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A dor na pandemia e o discurso do analista

Kazuhiko Nakamura . “Beehive”
Kazuhiko Nakamura . “Beehive”
Christianne Alcântara
Aluna do Curso Regular do Instituto de Psicanálise da Bahia

Publicado pela primeira vez em 1930, O mal-estar na civilização[1] já trazia uma sentença de Sigmund Freud (2011: p.33):

Parece fora de dúvida que não nos sentimos bem em nossa atual civilização, mas é difícil julgar se, e em que medida, os homens de épocas anteriores sentiram-se mais felizes, e que papel desempenharam nisto suas condições culturais. Sempre nos inclinaremos a apreender nossa miséria objetivamente, isto é, a nos transportar para tais condições com as nossas exigências e suscetibilidades, para então examinar que ocasiões nelas veríamos para experimentar felicidade ou infelicidade.

Se pararmos para refletir sobre a pandemia da Covid-19, que começou em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, na China, e que se alastrou por todo o mundo, traçamos o panorama contemporâneo. De uma hora para outra, as pessoas precisaram parar de interagir de forma presencial, evitar o “ir e vir” e, ainda por algum tempo, foram submetidas ao isolamento social. Passaram a conviver com um inimigo invisível, que se materializava nas milhares de mortes noticiadas.

O que se identificou a partir daí foi um trauma coletivo, em que não se conseguiam viver lutos, pessoas caíam em melancolia, deparavam-se com quadros de ansiedade, angústia e depressão. Recorreu-se à tecnologia para amenizar a dor da perda do convívio com o outro. Além dos rituais fúnebres e das festas de aniversário on-line, médicos começaram a se curvar às consultas virtuais. Os psicanalistas também se renderam à modalidade.

Testemunhas de um mal-estar coletivo em que a expressão das dores dos analisantes passaram a ser mediadas pelo computador, psicanalistas se viram às voltas com questionamentos quanto à eficácia da clínica on-line. Ao mesmo tempo, foram desafiados a acolher todas as dores a uma distância diminuída pelos recursos tecnológicos com os quais poucas pessoas tinham familiaridade.

Se, ao escrever O mal-estar na civilização, Freud se encontrava em um período entreguerras e já anunciava que os seres humanos “buscam a felicidade, querem se tornar e permanecer felizes”, a pandemia dava sinais de que a tal “felicidade” era inatingível. A crise sanitária descontrolada e a oscilação entre pulsões de vida e de morte atordoaram a população que passou a se sentir ainda mais desamparada.

É neste momento que a procura pelo analista se dá: quando o sujeito já não suporta o desencontro com uma possibilidade de “vida feliz” e se vê desamparado. Lacan[2] (1998: p.620-621) afirma que se imagina que o psicanalista é feliz:

Não é a felicidade, aliás, que se vai pedir-lhe? E como lhe seria sensível dá-la se não tivesse um pouco dela, diz o bom senso? É fato que não nos recusamos a prometer a felicidade (…)

O analista é então convocado à escuta de um sujeito que já não consegue lidar com a disputa pela dominância, estabelecida entre o discurso científico e o discurso do capitalista. Se a Ciência orienta o isolamento social, o Capitalista reclama a imperiosa necessidade de “não parar”. A economia reivindica sua soberania, cria um impasse que confunde acerca do valor da própria vida.

Impactado pela crise, o analista precisa, por meio do seu discurso, provocar o sujeito a “re-contar” sua trajetória. Ao mesmo tempo, é instado a fazer furo nos discursos da ciência e do capitalista, de forma a “ajudar” o analisante a descobrir-se sujeito da sua própria conduta, bem como do seu desejo.

Para Lacan[3], é o discurso que faz laço social. Se a pandemia pareceu desfazer laços, o analista os mantém por meio do seu discurso. Presencial ou virtualmente, é inegável que ele “dá sua presença” e, no atual contexto histórico, talvez ela não seja notada apenas mais tarde, como já observou Lacan.


Referências:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011;
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17 – o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992;
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

[1]  FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011.
[2]  LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
[3]  LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17 – o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
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