes do Carrossel trouxeram perguntas e contribuições que dialogam sobre a lógica dos estudos psicanalíticos sobre o tema abordado, assim como a incidência do discurso social atual que sustenta uma vertente “política” sobre os conceitos de ser homem e ser mulher, e como as “teorias de gênero” têm se presentificado na clínica e no laço social.

Um dos pontos destacados na discussão é a maneira própria da psicanálise de tratar a diferença como além do sexual, mas sim como a diferença absoluta onde cada ser falante inscreve o real do gozo e sua formação sintomática, não sem se desvincular dos semblantes construídos pelo Outro e marcados por significantes, os quais tratam de distribuir os seres falantes em homens e mulheres.

O Carrossel trata de levantar questões atuais sobre a psicanálise e a criança, portanto, outra questão fundamental a ser considerada é estarmos atentos à maneira da criança se situar diante do desejo da mãe de ser o falo e como ela dá conta de construir a presença de uma ausência, ou seja: tomar o falo como significante. Dessa forma, a conversação avança sem perder de vista os fenômenos observados na nossa clínica onde a criança se situa entre o discurso social e sua própria diferença fundamental.

A discussão do dia 11 de março se mostrou muito longe de encerrar, apenas introduziu o início das construções para a pergunta que norteia o Carrossel este ano, questionando a diferença sexual como acontecimento ou reconhecimento do corpo. Na medida em que as perspectivas sobre a diferença sexual trazidas por Daniel Roy trazem mais a abertura de perguntas do que as respostas, vale à pena seguir essa encruzilhada epistêmica proposta pelo núcleo de Psicanálise e Criança a respeito das identificações infantis, posições que o sujeito assume diante do sexual e as diversas zonas de fraturas no que diz respeito aos gozos.