Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
A questão do Outro nas novas formas de sintoma
Rogério de Andrade Barros
EBP/AMP
Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
A prática psicanalítica requer, seguindo as formulações de Lacan, estar à altura da subjetividade da época (Lacan, 1953/1998). Longe de depor as suas armas frente aos impasses da civilização, é necessário poder lê-los como um sintoma, podendo captar os rastros e restos que permitem a nossa clínica hoje, nem progressistas e nem nostálgicos (Miller, 2011), mas analiticamente. Se o sintoma neurótico – e, especialmente, a conversão histérica – foi o que permitiu a Freud articular pulsão e cultura, devemos, para o novo século, pensar os efeitos das mudanças da civilização sobre a manifestação sintomática do mal-estar.
Pensar os novos sintomas nos faz tomar a civilização como parceira, o que implica, sem contornos, abordar o tema do laço (Harari, 2018). Sabemos que é através do discurso que se faz o liame social, partindo do campo da linguagem e da função da fala. Entretanto, o novo mestre capitalista foraclui as coisas de amor, o que implica um rechaço à castração, pilar fundamental do laço social, tendo como efeito sintomas mudos, em que se incluem as novas patologias designadas pelas nosografias psiquiátricas: anorexias, bulimias, dependências, síndromes do pânico, entre outras. Delineia-se, então, um rompimento do Outro simbólico, par de alteridade para dar margem ao gozo, fazendo-nos interrogar, no um a um, quais as soluções que encontramos para dar um circuito a isso que, a rigor, se encontra fora da bússola.
Se o Outro simbólico corresponde a uma alteridade para que o gozo possa ser circunscrito, interessa pensar, para as novas formas de sintoma, o que cumpre essa função. Convencionou-se tributar aos novos sintomas o Outro que não existe (Miller, 2010), dando relevo, assim, à vertente autoerótica dessas manifestações (Miller, 2016), regimes de gozo sem Outro. Se o sintoma é o que aparelha gozo e significante, como pensá-lo, hoje, nos impasses que a civilização contemporânea nos apresenta? Que outro para os novos sintomas lhe permite fazer alteridade ao gozo?
O excesso como paradigma, a não cessão como pressuposto
Cosenza (2024), em seu livro Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea, toma o excesso como fio condutor dos quadros sintomáticos que caracterizam a clínica contemporânea. O excesso se apresenta desde a origem da clínica psicanalítica, especialmente no corpo. Habitado pelo gozo, o corpo é o que se goza em uma relação desarmônica. Rebelde à normalização da libido, o sintoma freudiano manifestava a relação entre a lei e o gozo, onde se depreende o objeto a como o que condensa a perda de gozo pela operação de linguagem a ser recuperada, restituída.
Para aparelhar perda de gozo e busca pelo objeto, é necessário que haja o que Lacan (1962-1963/2005) nomeia no seu Seminário 10, A angústia, de cessão do objeto, processo decisivo na constituição da subjetividade. Trata-se da produção dos objetos perdidos como restos da intervenção do Outro da linguagem sobre os corpos dos vivos.
A recusa radical à cessão do objeto é o que fundamenta a psicose. Entretanto, a clínica contemporânea nos apresenta soluções que evidenciam a rejeição ao Outro e, como consequência, a ação de regulação do gozo do corpo. Como efeito, temos uma cola ao gozo do Um, primordial, indivisível. Tal qual a recusa ao desmame, vislumbrada por Lacan, o objeto de gozo se apresenta intransferível, elipsando o sujeito em uma experiência de satisfação ilimitada. Esse novo excesso, não balizado pela lei edipiana, requer que pensemos uma nova escritura da economia libidinal no laço social na era do capitalismo avançado.
Hoje, testemunhamos novos métodos de recusa à cessão do objeto criados e difundidos pelo mercado. Frente à oferta ilimitada de objetos gadgets, correspondem circuitos de gozo não perdido que funcionam autarquicamente, alternativas aos delírios e às alucinações, ao fracasso da incorporação da lei do Outro.
Apesar da dimensão psicótica que se evidencia no laço atual, as novas formas de sintoma, apesar de nos apresentarem uma dimensão não metafórica, em que não se cede parte do gozo ao Outro, permitindo-nos fazer uma passagem da clínica da falta e do desejo à clínica do ilimitado e do transbordamento, não generaliza a estrutura psicótica, mas antes, a foraclusão. É a clínica das soluções, dos estilos de vida, dos modos de gozo estáveis e repetitivos que organizam o sistema de práticas cotidianas. Gozos de circuitos fechados sem freio aos objetos de dependência, seja neurótico ou psicótico. Clínica dos polisinthomados, recurso ao enodamento que se faz às expensas do furo simbólico, apresentando reparos ao lapso do nó que não necessariamente se apresentam como outrora (Schejtman, 2015).
O Outro que existe no tempo da internet
Se a cessão do objeto corresponde ao Outro simbólico, barrado, faltante, incompleto, tendo do encontro com ele a queda do objeto a, sua produção, podemos dizer que a não cessão do objeto, tributária da lógica civilizatória do gozo em tempos de capitalismo avançando, corresponde não ao Outro inexistente, mas ao Outro consistente, sem faltas. Tomo aqui a internet como paradigma para pensar o Outro contemporâneo e os efeitos de gozo gerados nesta modalidade de par.
De acordo com Laurent (2024), em uma entrevista concedida por ele e intitulada “Gozar da internet”, o outro virtual é coeso e completo. A internet mudou a forma como nos relacionamos com o mundo, funcionando como um novo órgão que dá a ilusão de acesso ao mercado digitalizado e globalizado. Assim, a internet é um novo campo oferecido à loucura de crer-se Um na escala do mundo, engrenada sob a paixão narcísica. Nessa perspectiva, os grupos virtuais difundidos nas redes podem servir para dividir o mundo em comunidades herméticas, isoladas como câmeras de eco. Um outro imaginário, não mais simbólico, que dá um tratamento ao gozo, operando pelas generalizações aglutinadoras dos S1 que carecem de sentido, comunidades sede de identificações massivas que organizam estilos de vida e modos de gozo do corpo, sem apelo ao Outro simbólico.
Fajnwaks (2017), por sua vez, indica haver entre o Outro da internet, lugar do código, onde se depositam os significantes do sujeito, e nos dados decorrentes da sua utilização, e o lugar do Outro, cunhado por Lacan, similaridades. A diferença é que este Outro da internet é de síntese, não havendo, assim, efeito de metáfora. O que se apresenta é uma cifragem sem equívoco e sem resto, em que se pretende recobrir o real pelo simbólico.
Se a internet favorece a loucura narcísica, onde reúne-se o Ser, eliminando-se o enigma, o discurso analítico se dirige ao sujeito para que ele, na sua produção, separe-se e deixe cair os significantes-mestres, S1s, que comandam a sua existência. Nessa direção, o discurso analítico vai de encontro à paixão narcísica ao orientar-se pelo real. Descoberto o furo que incita ao saber, cabe pensar que jogadas o analista pode fazer para entrar na partida como um Outro inconsistente e incompleto, sem que o horror ao furo convoque, rapidamente, o recurso ao ChatGPT, por exemplo, outro especular que sutura no tom e passo da urgência atual.
Referências
COSENZA, Domenico. Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea. Belo Horizonte: Scriptum, 2024.
FAJNWAKS, Fabián. (2017). Não haverá algoritmo para digitalizar o analista. Derivas Analíticas, Revista Digital de Psicanálise e Cultura da Escola Brasileira de Psicanálise – MG, Belo Horizonte, n. 23, ago. 2025. Disponível em: http://www.revistaderivasanaliticas.com.br/index.php/algoritmo-analista. (Originalmente publicado na revista La Cause du désir, Paris, n. 97: Internet Avec Lacan, nov. 2017. Gentilmente cedido pelo autor para tradução e publicação na revista Derivas Analíticas.)
HARARI, Angelina. Fundamentos da prática lacaniana: risco e corpo. Belo Horizonte: Relicário, 2018.
LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. (1953) In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 238-324.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: A angústia. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LAURENT, Éric. Gozar da internet. (2024) Derivas Analíticas, Revista Digital de Psicanálise e Cultura da Escola Brasileira de Psicanálise – MG, Belo Horizonte, n. 23, ago. 2025. Disponível em: https://www.revistaderivasanaliticas.com.br/index.php/gozar-internet.
MILLER, Jacques-Alain. El Otro que no existe y sus comités de ética. Buenos Aires: Paidós, 2010.
MILLER, Jacques-Alain. Ler um sintoma. Afreudite, Revista Lusófona de Psicanálise Pura e Aplicada, Lisboa, ano VII, n. 13/14, p. 1-30, 2011. Disponível em: https://recil.ulusofona.pt/items/6e016cfa-b341-4e09-ba1c-9a98b33500f0.
MILLER, Jacques-Alain. Para uma investigação sobre o gozo autoerótico. Pharmakon digital, v. 2, nov. 2016.
SCHEJTMAN, Fabián. Sinthome: ensayos de clínica psicoanalítica nodal. Olivos: Grama Ediciones, 2015.
