Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
Do Outro como parceiro sexual em Dias de abandono, de Elena Ferrante
Rogério Paes Henriques
Associado ao Instituto de Psicanálise da Bahia
Psicanalista
Professor Titular do Departamento de Psicologia (DPS) / Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPSI) da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
O gênero segundo a psicanálise lacaniana
A anatomia psicanalítica não é a anatomia “natural” (sexo), tampouco “sociocultural” (gênero). Trata-se antes da sexuação (Morel, 2012, p. 137). Isso significa que nosso corpo está marcado por significantes e só tem forma porque somos capazes de nos apropriarmos psiquicamente dele, reconhecendo-o no espelho. O corpo do ser falante goza muito mais além de suas necessidades, dado que a linguagem subverte o corpo “natural” (Morel, 2012, p. 162). Nesse sentido, ser homem ou mulher confronta cada um com o que não se sabe – pelo menos com o que não se pode saber antecipadamente sobre si mesmo (Leguil, 2016, p. 62). Homem e mulher, depois de Lacan, designam dois modos de ser – duas posições sexuadas – menos referidas às normas de gênero do que às maneiras de responder ao desejo do Outro (Leguil, 2016, p. 19). O gênero é aquilo que desperta em cada um a questão do que se deseja e de quem se deseja: sexual e amorosamente (Leguil, 2016, p. 33). Trata-se de uma questão de desejo e gozo, de encontro e de linguagem, que não se deixa normatizar. Espécie de “sopro impalpável” que anima o ser “de maneira inesperada e precária” (Leguil, 2016, p. 40). O gênero é, para cada um, um ponto opaco na existência, que nos confronta com uma forma de estranheza, independentemente do corpo que se tenha ou que se pretenda ter.
Real do sexo: o gozo do corpo
“É o gozo do corpo, o sexual como tal, o que funciona como Outro para o sujeito” (Bassols, 2021, p. 32). O feminino em psicanálise é um dos nomes para esse gozo do corpo; trata-se da alteridade radical – o sexo como diferença absoluta –, que rompe com a norma fálica universal e seu universo discursivo. Parece um “Outro gozo”, mas trata-se da irrupção do Um do gozo sem Outro do qual receber significação. Nunca entenderemos a estranheza de ter um corpo sem ser esse corpo. É ante tal solidão do corpo e do gozo do Um que cada ser humano deixa de ser idêntico a si mesmo e se converte em um estrangeiro para si mesmo, em Outro para si mesmo (Bassols, 2021, p. 59).
O que define a posição sexual não é a natureza suposta do sujeito e do objeto, seu caráter de gênero, mas sim sua posição de gozo com relação a um objeto a-sexuado, sempre fora de gênero, sem nenhuma qualidade que o faça essencial. O homo será, então, aquele que quer tornar homogêneo este objeto à sua própria imagem, enquanto o hetero aquele que consente à alteridade radical do Um do gozo, sejam quais forem os gêneros em jogo (Bassols, 2021, p. 45). Não à toa, para a psicanálise, heterossexual é quem ama a alteridade encarnada pelas mulheres, que só existem singularmente, tomadas uma a uma. Uma escolha de amor lacaniana é então uma hetero-escolha na medida em que aponta ao feminino que há em cada ser que fala, mais além de suas identificações ideais, como o que põe em suspenso a homogeneidade de suas identificações (Bassols, 2021, p. 47).
Contudo, essa cisão da mulher como sujeito do inconsciente e como Outro que sustenta uma alteridade para todo ser falante, isto é, tal partição entre o gozo fálico, homogêneo ao registro do sujeito, e o “Outro gozo”, heterogêneo a ele, por vezes, a lança em desvarios. “Ela desatinou”, diria Chico Buarque. Desatinos intrínsecos à vacilação típica da estrutura do feminino, conforme a lógica da sexuação, entre a norma fálica e o não-todo fálico. Um dos nomes dados a tais desatinos é devastação, efeito para o sujeito que se encontra na posição feminina ao se deparar com a falta de significante no Outro que o designe ou com a presença do vazio de ser, do des-ser. Isso é experimentado pelo sujeito como desvario, desarrazoamento, desmedida, que o deixa fora do tempo e do laço social, tornando-o louco, místico, situado na própria clivagem do eu (Miranda, 2017).
Devastação como traço da vida amorosa: personagem Olga
Olga é uma mulher de 38 anos, residente em Milão, escritora amadora, casada há quinze anos com Mario, mãe de um casal de crianças e tutora de um cão. De súbito, ela é abandonada pelo marido: “Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar” (Ferrante, 2016, p. 5). “Abril é o mês mais cruel”, lê-se em A terra devastada (Eliot, 1999): a devastação é o fio condutor da narrativa em abismo de Ferrante.
Da relação de devastação mãe-filha (Lacan, 1972/2003, p. 465), Olga se recorda em sua infância dos relatos maternos sobre as “pobres coitadas” [poverella]: “quando você não sabe segurar um homem perde tudo […] o que acontece quando, plena de amor, você não é mais amada, é deixada sem nada” (Ferrante, 2016, p. 12).
Mario abandona Olga e desposa Carla, uma órfã de pai, filha adolescente (15 anos) de uma conhecida sua, de quem ele assume – paternalmente! – o reforço escolar com “exercícios de química”. Tal química os torna amantes e, cinco anos depois, marido e mulher. Olga é destituída de seu lugar junto ao Outro: “senti em cada pedaço do corpo os arranhões do abandono sexual” (Ferrante, 2016, p. 19).
A mera presença física de Mario – para além de seu estado de espírito – colmatava um vazio em Olga: “a sua presença – ou melhor, sua ausência, que no entanto poderia sempre se transformar em presença, caso fosse necessário – me tranquilizava” (Ferrante, 2016, p. 24). No entanto, esse corpo presente de Mario se foi: “um medidor de vida que vai embora deixando um rastro de angústia” (Ferrante, 2016, p. 37). O corpo do marido, esse objeto do qual Olga espera mais “substância” do que do Outro e de seus nomes (Brousse, 2019; Vieira, 2022), denota sua posição feminina devastada. Olga efetivamente cai junto com o objeto perdido: “Eu pensava somente nele, em como tinha acontecido isso de ele parar de me amar, da necessidade que eu sentia de ter o amor de volta, ele não podia me deixar assim” (Ferrante, 2016, p. 59).
Até que Olga se dá conta da contingência de seu encontro com Mario: “um corpo qualquer ao qual atribuímos sabe-se lá quais significados” (Ferrante, 2016, p. 70). Eis então que Olga tenta contingentemente restaurar sua posição feminina, via mascarada, seduzindo sexualmente seu vizinho, Aldo Carrano. As palavras de amor deste mostram-se falicizantes, embora não de todo. Sozinha em seu apartamento, Olga conclui: “Consegui me acalmar somente dizendo a mim mesma: ‘Amo meu marido e por isso tudo isso tem um sentido’” (Ferrante, 2016, p. 84). Ante fracassadas tentativas de construção de um corpo falicizado, ela constata: “Escorreguei atrás das frases de amor do meu marido” (Ferrante, 2016, p. 101).
Seu autodiagnóstico: “Tornara-me uma esposa obsoleta, um corpo negligenciado, minha doença é só a vida feminina que ficou fora de uso” (Ferrante, 2016, p. 107). Olga se depara assim com um S1 (significante-mestre) materno aterrador: “a coisa que temia desde pequena – crescer e ficar como a pobre coitada” (Ferrante, 2016, p. 112-113). A poverella ganha vida e aparece algumas vezes no romance como um íncubo que lhe franqueia Outro gozo. Resta-lhe “Preservar então ‘estrago’[1], fixar bem esta palavra” (Ferrante, 2016, p. 114).
O reenlace nodal de Olga ocorre por intermédio do arrebatamento que experimenta por seu vizinho, Carrano, ovacionado pela plateia após sua apresentação musical pública de virtuose no violoncelo: “Sentia-me aturdida, tinha a impressão de que a pele enfaixava com muita força meus músculos, os ossos” (Ferrante, 2016, p. 171). Como “uma operação lógica, subjetiva, que vai articular os tempos de junção do sujeito e de seu corpo” (Laurent, 2012, p. 152), o arrebatamento possibilita a Olga moderar sua experiência de gozo devastadora rumo à felicidade fálica: “A meus olhos, aquele homem do andar de baixo se tornara guardião de uma potência misteriosa” (Ferrante, 2016, p. 174); “nos amamos longamente, nos dias e nos meses porvir, quietamente” (Ferrante, 2016, p. 183). Daí para frente, ante seu reposicionamento como objeto de amor do Outro, diz Olga: “O essencial é que a corda, a trama que agora me juntava, segurasse firme” (Ferrante, 2016, p. 172).
No tempo lógico da pulsão (Lacan, 1964/1998), parte-se da atividade à passividade, até chegar à forma gramatical reflexiva. No trilhamento do trajeto pulsional, o sujeito se faz objeto para o Outro e encerra sua indeterminação subjetiva: Olga se faz amar.
Para concluir
Em O banquete, Sócrates, por insistir em abordar o amor racionalmente, não consegue acessá-lo. Ele, então, evoca Diotima – a sacerdotisa estrangeira –, fazendo-a falar por seu intermédio. Lacan (1960-1961/2010) afirmará que “o discurso propriamente socrático, o da épistèmè […] não dá conta do objeto amor” (p. 153), daí ele se apagar e fazer a mulher que está in-corporada nele falar. O feminino como alteridade absoluta em psicanálise é a via privilegiada de acesso às questões sexuais e amorosas.
Referências
BASSOLS, Miquel. La diferencia sexual no existe en el inconsciente. Olivos: Grama Ediciones, 2021.
BROUSSE, Marie-Hélène. Mulheres e discursos. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2019.
ELIOT, Thomas S. A terra devastada. Tradução: Gualter Cunha. Lisboa: Relógio D’água, 1999.
FERRANTE, Elena. Dias de abandono. Tradução: Francesca Cricelli. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN, Jacques. O aturdito. (1972) In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 448-497.
LACAN, J. O seminário, livro 8: A transferência. (1960-1961) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.
LAURENT, Éric. A psicanálise e a escolha das mulheres. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.
LEGUIL, Clotilde. O ser e o gênero: homem/mulher depois de Lacan. Belo Horizonte: EBP Editora, 2016.
MIRANDA, Elisabeth R. Desarrazoadas: devastação e êxtase. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2017.
MOREL, Geneviève. Ambigüedades sexuales: sexuación y psicosis. Tradução: Horacio Pons. Buenos Aires: Manantial, 2012.
VIEIRA, Marcus André. Amor e devastação (sofrências). Erosditos – Boletim Eletrônico da XXVI Jornada da EBP Bahia / XXII Jornada do Instituto de Psicanálise da Bahia, n. 4, 2022. Disponível em: https://ebpbahia.com.br/jornadas/2022/amor-e-devastacao-sofrencias1/. Acesso em: 7 out. 2022.
[1] Um dos nomes da devastação.
