Leila Mignac Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia “O que meu corpo sabe da…
Arriscagem: rasura de uma praticante de psicanálise
Lara Cedraz Carneiro
Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia
De pernas cruzadas e um frio que dá calor, percorrendo a caixa dos peitos e passando pela barriga. Com a mão direita, unindo três dedos, um grafite de ponta 05. Traço fino, firme numa linha não tão reta. Penso antes e depois, a escrita vem do meio como se os meus dedos soubessem seguir o próprio caminho. Ainda não sei se as palavras vêm até mim ou se sou eu que vou até elas – acho que esse não é o x da questão. Fato é que existe um encontro. É do encontro da água com a terra que trata Lacan (1971/2003) em seu último ensino, no qual passa a orientar-se pelo real, trazendo a interpretação como leitura.
Talvez apenas por ter aprendido a brincar com o impossível é que ele dedicou seu último ensino à tentativa de transmitir em seus seminários algo que esbarra, justamente, nos limites da linguagem. E talvez por ter sido tocada por algo dessa transmissão que “desci pro play”, embarcando nessa loucura. Isso ocorre visto que se trata de algo que não passa pela via do entendimento da teoria, mas de uma experiência que ocorre no e com o corpo. Passamos boa parte da nossa vida aprendendo diversas coisas e nunca fomos ensinados a desaprender. Desconfio, no entanto, que para tratar desse tema é preciso estar disposto a repetir essa matéria até que ela se ex-time em você. Sobre ela, quem nos ensina melhor são os poetas, como diria Manoel de Barros (2016): “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios. / […] As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: / Elas desejam ser olhadas de azul – / Que nem uma criança que você olha de ave.” (p. 15, 18)
Não à toa, Lacan (2009) fala no Seminário 18: “é que talvez eu só seja lacaniano por ter estudado chinês no passado” (p. 35). Isso acontece pois ele se deparou com uma forma “estranha” de escrita que possui uma lógica diferente da ocidental, baseada no alfabeto, na qual uma letra possui uma indicação fonética exata, alimentando uma falsa equivalência entre fala e escrita. O que ocorre nessa língua é que um mesmo som pode ser escrito de vários jeitos e, dessa forma, faz existir uma vasta gama de homofonia sonora. Além disso, duas linhas que possuem os mesmos caracteres escritos podem significar coisas completamente diferentes, a depender de como são pontuadas e entonadas. Ou seja,
Nesse caso, a escrita viria em socorro de uma inevitável equivocidade da fala. E em outras tantas vezes, é exatamente a escrita dos caracteres que, numa brincadeira ou jogos de palavras, com uma fineza encantadora, reintroduz a equivocidade que parecia ter se dissipado na fala (Andrade, 2016, p. 27).
É uma língua que não facilita o entendimento pois é cheia de mal-entendidos e ambiguidades. Assim, o sentido é criado a partir de um ato de leitura e, para tal, é preciso possuir um conhecimento da língua e estar a par do contexto para extrair algum sentido possível. O que podemos aprender com a escrita chinesa é que dentro de uma língua, seja ela qual for, há sempre um estrangeiro. Ou como diria Lacan (1971/2003), a linguagem é habitada por quem fala.
Com o quarto corte epistêmico do seu ensino, o interesse passa a ser, para aquém da linguagem, o estranho que a habita. Como acessá-lo? A busca vai em direção ao mais primitivo ponto de interseção entre o discurso e o pulsional: a letra como litoral. Lacan (1971/2003), em “Lituraterra”, utiliza a metáfora do litoral, onde dois elementos feitos de substâncias diferentes se encontram sem uma fronteira muito bem estabelecida, na qual não se sabe onde um termina e começa o outro. No encontro entre água e terra formam-se sulcos que desenham uma rasura, uma escrita de gozo.
O autor coloca que a escrita no real é o ravinamento do significado, o que choveu do semblante como aquilo que constitui o significante: “A escrita não decalca este último, mas sim, seus efeitos de língua, o que dele se forja por quem a fala.” (Lacan, 1971/2003, p. 17). Dito de outra forma, existe aquilo que nos fez e há também o que fazemos daquilo que fez de nós. É o que Horne (2022) traz como uma escrita dupla, sendo “essa primeira, determinante, é uma escrita que se instaura através do Um. Não é como uma chuva, é como um vulcão que, de dentro, explode e traça sulcos pelos quais, posteriormente, se encaminharão os significantes que caem da nuvem do Outro.” (p. 42).
Por que é interessante para nós, praticantes de psicanálise, acessar essa outra dimensão? Pois cada vez que alguém vai ao consultório de um analista, chega também, justamente, essa língua estrangeira, singular, secreta. Dessa forma, falar a língua dos segredos “tem o efeito de fazer desaparecer o vínculo entre saber e verdade, ou mais exatamente de arrancar da verdade sua face de satisfação, ao desconectá-la do sentido, como Lacan assinala.” (Brousse, 2008, p. 13).
Freud (1911/2010) já havia nos alertado que, ao adentrar num país estrangeiro, a moeda do seu país de origem perde a utilidade: é preciso manusear a local. Para demonstrar os riscos de não utilizar a moeda que possui serventia, trago um recorte da peça Hamlet, ato III. Trata-se de um rico diálogo entre Rosencrantz – amigo de infância de Hamlet convocado pelo rei para descobrir o que se passava na cabeça dele – e o príncipe. Após o amigo queixar-se de Hamlet não querer contar a razão da sua tristeza, o príncipe lhe entrega uma flauta e pede, insistentemente, para que o amigo a toque. Rosencrantz responde que não pode, pois não possui tal habilidade. Então Hamlet diz:
[…] Pensou que eu fosse um instrumento no qual poderia tocar à vontade, só porque imaginou conhecer minhas chaves. Tinha a intenção de penetrar no coração do meu segredo, para experimentar toda a escala dos meus sentimentos. No entanto, apesar de conter esse instrumento bastante música e de ser dotado de excelente voz, não conseguiu fazê-lo falar. […] Imaginou, então, que sou mais fácil de tocar do que esta flauta? Dai-me o nome do instrumento que quiser; ainda que seja fácil me ferir, nunca me fará produzir som (Shakespeare, 1603/s.d., p. 105).
Para falar a língua dos segredos, “É preciso um embalo que só consegue quem se desliga de seja lá o que for que o traça.” (Lacan, 1971/2003, p. 21). Isso ocorre porque a interpretação passa a estar inscrita no registro do Um, ou seja, no campo do sem sentido. Um longo suspiro, um gole d’água. Uma dúvida que insiste: de que modo aprender a fazer esse tipo de leitura? Creio que não existe escapatória nem salvação. O único modo de aprender a fazer é fazendo — há um risco necessário. Apresento-lhes, então, minha arriscagem: rasura de uma praticante de psicanálise. Para finalizar, cito quem melhor me ensina sobre o inominável: “Assim como me lanço no traço de meu desenho, este é um exercício de vida sem planejamento. O mundo não tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração. Deixo-me acontecer.” (Lispector, 2020, p. 20).
Referências
ANDRADE, Cleyton. Lacan chinês: poesia, ideograma e caligrafia chinesa de uma psicanálise. 2. ed. Maceió: Edufal, 2016. 207p.
BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.
BROUSSE, Marie-Hélène. Moments d’une histoire d’amour. La Cause freudienne, Paris, n. 68: Notre sujet supposé savoir, p. 14-17, 2008.
FREUD, Sigmund. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. (1911) In: FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (O caso Schreber), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 108-121. (Obras completas, 10)
HORNE, Bernardino; GURGEL, Iordan (orgs.). O campo uniano: o último ensino de Lacan e suas consequências. 1. ed. Goiânia: Ares Editora, 2022.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. (1971) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
LACAN, Jacques. Lituraterra. In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 15-27.
LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.
SHAKESPEARE, William. A trágica história de Hamlet, príncipe de Dinamarca. (1603) Edição de Ridendo Castigat Mores. s/d. Disponível em: http://www.jahr.org ou http://www.ebooksbrasil.com. Acesso em: 26 out. 2025.
