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A voz da música como escuta do indizível

Liliane Sales
Associada ao instituto de Psicanálise da Bahia

O conceito de pulsão foi elaborado por Freud (1915/2019) para se referir à exigência de trabalho constante ao aparelho psíquico, ainda que a pulsão não pudesse ser localizada exclusivamente no campo psíquico, tampouco no campo somático, mas sim, em uma junção dos dois que ressoa sobre o corpo. Em Lacan (1964/2008), a pulsão se torna um conceito que engendra uma articulação entre significante e corpo. Poderíamos dizer que uma das especificidades da pulsão é o ritmo que se encontra ao lado do significante, correlato à alternância encontrada na musicalidade da voz materna, ou seja, o ritmo, o tom de voz da mãe que constitui a experiência da vida psíquica do bebê.

O funcionamento pulsional é marcado pelos efeitos da ação da linguagem sobre o corpo, os quais, inicialmente, atuam em torno dos orifícios corporais, estendendo-se por todo corpo, transformando-o em um corpo pulsional.

Lacan nos lembra que os ouvidos são os únicos orifícios que não podemos fechar.

Pensando nessa função aberta dos ouvidos, da escuta atenta, lembrei-me de uma passagem de uma entrevista com o cantautor Lenine, músico da MPB, quando lançou seu CD com título “Chão”. Lenine conta que tem paixão pela palavra “chão”, que é nasal, monossílaba, onomatopeica, pois é, ao mesmo tempo, um lugar que sustenta. A capa desse CD é uma fotografia do artista deitado com seu neto dormindo sobre o seu corpo. O músico destaca o corpo como função de chão para amparar o bebê. Trata-se de um trabalho que ele considerou íntimo, familiar, em que os sons que permeiam a música são de ruídos do cotidiano, reais, e não feitos por efeitos especiais – assim como o som de passos, folhas secas, chaleira de leite. No momento da gravação, em um estúdio em casa, fazem um pequeno intervalo e, naquele instante de silêncio, seu filho abre a porta e eles ouviram o cantar do canário-belga, que é um pássaro da sua sogra e se chama Frederico VI. O silêncio da música no estúdio soa lá fora o canto do pássaro no mesmo tom e faz um arranjo junto com a música. Frederico VI, o canário-belga, e Lenine foram afetados pelos sons que os invadiram e que podemos chamar de uma pulsão invocante, como nomeou Lacan ao tratar do objeto voz.

Esse intenso resultado dos arranjos de vozes, instrumentos e silêncios provocou encantamento aos ouvidos que foram intimados pela sonoridade compartilhada.

Cito Marcus André Vieira (2018), em um dos seus testemunhos do passe: “Essa invocação que Lacan chamou de ‘presença do Outro’ sob sua forma vocal, solicitando-nos o mais íntimo do nosso desejo.” (p. 75). Desejo, palavra usada pelo artista ao se referir à alegre contingência de ouvir aquele canto afinado à sua arte, logo, nesse projeto que privilegia os sons naturais. A linguagem externa do pássaro, de passos, da vida lá fora, ganhou alma ao atravessar a porta do estúdio de gravação de voz e de instrumentos que tocam ao ressoar, mas que foram também tocados.

A pulsão invocante é um conceito da psicanálise que relaciona a voz com o corpo e a linguagem. A voz é o objeto da pulsão invocante, que foi proposta por Lacan. A pulsão invocante desnatura o corpo com a linguagem, faz com que a voz não seja apenas sonora, mas também significante. Permite que um novo falante assuma a palavra.

A voz, na psicanálise, não é algo que se usa, mas sim aquilo que não se pode dizer. Ela é o vazio do outro, que ressoa na voz.

O gozo passa pela linguagem, passa pelo significante – o canto do pássaro vira signo para o artista ao passar pelo simbolismo da música e seus arranjos.

O objeto da pulsão é, por definição, um objeto perdido. A meta da pulsão é sempre a satisfação. Ela contorna o objeto, cria-o e volta-se sobre si mesma encontrando a satisfação. Ativa ou passiva.

O trabalho em análise são os efeitos de ressonância da voz do Outro no sujeito e suas consequências, bem como a dimensão de gozo que a trama simbólica-real-imaginária musical põe em cena, o que leva ao analista uma questão crucial sobre o desejo. Há, no desejo, um ponto surdo que faz com que cada analista venha a se autorizar como uma função para um sujeito em análise. Escutar o que tem de mais singular do sujeito e se permitir se surpreender. Permitindo, contudo, um canto, uma voz peculiar, convocando a sustentar a dimensão de despertar para o sujeito.

Canto surdo que se apresenta como advertido, portando um inaudito. Colocando o desejo em causa e invocando uma saída nova por improviso. Assim como a voz invocante do pássaro fora do estúdio, esse dentro/fora que, agora, é absorvido e eternizado em música, marca o que ressoa do desejo do artista, bem como do sujeito que faz ressoar o que antes era inaudito no seu canto surdo. O gozo do encantamento da voz do Outro, onde a escuta é erotizada pela musicalidade.


Referências

FREUD, S. As pulsões e seus destinos. (1915) Tradução: Pedro Heliodoro. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. (Obras incompletas de Sigmund Freud)

LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. Cap. XIV – A pulsão parcial e seu circuito, p. 165-176.

VIEIRA, M. A. A escrita do silêncio: voz e letra em uma análise. Rio de Janeiro: Subversos, 2018.

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