Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
De objeto amado a dessexualizado, uma crise no laço
Graziela Vasconcelos
Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia
[…] sujeitos que, na multiplicação desenfreada de parceiros, sob o imperativo de um gozo permanente e imediato, se abandonam não ao destino que o inconsciente lhes traça, mas a um consumo no qual se anula toda divisão na estrita dependência corporal; a sexualidade junta-se, assim, ao regime das adições como outras tantas formas de preencher o vazio. É no acting que o sujeito se defende da vergonha (Alberti, C. Não há relação sexual. Argumento do XV Congresso da AMP).Para dizer da relação sexual na contemporaneidade, ou melhor, do não-há da relação sexual em nossos dias, Christiane Alberti, em seu Argumento para o XV Congresso da AMP, nos conduz a uma leitura acerca das “parcerias amorosas” à luz de uma civilização (des)orientada por um pseudodiscurso, o do capitalista; e tendo como enquadre os problemas e paradoxos da sexualidade atual, notadamente manifestos nessa dita parceria.
Os embaraços concernentes a uma relação de casal tornaram-se um grande problema do século XXI. Miller (2003) dará aos problemas das parcerias amorosas o estatuto de sintomas atuais, e é precisamente o que Alberti desfia no trecho que destaco de seu argumento. Estamos diante de uma mudança que é fulcral e concerne ao campo do não-há relação sexual. Se antes os problemas eram os sintomas das parcerias, os ciúmes, a infidelidade; hoje, a parceria em si se tornou o problema, como propõe Miller (2003, p. 15) em seu texto “Problemas de pareja: cinco modelos”. Ao modo dos sintomas atuais, das adições, o parceiro, não mais na condição de objeto de amor, entra na série dos objetos que encarnam o suposto dom de criar algo que preencha o vazio, quando sabemos com Lacan (1953-1954/1986), no Seminário 1, que esse lugar privilegiado se outorga somente à palavra, mas não irei nela me deter.
Sustentar o laço com o outro e por meio do Outro tornou-se a aflição em questão. Nesse encontro com a alteridade encarnada no parceiro e sem a égide do Outro simbólico, o impossível da relação sexual catapulta o sujeito na elaboração de uma solução que a faça existir. Para cada sujeito, sua solução sintomática: a uns, o objeto droga; a outros, o objeto nada. Aqui, proponho o objeto parceiro; sendo um novo, ou talvez vários, o que Alberti chama de multiplicação desenfreada, tem como meta tamponar a falta. Este objeto “amado” traslada de uma posição de causa de desejo, que implica a divisão subjetiva, ao lugar de dessexualizado.
Esse é um ponto fundamental que Alberti põe em relevo no desenvolvimento de seu argumento e que nos exige uma imersão a maior profundidade. Para isso, ela nos aparelha com o que Lacan (1964/1985, p. 147) propõe em seu Seminário 11 ao colocar em jogo o termo dessexualização. Lacan aponta que a oposição que faz Freud do princípio de realidade ao princípio do prazer se dá em razão de que aí a realidade é definida como dessexualizada. Esse caráter dessexualizado da realidade, como nos disse Alberti, funciona como chave de leitura para pensar o desencanto, ou até o rechaço, que se produz na contemporaneidade, ao que se refere ao sexual, quando o parceiro, enquanto esse objeto, “se evade rumo à vertente da realidade”.
Em cada novo modo de constituição de parcerias, que distinguimos na profusão de opções à disposição; a cada troca de parceiro, que denuncia a instabilidade dos vínculos com o outro; algo de uma mostração parece estar em jogo. É o que, no argumento de Alberti, aparentemente, não passa despercebido e que ela enuncia da seguinte forma: “É no acting que o sujeito se defende da vergonha.”
Tomarei, para precisar a minha leitura acerca desse enunciado, dois aspectos do desenvolvimento que faz Lacan (1962-1963/2005) sobre o acting out em seu Seminário 10: o primeiro, o caráter de resto, objeto a, naquilo que é mostrado, e que será a marca sempre encontrada no acting; segundo, o fato de que o acting out exige a entrada do Outro, um chamado a ele. Ora, estes são dois aspectos centrais na clínica contemporânea, a que Domenico Cosenza (2024) nomeou de clínica do excesso: uma precariedade na cessão do objeto, ficando o sujeito excessivamente próximo a ele; e uma certa falha na entrada em cena do Outro.
O que se presentifica, portanto, me parece, é a angústia em sua dimensão de gozo, ocultado sob o manto da vergonha, da qual, no acting, se defende o sujeito. Esse modo de defesa portaria em si um apelo ao Outro, como um pedido de socorro que apenas por meio do resto se pode escutar? Talvez a introdução da dimensão do desejo, que não é sem o Outro, por meio da palavra, nesse oceano de gozo, permita ao falasser uma invenção, nos termos de Miller, para se haver com o não-há da relação sexual.
Referências
ALBERTI, C. Não há relação sexual. Site do XV Congresso da AMP 2026. 2025. Disponível em: https://congresamp.com/pt/blog/nao-ha-relacao-sexual/.
COSENZA, D. Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea. Belo Horizonte: Scriptum Ed., 2024.
LACAN, J. O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Betty Milan. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.
LACAN, J. O seminário, livro 10: A angústia. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
MILLER, J.-A. Problemas de pareja, cinco modelos. (2003) In: MILLER, J.-A. et al. La pareja y el amor: conversaciones clinicas con Jaques-Alain Miller en Barcelona. Buenos Aires: Paidós Ed., 2003.
