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A escrita viva de Lêda sobre o enigma e o segredo do masculino

Nieves Soria
AME EOL/ AMP

Boa tarde! É um prazer enorme estar aqui. Ainda estou emocionada com as palavras de Liliane, a quem queria agradecer o convite para escrever o prefácio deste livro tão original e interessante, que vamos comentar agora com o Luis, e agradecer ao cartel o convite para participar desta apresentação. Também me dá muita alegria ver, aqui no Zoom, o auditório da querida Seção Bahia, à qual envio um forte abraço, e aos colegas da EBP de outras Seções, que estão aqui presentes.

Para mim, nesta homenagem a Lêda, todas as palavras que foram ditas sobre ela, até este momento, a trouxeram de um modo muito claro. Era uma presença absolutamente única e original. A presença de uma colega saudosa de quem sempre me chegou muito a doçura. Sempre me tocou muito a doçura de Lêda, que seguramente tinha a ver com sua voz, como destacou Pablo, e acho que é uma colega que deixou muitas marcas na comunidade analítica, não somente na Escola Brasileira. E se tem algo que pode ser lido nestas páginas e que também se escutou nas apresentações que acabamos de ouvir, é “o vivo” de sua presença; essa presença viva que também se pode apalpar na letra de sua escrita. Também ficou para mim, das apresentações que fizeram Raquel e Liliane, o que disse Raquel da leitura como experiência. Parece-me que, efetivamente, se há algo que transmite este livro é justamente a leitura como uma experiência. E do que colocava Liliane como algo desse estilo de Lêda tão feminino. Ela falou da sedução, da perturbação, não lembro exatamente, mas de certa precisão na maneira de dizer as coisas, de certo modo muito direto de nomear e dizer as coisas.

Convidaram-me para que falasse um pouco do que escrevi no prefácio. Então, vou comentar alguns pontos. Para começar, quando leio o livro, o que encontro, como lhes dizia há pouco, é a presença viva de Lêda, como a conheci em sua vida, pesquisando com paixão, renovando perguntas, causada por uma transferência de trabalho. Não tive encontros frequentes com ela, mas, sempre que a encontrava, a via animada por uma paixão e parecia-me uma trabalhadora incansável e sempre realizando um trabalho de Escola; sempre no marco de uma transferência de trabalho da qual este livro é um claro testemunho. A transferência de trabalho percorre todas as páginas deste livro, um verdadeiro trabalho de Escola. E este livro é um verdadeiro trabalho de Escola em ato. Há uma definição das mulheres, que Lêda gosta de citar, quando Lacan disse da mulher como real e verdadeira. Há algo disso que encontro na leitura destes textos: um dizer real e verdadeiro, e uma enunciação feminina.

É interessante, porque é um livro que, já desde o próprio título – O que é ser um homem –, se coloca, com toda a consistência e com toda a força, como uma interrogação nesta época de apagamento da diferença sexual. Em uma época na qual prevalece o apagamento da diferença sexual, que é um resultado do avanço do discurso da ciência sobre o corpo, da tecnociência sobre o corpo, Lêda não tem nenhum receio em falar de homens e mulheres e de retomar a questão, levantada por Lacan, de homens e mulheres como duas espécies diferentes. Porém, não apenas isso. Ela também levanta uma pergunta que, dentro do campo psicanalítico, jamais encontrei colocada desse modo.

Sempre se considerou o fato de que se sabia o que é ser um homem e sempre o enigma se encontrou do lado do feminino, o enigma do feminino, o continente desconhecido etc. etc. E acontece que esta mulher, psicanalista, tem a audácia de levantar a pergunta sobre que é ser um homem e também de colocar o enigma do masculino. Liliane falava dos segredos dos homens, quando classicamente o segredo, desde Freud, aparentava ser predomínio do feminino. No entanto, Lêda não tem nenhum problema em falar do enigma do masculino, do segredo do masculino, de interrogar essa posição e, como destacou Raquel, em não dar respostas, senão fazer perguntas. Fazer as boas perguntas, e fazer as boas perguntas para quem vai poder dar uma resposta.

Por isso, é muito interessante, porque também este é um livro sobre o final de análise dos homens, e suas perguntas se dirigem fundamentalmente aos AE da Escola Una, dentre os quais, ao menos vejo que há dois aqui presentes, Luis Salamone e Bernardino Horne, que a acompanharam tão de perto em todas as suas elaborações e foram interlocutores privilegiados de Lêda e dos quais ela retoma, uma e outra vez, seus desenvolvimentos e seus aportes à clínica da sexualidade masculina, no final de análise, ou desde o final de análise, porque acho que é isso o que eles constroem: uma clínica da sexualidade masculina desde o final de análise. E, desde aí, iluminam questões que, com efeito, permaneciam obscuras.

E acontece que havia muitas coisas que não sabíamos. Há muitas coisas que não sabemos sobre o que é ser um homem. Se tem algo que este livro coloca em evidência é esse furo no saber, que está velado, em torno do que é ser um homem. Lembro que Lacan diz de passagem, em “Televisão”, que não somente não há o significante da mulher, senão que tampouco há o significante do homem e que a mulher somente encontra o homem na psicose. Isto é, com efeito, se não há significante do homem, então, bom, tampouco sabemos o que é ser um homem. Mas, ninguém tinha ousado levantar a pergunta com esta clareza e essa espontaneidade tão feminina, própria de Lêda.

Outra coisa que comento, no meu prólogo, é que leio uma posição amorosa para com os homens, nesta pesquisa que realiza Lêda, na qual os interroga. Digo, interroga-os amorosamente, interroga-os buscando entender ou clarear alguns enigmas e consegue realizar uma escrita na qual vão se clareando algumas questões muito fundamentais sobre a sexualidade masculina.

No prefácio, digo que encontro algumas pérolas neste livro. Seguramente, cada um encontrará as suas, orientado por suas próprias perguntas, por seu próprio desejo. Talvez, destaque apenas algumas para deixar aberto o apetite para a leitura deste livro tão fundamental para a psicanálise, que também acho que seria muito interessante se pudesse ser publicado em espanhol. Acredito que, também aos colegas hispano-falantes, lhes pode interessar muito. E acredito, como já falei, que é um aporte tão original, que verdadeiramente vale a pena que circule, também entre outras línguas.

Então, algumas pequenas pérolas. Gostei muito da descrição que ela faz de algo que diz encontrar em sua própria prática, isto é, de sua própria prática e de sua própria experiência: a constatação de que os homens vivem subjetivamente em dois mundos. Um mundo discursivo com o qual se apresentam ante os outros, falando sobre si mesmos e um mundo secreto, intransmissível, solitário, inconfessável. E é interessante também como esses dois mundos aos quais se refere em mais de uma oportunidade, ao longo do livro, também se articulam com os dois fantasmas do homem, o que soube clarear Bernardino Horne e de cuja transmissão Lêda recolhe a luva. Esta divisão entre o fantasma masculino – sádico, ligado às fantasias sexuais, utilizadas para a excitação sexual, e o fantasma feminino – masoquista, ligado à posição de objeto no fantasma fundamental. Considero que essas duas distinções, entre dois mundos, entre dois fantasmas, enriquecem a clínica da sexualidade masculina.

Outra questão que acho muito interessante e que é algo da marca de Lêda: a maneira de dizê-lo. Porque, de algum modo, isso está em Lacan, é retomado por Miller; mas a maneira como o disse Lêda, esse deslocamento da falta da mulher para o homem e, então, a importância de abordar a sexualidade masculina a partir da falta, do homem como faltante, diz ela. Acho que isso também é um achado, como um ponto de capitonê, para abordar a sexualidade masculina. E depois, toda a questão da clínica da angústia de castração masculina, em que vai se apoiar fortemente nos desenvolvimentos de Luis Salamone que, como já foi dito e também figura no livro que eles escreveram juntos: um livro sobre um homem e uma mulher depois da análise.

Então, toda a clínica da angústia de castração no homem e como ela recorta, especialmente, dos aportes de Luis Salamone a universalização da impotência psíquica, além das desventuras do órgão. Como uma posição estrutural do homem ante – e isto também é outra colocação de Luis, que me parece que Lêda sublinha e atesoura especialmente, que essa angústia de castração no menino é ante o encontro com o corpo feminino, a dimensão corporal feminina. Essa dimensão corporal, tanto do feminino como do órgão, estão muito presentes e atravessam todo este livro, colocando em primeiro plano algo que provoca horror na época do discurso capitalista: o real anatômico dos sexos e suas incidências no campo do gozo. Aquilo que Freud já colocava em seu texto “Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica dos sexos”. É de inspiração freudiana toda a leitura que faz Lêda, ainda que não cite tanto Freud. No entanto, é de inspiração freudiana a leitura que realiza e a maneira como lê os testemunhos dos AE que interroga.

Então, a questão da angústia de castração, a dimensão fóbica masculina, essa também me parece que é muito interessante: essa nominação de fobia para a angústia de castração no menino, que dá um sesgo fóbico ao menino, se podemos dizer assim. Acho que isso também é muito interessante.

A maneira como lê o mortífero da relação edípica com a mãe no menino, uma que acho também muito interessante, e um par de questões mais. E acredito que sejam questões para continuar pesquisando.

Quando lemos tudo o que vai se desenvolvendo no livro sobre a sexualidade masculina, vemos que há uma estreita relação com a neurose obsessiva. Já Freud colocava que há uma intima relação entre neurose obsessiva e masculinidade e histeria e feminilidade. Isso é de constatação clínica, porém não se costuma desenvolver essa relação entre neurose obsessiva e masculinidade, histeria e feminilidade. Não se costuma argumentar, não se costuma fundamentar, porque traz o espinhoso problema do anatômico. Porque, quando dizemos masculinidade, aí estamos falando que a grande maioria dos neuróticos obsessivos resulta que são meninos, e isso é incômodo. Isso é incômodo e, por sua vez, é interessante, porque isso é real. Assim é a prática e é interessante abordar esse real tal como ele é. Abordar o que há, não o que deveria ser. O que é.

Acho que ela não tem nenhum problema com isso, o faz muito diretamente, não se questiona, não tem nenhum escrúpulo, não se preocupa por não ser politicamente correta e avança como tem que avançar um analista, além dos ideais da época, para interrogar o real de sua prática. E acho isso um ato de grande audácia da parte de Lêda.

Outro ato de grande audácia é o de dessacralizar o gozo feminino, dessacralizar o lugar da mulher como sinthoma. Então, ela pode chegar a dizer, por um lado, que para um menino o gozo que há é o gozo fálico. Não se trata de que chegue ao gozo feminino, trata-se de que possa passar pela castração para poder fazer amor com uma mulher, não de que alcance o gozo feminino. Os limites da estrutura do campo do gozo, ligados novamente ao dual do sexo e também à ideia de que uma mulher no lugar de sinthoma não é mais do que a mulher como objeto do fantasma do homem, e que justamente para que um homem possa encontrar-se com uma mulher, esse lugar de sinthoma tem que vacilar.

Isso também é uma dessacralização muito interessante do sinthoma. Bem, haveria muitas questões mais. É um livro muito interessante que coloca surpresas e novidades a cada página; então, aos que não o leram, convido-os a lê-lo.

Transcrição e tradução: Pablo Sauce
Revisão da tradução: Maíra Valente

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