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Amor, uma saída do discurso do capitalista

Kazuhiko Nakamura . “Triceratops”
Kazuhiko Nakamura . “Triceratops”
Graziela Vasconcelos
Associada do IPB da EBP Seção Bahia

Se é certo, como nos advertiu Lacan (1971/2000), que “Toda ordem, todo discurso aparentado ao capitalismo deixa de lado o que chamaremos, simplesmente, as coisas do amor” (p. 49), é precisamente ele, o amor, que pode permitir ao sujeito uma saída do discurso do capitalista. Aqui me refiro ao amor de transferência, que se instaura em um processo analítico. Como nos aponta Lacan (1972/2008) ao se referir ao amor, “Na análise, só lidamos com isso, e não é por uma outra via que ela opera” (p. 73).

Os impasses e sofrimentos causados pelo que nos apresenta Freud como o mal-estar na civilização, fundamenta e elucida algo de estrutural na lógica do capitalismo, o embaraço do sujeito com a falta e sua crença em uma promessa de felicidade e completude plenas. Freud (1930/2010), como sempre, preciso e cirúrgico em suas observações e delimitações, nos diz, “a vida, tal como nos coube, é muito difícil para nós, traz demasiadas dores, decepções, tarefas insolúveis. Para suportá-la não podemos dispensar paliativos” (p. 28). Ora, pois não é por outra via que o capitalismo pode introduzir a oferta de seus incontáveis gadgets, promessa de um gozo sem limites. Uma promessa nunca cumprida, mas que ao fracassar, promove e sustenta o seu sucesso. Aqui o céu não é o limite e sim o objeto a elevado ao zênite social.

Lacan é categórico ao anunciar, em Radiofonia, que o mal-estar, certamente o devemos imputar ao inconsciente[1]. Ora, é um paradoxo, mas o que está em jogo, conforme nos aponta Lacan[2], é algo do discurso da histérica como propulsor da ciência, afinal, a histérica é exatamente o sujeito dividido, o inconsciente em exercício que convoca o mestre a produzir um saber. Mas a ciência, apesar de alicerçada na divisão subjetiva, “é uma ideologia da supressão do sujeito” (LACAN,1970/2003, p. 436), por consequência, da supressão do desejo, que como sabemos, em Lacan[3], advém apenas no lugar da divisão subjetiva. Nessa direção, nos esclarece Bassols (2015), “a própria ciência ocupou o lugar do desejo, e o desalojou, o deslocou para outro lugar em sua aliança com o discurso capitalista” (p. 130), um discurso causado pela divisão, mas com a missão de suturá-la.

Nesse ponto, introduzo uma questão fundamental na Teoria Lacaniana, a da inexistência da relação sexual, esta que é causa mesmo do mal-estar do sujeito. Nesse cenário, para além dos gadgets, que como disse, sempre falham, há o amor, que como nos diz Lacan[4], é precisamente o que vem em suplência à inexistência da relação sexual. Um amor que não interessa ao discurso capitalista e ao qual somente se pode ascender por meio do discurso do analista, bajo transferência. É que no amor “o que se visa, é ao sujeito como tal” (LACAN, 1972/2008, p. 56) e isto me parece precioso e digno de nota.

Se o discurso do capitalista opera na lógica do mais-de-gozar, da negação da falta constitutiva e da impossibilidade de um saber sobre a verdade não-toda do sujeito do inconsciente, ofertando seus gadgets como promessa de alívio a todo sofrimento; o discurso do analista, que só opera por meio do amor de transferência, convoca o sujeito a interessar-se pela verdade do seu sintoma, a implicar-se com seu sofrimento, fortalecendo o laço com o Outro e colocando em jogo a dimensão do desejo, o que  promove, não de outro modo, alguma contenção ao gozo sem limites, evocado pelo capital. Algo que Lacan (1962/2005) nos apresenta lindamente em seu aforismo “Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo” (p. 197). É apenas assim que me parece ser possível ao sujeito, Um a Um, transformar a demanda de alívio em demanda de saber, possibilitando uma saída do discurso do capitalista e inaugurando uma nova e singular forma de fazer e de estar.


Referências:
BASSOLS, M. A psicanálise a ciência e o real. Rio de Janeiro: Opção Lacaniana 11, 2015.
FREUD, S. (1930). O mal-estar na civilização. In: Obras completas, v. 18. São Paulo: Companhia da Letras, 2010.
LACAN, J. (1958). O Seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016.
LACAN, J. (1962). O Seminário, livro 10: A Angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
LACAN, J. (1970). Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
LACAN, J. (1971). O saber do Psicanalista. Centro de Estudos Freudianos de Recife, 2000.
LACAN, J.(1972). O Seminário, livro 20: mais, ainda. (1975). Jorge Zahar Ed., 2008.
MILLER, J. Uma conversa sobre o amor. Opção Lacaniana on-line 2, 2010.

[1]  Lacan, J. (1970/2003). Outros Escritos. Jorge Zahar, p. 435.
[2]  Ibid., p. 436.
[3]  Lacan, J. (1958-1959 [2016]). O Seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação. Jorge Zahar, p.26.
[4]  Lacan, J. (1972-1973 [2008]). O Seminário, livro 20: mais, ainda. Jorge Zahar, p. 51
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