Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
A dor que escreve: melancolia e o herói byroniano
Lucas Antunes Santos Vilas Boas
Aluno do curso de Especialização em Teoria da Psicanálise de Orientação Lacaniana (TPOL/IPB-BA)
O movimento literário conhecido como byronismo, originado a partir da figura de George Gordon Byron (1788-1824), destaca-se como uma resposta estética e existencial à racionalidade iluminista e ao crescente moralismo conservador do período, que mais tarde se consolidaria na era vitoriana. Mais do que um estilo poético, o byronismo é a encarnação de uma postura subjetiva marcada pela dor, exílio e rebeldia. O chamado “herói byroniano”, inspirado nas obras e na própria figura de Byron, é um sujeito atormentado, romântico, cínico e solitário. De acordo com Chris Baldick (2001), esse herói pode ser caracterizado como um “audacioso desafiador, mas, ao mesmo tempo, um exilado que se atormenta amargamente; orgulhosamente desdenhoso quanto às normas sociais, mas sofrendo por algum pecado inominado” (p. 31).
Esse tipo de personagem foi amplamente difundido na literatura europeia do século XIX, influenciando autores como Alfred de Musset, Mikhail Lermontov e Álvares de Azevedo, este último expoente do ultrarromantismo brasileiro, cujos versos estão impregnados de morbidez, idealização da morte e erotismo melancólico. Como observa Harold Bloom (1970), a tradição romântica cultiva uma relação profunda com a perda e o excesso, incorporando a dor como elemento estruturante da identidade poética. Trata-se de uma figura essencialmente atravessada pela perda. Nesse sentido, o amor, quando acontece, é sempre interditado ou fadado ao fracasso; a glória é efêmera ou sem sentido; e a própria vida, um palco de exílio, solidão e desamparo. De acordo com Mario Praz (1996), há no byronismo uma espécie de estetização da desilusão e do sofrimento, uma “melancolia cultivada” que se torna constitutiva da subjetividade do herói.
Essa disposição melancólica do sujeito byroniano encontra um campo fértil de leitura quando analisada a partir da teoria freudiana. No texto “Luto e melancolia”, Freud (1917/2020) propõe uma distinção entre dois modos de vivenciar a perda: o luto, em que o sujeito se separa gradualmente do objeto perdido, e a melancolia, em que há uma identificação inconsciente com esse objeto, levando à autodepreciação e ao empobrecimento do Eu. O autor marca essa diferença ao trazer que “o luto exibe os mesmos traços, com exceção de um: nele a autoestima não é afetada” (Freud, 1917/2020, p. 173). O herói byroniano, ao eleger a perda e a dor como fundamento de sua existência, parece encarnar essa estrutura descrita por Freud: ele não apenas lamenta o objeto perdido, ele torna-se esse objeto.
Essa relação entre melancolia e estética não se reduz à representação da dor, mas à sua elevação a um lugar de gozo. O sofrimento, nesse contexto, é simultaneamente real e performativo, ele organiza o discurso, orienta as escolhas e sustenta a identidade do sujeito. Tal como no modelo freudiano, em que há “um enorme empobrecimento do Eu” (Freud, 1917/2020, p. 175). Ao incorporar o objeto perdido, o herói byronista se constrói em torno de um vazio que se recusa a ser simbolizado, reiterando a perda como destino.
A partir da perda, a relação do sujeito com o mundo é modificada: “no luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio Eu” (Freud, 1917/2020, p. 176). Na melancolia, o sujeito não reconhece exatamente o que perdeu, e em vez de se separar do objeto, identifica-se com ele.
Nesse raciocínio, Freud (1917/2020) nota que “a sombra do objeto caiu sobre o Eu, e a partir de então este pôde ser julgado por uma instância especial como um objeto, o objeto abandonado” (p. 181). O traço decisivo da melancolia é, portanto, essa identificação com o objeto perdido e a inversão da agressividade, antes dirigida ao objeto, contra o próprio Eu. Essa lógica pode ser observada com clareza na figura do herói byroniano, cuja atitude de constante autodepreciação, de niilismo e autoexílio, revela menos um arrependimento consciente e mais uma fixação em um objeto que já não está presente: um amor perdido, uma verdade inalcançável, uma promessa de completude jamais cumprida.
A postura existencial do herói byroniano, muitas vezes descrita como narcisista ou autodestrutiva, encontra sentido sob a lente freudiana. O narcisismo da melancolia não é apenas amor ao Eu, mas um retorno da libido por não conseguir reinvestir em um novo objeto, que se dá sob o signo da agressividade. O poeta Álvares de Azevedo (1853/2000), influenciado diretamente por Byron, é exemplar nesse ponto. Com seu tom elegíaco e autodepreciativo, presente em obras como Lira dos vinte anos, o poeta brasileiro aponta para uma subjetividade em ruína que se compraz na própria falência, transformando a dor em estética e identidade.
Além disso, é possível pensar a melancolia byroniana como uma tentativa de suspensão do tempo. Enquanto o luto avança, a melancolia estagna. O sujeito melancólico se fixa no instante da perda, como se esse momento condensasse toda a verdade de sua existência. Essa fixação é visível na repetição temática da morte, da desesperança e do amor impossível nas obras marcadas por esse ethos. Freud (1917/2020) observa que a melancolia opera “de modo que o investimento objetal possa, ao lhe aparecerem dificuldades, regredir ao narcisismo” (p. 181) – e, assim, o sujeito melancólico “pode tratar a si mesmo como um objeto” (p. 185). O herói byroniano, nesse sentido, é alguém que performa essa ruína.
Há aqui uma articulação ainda mais profunda com a estética romântica: o sofrimento não é apenas representado, mas idealizado. A dor torna-se bela, a perda torna-se linguagem, e a falência do Eu, longe de ser apenas sintoma, passa a ser expressão de autenticidade. O sujeito byroniano é, a partir disso, um melancólico que encontrou na escrita uma forma de cristalizar sua identificação com o objeto perdido.
Ao reconhecer a melancolia não apenas como um afeto, mas como um modo de funcionamento que organiza a relação com o desejo, o tempo e o Outro, Freud (1917/2020) oferece ferramentas para compreender o sujeito romântico não como mero personagem literário, mas como uma figura que encarna, em sua forma mais intensa, a experiência do mal-estar na cultura.
O byronismo, nesse sentido, pode ser lido como uma estilização da melancolia, uma tentativa de responder, via estética, à impossibilidade de simbolizar a perda. A escrita trágica, o amor fadado ao fracasso, o exílio e a recusa do laço social compõem um imaginário no qual o objeto perdido nunca é verdadeiramente abandonado; pelo contrário, ele é revivido, reiterado e, finalmente, elevado à condição de identidade. A melancolia não se opõe à criação, mas pode, paradoxalmente, ser seu motor.
Assim, o sujeito byroniano, ao estetizar a perda e fazer da dor a sua linguagem, não apenas exemplifica um modo de funcionamento, mas também nos convida a pensar a melancolia para além da clínica: como forma de vida, como forma de escrita e, sobretudo, como uma tentativa de encontrar sentido no que falta.
Referências
AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos (1853). São Paulo: Ática, 2000.
BALDICK, Chris. The concise Oxford dictionary of literary terms. New York: Oxford University Press, 2001.
BLOOM, Harold. The ringers in the tower: studies in romantic tradition. Chicago: University of Chicago Press, 1970.
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917[1915]). In. FREUD, Sigmund. Obras Completas, volume 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). São Paulo: Companhia das Letras, 2020. pp. 173-185.
PRAZ, Mario. A carne, a morte e o diabo na literatura romântica. Tradução: Philadelpho Menezes. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.
