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Editorial Lapsus nº26

Pablo Sauce
EBP/AMP

Prezado leitor,

No âmbito dessa placa sensível que tem sido a experiência dos jovens ante a Nova Política da Juventude, portanto sensíveis ao discurso contemporâneo; e escoltado pelos ecos do cortejo de boletins Laps, nasce o número 26 de uma revista realizada pelos Associados do IPB. Nela poderá ser encontrada uma rica diversidade de estilos, alguns apelando a citações clássicas articuladas a formulações inéditas; outros se destacando pela originalidade do esforço de poesia. No entanto, da multiplicidade de enunciações um ponto em comum pode ser extraído: a colocação em questão da prática analítica em uma época caracterizada pelo cinismo do simbólico e o correlativo desamparo pulsional dos corpos vivos. Dos rituais menos aos mais elaborados, os corpos sempre estiveram no lugar de objeto a ser domado e alterado pelo Outro social. Por outro lado, dado que uma das especificidades da pulsão é o ritmo que se encontra ao lado do significante, correlato à alternância encontrada na musicalidade da voz materna, é durante esse trilhamento do trajeto pulsional que o sujeito se faz objeto para o Outro e, desse modo, encerra sua indeterminação subjetiva. A internet mudou a forma como nos relacionamos com o mundo, funcionando como um novo órgão que dá a ilusão de acesso ao mercado digitalizado e globalizado como um todo, universal. Um dos efeitos desse circuito é o sujeito contemporâneo como “um exilado que se atormenta amargamente; orgulhosamente desdenhoso quanto às normas sociais, mas sofrendo por algum pecado inominado”[1].

É nessa conjuntura que se ensaiam respostas ante a pergunta de como despertar o desejo de saber e de aprender, quando se tem o saber no bolso e a inteligência artificial à disposição. No entanto, o saber inconsciente não é da ordem de um saber que se ensine, é da ordem de uma experiência. E, por outro lado, perante ao chamado à globalização, Freud já havia nos alertado que, ao adentrar num país estrangeiro, a moeda do seu país de origem perde a utilidade: é preciso manusear a moeda de troca local. Quando a sanha normatizadora da contemporaneidade obedece ao discurso capitalista que promove o individualismo, mas elide a singularidade, como apostar em um novo laço sem sacrificar o singular de cada um? Porém, com as antenas voltadas para o que borbulha e palpita no caldo cultural que habita os corpos dançantes ao ritmo dos tambores do terreiro, das rodas de samba e dos ritmos de fundo de quintal. Sob a perspectiva da subjetividade como território e da infiltração da psicanálise na polis, numa analogia do gozo com a água: como pensar o manejo do excesso de modo criativo? Em vez de combater, acolher o transbordamento, permitindo a absorção, a infiltração e a circulação do excesso. Nessa perspectiva hidráulica do gozo, pontua-se a solução pelo lado do ser e não do ter. Se antes os problemas eram os sintomas das parcerias, os ciúmes, a infidelidade; hoje, a parceria em si se tornou o problema.

Com essas e outras questões levantadas pelos autores, o leitor poderá se deparar neste lapsus de escrita.


[1] Citação retirada do texto de Lucas Antunes publicado nesta edição da revista.

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