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Clarice no litoral: pegar a palavra com a mão e voltar com as mãos vazias

Wilker França
Associado ao Instituto de Psicanálise da Bahia

“Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?”, perguntou-se Clarice Lispector (1998a) no início de A hora da estrela. E é bem antes de este texto acontecer que ele já vem acontecendo, seja quando participei de uma discussão em uma atividade de Intercâmbio na EBP-BA, em 2023, com Luz Horne, seja em meados dos anos 2000, época em que eu só lia Clarice e resistia a qualquer outro escritor; ou agora, em um exercício de escrita, em um papel instante-já, conversando com Freud e Lacan.

A família de Clarice imigrou para escapar da guerra que assolava o país onde moravam. A mãe de Clarice faleceu quando ela tinha apenas dez anos, vítima de paralisia progressiva, possivelmente decorrente da sífilis, doença então sem cura (MOSER, 2017). Mas, como as coisas acontecem antes de acontecer, há uma história que antecede o nascimento de Clarice. Ela mesma nos relata parte dessa história em “Pertencer”, incluído em A descoberta do mundo:

Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida. No entanto, fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei (Lispector, 2019, p. 110).

É a partir dessa falha que Clarice se fez. Mas, longe de tentar interpretá-la, ela mesma nos diz: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz” (Lispector, 1999, p. 11).

E é dessa mesma falha, que rima com a vida e desemboca na escrita, que intitulei este texto: “Clarice no litoral: pegar a palavra com a mão e voltar com as mãos vazias”. Luz Horne ressalta, tanto na personagem Macabéa, de A hora da estrela, quanto nos personagens dos contos de Laços de família, uma escrita que desafia um sistema rigidamente delimitado de categorias e fronteiras bem definidas. Ela observa que a escrita de Clarice

[…] desestabiliza a divisão entre o dentro e o fora, entre o que é mental e o que é corporal, entre o que é íntimo e o que é público, entre o que é familiar e o que é estranho, entre o que é prazeroso e o que é doloroso, entre o belo e o repugnante; mas também – segundo um movimento que será cada vez mais pronunciado na obra de Clarice Lispector – entre uma escritura literária e uma outra que desafia constantemente as taxonomias (Horne, 2021, p. 225).

Toda essa discussão trazida por Luz Horne remete-me à noção de letra em Lacan (1956/1998). Na leitura que o autor faz do conto de Edgar Allan Poe, “A carta roubada”, ele se ocupa da materialidade das palavras. O conto narra a história de uma carta pertencente à rainha que foi roubada e cujo conteúdo não podia ser revelado a terceiros. A polícia foi chamada para recuperá-la, mas, apesar de enormes esforços, não conseguiu, pois buscava a carta apenas pela descrição da rainha, vasculhando possíveis esconderijos.

Em contrapartida, o detetive Dupin não considerou a carta apenas pela descrição fornecida; ele levou em conta seu possível disfarce. Supôs que ela estaria em algum lugar evidente e que o ladrão agiu com singeleza, o que permitiu encontrá-la. Lacan (1956/1998) sublinha, portanto, que Dupin apreendeu a carta não apenas como mensagem ou descrição, mas também em sua dimensão material, que possibilita que seja manuseada, travestida ou rasgada. Nesse momento, para Lacan (1956/1998), a materialidade da letra/carta se associa ao paradigma da perda, ao não-dito e ao segredo, remetendo-nos ao registro simbólico.

Em “Lituraterra”, Lacan (1971/2003) dedica-se à letra mais em sua dimensão caligráfica do que tipográfica, conforme observa Marcus André (2018) em A escrita do silêncio. Ele refletia sobre a fronteira, não tão bem delimitada, entre saber e gozo, um ‘litoral’, como o próprio Lacan denominou. Esse litoral é, ao mesmo tempo, literal. Ele nos diz: “Entre o centro e ausência, entre saber e gozo, há litoral que só vira literal quando, essa virada, vocês podem tomá-la, a mesma, a todo instante” (Lacan, 1971/2003, p. 21-22).

Ao sobrevoar as planícies da Sibéria, Lacan (1971/2003) observou, pela janela do avião, o ravinamento das águas nas montanhas: a chuva provoca alterações no solo, formando canais de concentração e escoamento capazes de incisões na superfície do solo. Nesse processo, surgem sulcos na terra.

É a partir dessa imagem que Lacan (1971/2019) passa a pensar a letra. Para Lacan (1971/2019), as nuvens seriam os semblantes que, ao se romperem, forjam a precipitação da água, metáfora para o gozo que nos habita, e é isso que produzirá as rasuras na terra. Nesse momento, a letra se descola de sua dimensão significante e se converte em pura literalidade, ao lado do real. Lacan (1971/2019) inicia o texto nos colocando diante da palavra liturarius, indicando um escrito que possui rasuras e é a partir daí que cunhará o termo “lituraterra”. Uma escrita que está mais próxima das marcas de gozo, e então ele passa a discorrer sobre a escrita chinesa. “Para lituraterrear, eu mesmo, assinalo que aqui faço imagem no ravinamento, com certeza, mas nenhuma metáfora: a escrita é esse ravinamento” (Lacan, 1971/2009, p. 116).

Em um esforço de poesia, podemos destacar algo dessa dimensão de letra na escrita de Clarice: desse limite não tão bem definido, desse borrão, desse litoral entre o sentido e o fora do sentido. Trata-se de uma escrita que dá espaço aos sulcos e ravinamentos. Cristiane Barreto (2021), ao comentar uma passagem de A paixão segundo GH, observa que “a letra prepondera sobre o sentido engendrado nas palavras” (p. 1). Clarice insiste em escrever sobre aquilo que não se inscreve.

Ao utilizar a palavra para além de sua dimensão de sentido, Clarice toca na materialidade e faz do literal, litoral – “[…] como pegar com a mão a palavra. A palavra é objeto?” (Lispector, 1998b, p. 12). “Mas onde estão as palavras? Esgotaram-se os significados. […] Eu queria que me dessem licença para que eu escreva ao som harpejado e agreste, a sucata da palavra” (Lispector, 1999, p. 14).

Uma escrita-litoral que marca o furo da linguagem, como ela destaca em A paixão segundo GH:

Eu tenho à medida que designo – este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu (Lispector, 2009, p. 176).

Essa passagem não deixa dúvidas de que os artistas precedem os psicanalistas, como nos ensinou Freud (1908/2015). A Clarice lacaniana nos mostra que é no próprio fracasso da linguagem que se escreve algo do gozo opaco ao sentido. Do impossível de salvar a mãe à letra-litoral, ao consentir com o furo e fazê-lo ressoar em seus textos, Clarice dá lugar ao insondável: borda uma fronteira bailante, águas que vão e vêm, areia, um litoral. Ela não salva, mas vivifica cada corpo-leitor que se deixa afetar por sua escrita-deslumbramento.

No impossível de prescindir da linguagem, ela marca um “esforço de poesia”, em que o eco das palavras, o espaço em branco entre elas, o som do texto, predominam sobre o sentido, convocando aí um corpo vivo que, se se deixar afetar, experiencia o que ressoa do impossível de simbolizar.

Seja a barata em A paixão segundo GH, o rato no conto “Perdoando Deus” ou o cego mascando chiclete no conto “Amor”, esses elementos funcionam como uma tiquê que irrompe em uma narrativa encadeada pelas elucubrações dos personagens. Fazem cair o véu dos semblantes e revelam o nada que estava recoberto.

Talvez seja exatamente isso que Clarice possa ensinar aos psicanalistas. Uma análise começa com um convite: “Fale livremente o que vier à cabeça”. Nesse encadeamento de ideias do analisando, uma das funções do analista seria justamente se fazer barata, se fazer rato, se fazer cego mascando chiclete, isto é, introduzir o elemento que rompe a continuidade do sentido, abrindo espaço para o surgimento de algo novo. Um analista que faz ressoar os ravinamentos, as marcas de gozo, quando o que se tem são nuvens.


Referências

BARRETO, Cristiane. O indizível na escrita de Clarice Lispector. Boletim Infamiliar, XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, 20 fev. 2021. Disponível em: https://www.encontrobrasileiro2020.com.br/cristiane-barreto-e-fabiola-ramon-comentam-o-fragmento-do-livro-a-paixao-segundo-gh-de-clarice-lispector. Acesso em: 15 jun. 2023.

FREUD, Sigmund. O poeta e o fantasiar. (1908) In: FREUD, S. Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. (Obras incompletas de Sigmund Freud)

HORNE, Luz. Desfamiliarizar os laços: a escritura estrábica. In: ANTELO, Marcela; GURGEL, Iordan (orgs.). O feminino infamiliar: dizer o indizível. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, 2021. p. 221-230.

LACAN, Jacques. O seminário sobre “A carta roubada”. (1956) In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 13-67.

LACAN, Jacques. Lituraterra. (1971) In: LACAN, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 15-27.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. (1971) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1998a.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela.Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1998b.

LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1999.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo GH. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2009.

LISPECTOR, Clarice. Pertencer. In: LISPECTOR, C. A descoberta do mundo.Rio de Janeiro: Rocco, 2019.

MOSER, Benjamin. Clarice: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

VIEIRA, Marcus André. A escrita do silêncio: voz e letra em uma análise. Rio de Janeiro: Subversos, 2018.

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