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“Mãe só há uma”

Kazuhiko Nakamura . “Salome”
Kazuhiko Nakamura . “Salome”
Fernanda Dumêt e Márcia Ledo
Associadas do Instituto de Psicanálise da Bahia; Integrantes do CIEN- Bahia; Participantes do Núcleo de Investigação de Psicanálise e Criança, Carrossel

Quando olho para o espelho acho que eu sou você. Tem alguém dentro de mim sem um tempo para sai. Acho que eu quero muito. Acho que não quero nada. Acho que só quero achar algum lugar para encostar uma cabeça inflamada.” (Cabeça Inflamada, Música de Pedro Tambelin para o filme “Mãe só há uma” de Anna Muylaert)

No primeiro semestre de 2021, o Cine CIEN Bahia propôs uma conversação online em torno do filme Mãe só há uma, um drama brasileiro escrito e dirigido por Anna Muylaert. MUYLAERT, A. (2016), “Mãe só há uma” Direção de Anna Muylaert. São Paulo, Brasil. Distribuição Vitrine Vídeos.

No mesmo período, o Núcleo de Investigação de Psicanálise e Criança – Carrossel – se serviu do filme em um dos seus encontros virtuais. O enredo do filme se enlaça com o tema proposto pelo Instituto da Criança em 2021 – A Diferença Sexual.

Lançado em 21 de junho de 2016, este longa foi ganhador do prêmio Teddy Awaards que é considerado uma premiação oficial do público LGBT no Festival de Berlim.

Embora se trate de uma ficção, foi inspirado no caso Pedrinho, um menino roubado numa maternidade em Brasília, em 1986, que foi localizado 16 anos depois em Goiânia, quando se deu o reencontro com sua família biológica. O roteiro vai mais longe do que uma adaptação da história deste menino, ampliando-a para um sensível retrato do sujeito adolescente na contemporaneidade, suas errâncias, experimentações e dificuldades com relação à diferença sexual, pois sua narrativa contempla questões sobre a origem, a família e a sexualidade. Uma interessante interlocução é feita partindo da ideia de identidade, a identidade familiar – origem – e de gênero. O presente trabalho trata, portanto, dos ecos desta interlocução.

O filme é protagonizado por Pierre, um jovem de perfil andrógeno que não obedece às convenções, gosta de meninas e beija meninos. Em casa, escondido no banheiro, experimenta batons e abusa de selfies e nudes. O personagem é justamente introduzido no filme numa cena em que durante uma festa, dança sensualmente com outro rapaz, mas logo na sequência acaba tendo relações sexuais com uma garota, ele mesmo fazendo uso de lingerie e cinta liga.

Neste momento delicado de sua adolescência, Pierre descobre que tem duas mães. A primeira, a mãe que o criou junto à irmã, é a mãe pela qual ele tem amor. E a segunda tem por ele um afeto imenso e uma expectativa de encontro com o filho que tanto esperava reencontrar, mas para ele é uma desconhecida.

Em meio às dificuldades e impasses, a identidade deste jovem é trocada: na família biológica, Pierre era Felipe.

O corpo de Pierre é um lugar de experimentação, lugar de novas produções, numa tentativa de construção de uma história que dê conta de sua existência. À questão “o que sou no desejo do Outro?”, ele responde no corpo e com o corpo, pois Pierre não fala nada, mas se veste de mulher. Na verdade, ele faz mais do que se vestir, ele reivindica o uso da roupa. Ele experimenta o corpo e parece fazer um contorno com a roupa.

Neste sentido, o filme nos remete ao que Lacan descreve sobre o corpo e o mal-entendido. Para ele, os seres falantes nascem do mal-entendido e o corpo “é o fruto de uma linhagem e assim parte das infelicidades que lhes acontecem, está relacionado ao que houve de mal entendido, até não poder mais” (Lacan,1980)

(…) É isso que vocês herdam! É isso que vocês sentem na pele. O mal-entendido vem de antes. O mal entendido vem desde antes à medida que há, desde sempre, este belo legado que lhes pertence ou do qual vocês fazem parte, a sabida confusão dos ancestrais. (ibid. p. 22-23).

Destacamos uma cena em que Pierre sai do silêncio. Se inicialmente ele estava numa posição objetalizada em que não o escutavam, não lhe davam a palavra; no boliche, com a família reunida, Pierre está de vestido e, numa explosão, grita: “Fui roubado duas vezes, vocês roubaram minha vida!” E afirma com veemência: “Não me chamem de filho!”. Pierre ainda não os considera sua família e sai da cena.

O filme termina com uma cena interessante que, apesar de não nos dar elementos suficientes, aponta para uma concessão com a parceria do irmão biológico que o escuta, bate em sua porta e quer dele saber. Não sem que Pierre insista na busca de saber sobre sua irmã adotiva de quem se desencontrou neste meio tempo, portanto, indicando não prescindir de sua também origem. Podemos dizer, que ele inventa um modo de não ficar submetido a uma origem que se precipita sobre o sujeito, que caiu em cima dele ao mesmo tempo em que caiu no mundo. (Ansermet, 2014)

A atualidade do filme traz questões da contemporaneidade e interessa em especial, mas não só aos analistas, pois os impasses sobre a origem e a sexualidade vêm, cada vez mais, chegando aos consultórios, suscitando questões às instituições de ensino, jurídicas, médicas etc.

Como as crianças e adolescentes constroem narrativas sobre a própria história, a própria origem? Sobretudo na contemporaneidade, onde as famílias se deslocaram, se pluralizaram, não só como instituição, mas também como discurso? O que faz impasse aos sujeitos, frutos de um desejo por vezes anônimo?


Referências Bibliográficas
ANSERMET, F. (2014). “Elegir el sexo”, Boletim Tiresias, publicação da 13a Jornadas da ELP, Madrid, 2014.
LACAN, J. (1980), “O mal entendido”, Ornicar, pg. 22-23. – Tradução Original (juin,1981), “Le Malentendu”, pronunciado em 10 de junho de 1980.
MUYLAERT, A. (2016), “Mãe só há uma” Direção de Anna Muylaert. São Paulo, Brasil. Distribuição Vitrine Vídeos
ROY, D. (2016), “Proteção da adolescência”. In Opção Lacaniana n.72, março de 2016.
TAMBELIN, P. (2016), “Cabeça Inflamada”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zZZwtwb3dZM
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