Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
Apresentação do livro O que é ser homem? (¿Qué significa ser un hombre?), de Lêda Guimarães
Luis Darío Salamone
AME EOL/AMP
Boa tarde. Lamento muito não falar português, mal falo castelhano. E ainda por cima, costumo falar rápido demais. Vou tentar diminuir minha velocidade habitual. Qualquer coisa, por favor, me avisem.
Para mim, é uma alegria compartilhar este momento com vocês. Agradeço muito o convite. É lindo lembrar de Lêda.
Agradeço imensamente o trabalho de Liliane com este livro. Ele já faz parte de algo que estou escrevendo, um livro que se chama Tratado de la obsesión.
É um prazer compartilhar esta apresentação com Pablo, Raquel e Nieves. Um prazer estar com todos os colegas do Brasil e de outros lugares. Com André Guimarães, com pessoas queridas como Iordan e com Bernardino, cujo excelente livro sobre a velhice acabei de ler.
Conheci Lêda a partir de um de seus testemunhos. Não éramos amigos, nem nos conhecíamos. Quando conseguimos nos sentar para tomar um café, eu disse a ela que, no que diz respeito ao gozo feminino, ela era uma das únicas pessoas com quem eu concordava. Fundamentalmente porque ambos separávamos o gozo feminino do superegoico, enquanto muitos analistas pareciam confundi-los. Eu tinha feito minha tese de doutorado sobre o tema e havia chegado a essa conclusão por dois caminhos: a matemática lacaniana e a literatura, suas referências à poesia mística. Ela havia chegado a essa conclusão por sua própria experiência analítica. Lembro que, quando nos sentamos num bar, ela desenhou um esquema num guardanapo que me esclareceu de forma simples a diferença entre o gozo feminino e o fálico – com dois vetores, mostrou que não se tratava de uma questão de quantidade (mais orgasmos, o que remete a algo contável, fálico), mas de qualidade, e como esse gozo se dá além da dimensão fálica.
Conversamos longamente sobre o gozo do homem e da mulher ao final da análise. Ambos pensamos que deveríamos fazer algo e decidimos escrever juntos um livro. Depois daquela conversa, daquela única conversa, havia algo que nos unira para sempre. Não era uma época de auge da internet. Talvez hoje tivéssemos dado um seminário por Zoom. Uma brasileira e um argentino publicando um livro com a característica de estar em português e castelhano. Convidamos um espanhol, Miquel Bassols, então presidente de nossa instituição, para escrever o prefácio. Foi realmente um livro que nasceu dentro da AMP.
Eu havia terminado meu trabalho como AE e tinha acabado de publicar um extenso texto sobre meu testemunho chamado “La aventura de un análisis”. Por isso meu texto foi teórico, o de Lêda testemunhal.
Lêda Guimarães foi uma analista de uma lucidez extraordinária, uma mulher que pensou a psicanálise desde seu desejo. Era uma mulher de desejo, com uma intensidade que a aproximava tanto da clínica quanto da poesia. Depois de ter interrogado durante anos o gozo feminino, ela voltou sua pergunta para o outro lado do mapa: o homem. O que é ser homem? Essa pergunta, que à primeira vista remete à identidade, no campo da psicanálise se abre ao impossível: ao modo como um sujeito se situa diante da falta, do gozo e do amor.
Neste livro, Lêda desenvolve uma investigação que é mais do que teórica: é uma experiência de transmissão. Sua escrita se enraíza no desejo de saber, mas também no desejo de escutar. Escutar os homens analistas (os chamados AE, Analistas da Escola) após o final de sua análise, quando o gozo foi reconfigurado e a palavra adquire a espessura do vivido. Ali, nessas vozes, Lêda interroga com delicadeza e acuidade: pode um homem acessar o gozo feminino? Pode amar sem devorar, desejar sem degradar, sustentar o amor sem a mediação do falo?
Para Lêda, a diferença entre os sexos se joga, como em Lacan, numa lógica do gozo e numa maneira de habitar o desejo. Ela situa a questão no próprio núcleo do enigma humano.
O homem, ela diz, vive em dois mundos: o discursivo, onde fala de si, e o secreto, onde seu gozo é guardado como um tesouro ou uma vergonha. Entre esses dois mundos instala-se a impotência psíquica, essa forma de limite que Freud descreveu como universal na civilização, e que Lêda relê à luz do pensamento de Lacan como um modo estrutural de defesa frente à invasão do gozo feminino.
O livro avança, então, como uma cartografia do gozo masculino: o horror fóbico do homem, sua angústia de castração, o refúgio obsessivo, a fascinação pelo sinthoma que encarna a mulher. Mas também, e sobretudo, sua possibilidade de deslocamento. Porque o que aqui se interroga é a possibilidade de transformar um destino. Uma transformação da posição subjetiva. Quando um homem atravessa seu fantasma e se confronta com sua própria falta, pode deixar de fazer do outro um objeto de ódio ou idealização. Pode amar sem compreender.
Na escrita de Lêda, há algo profundamente vital. Seu modo de pensar a psicanálise não separa o rigor conceitual da intensidade do desejo. Cada frase sua vibra com a música de quem viveu o ato analítico como uma paixão ética. Em O que é ser homem?, essa paixão se torna ainda mais audaz: a de uma mulher que ama os homens, que ousa lhes perguntar, que não os julga nem os absolve, mas os interroga desde o amor e o saber. Essa posição é o que torna este livro um acontecimento: um gesto de pensamento que, a partir da diferença, propõe outra forma de relação entre os sexos, fora da idealização, no terreno incerto e fecundo do gozo.
Quando Lêda Guimarães pergunta o que é um homem, ela está longe de buscar uma definição – fala de sua experiência, do que escutou na clínica, da maneira como um sujeito habita sua falta, seu desejo e seu gozo.
Desde Freud, sabemos que o homem está marcado pela impotência, pela cisão entre amor e desejo, pela angústia diante do corpo feminino que encarna o irrepresentável. Mas Lêda leva essa pergunta mais longe: interroga o mistério do gozo nos homens, sua maneira de amar, sua defesa diante do excesso, sua tentativa de sustentar-se na lógica fálica para não cair no ilimitado. Lêda escuta os homens. A diferença entre os sexos torna-se um campo de interrogação – com essa paixão e ternura que a caracterizavam.
Lêda Guimarães é uma mulher que olha para o homem a partir do amor e se atreve a escutar aquilo que, em alguns homens, roça o impossível: esse tremor do corpo que se abre ao gozo feminino.
Em sua escrita, o homem torna-se um enigma vivo, vulnerável, desejante. A partir desse olhar, O que é ser homem? não busca responder à pergunta do título, mas mantê-la aberta: mais do que saber o que é um homem, trata-se de seguir escutando o que ele pode vir a ser quando o amor e o gozo deixam de se excluir.
Como bem diz Nieves no prefácio (não haveria maneira melhor de expressar), neste livro pude escutar essa voz amorosa de Lêda que permanece viva em sua letra.
Tradução: Júlia Jones
Revisão de tradução: Maíra Valente
