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Lêda Guimarães e seu punhal afiado

Liliane Sales
Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia

Falar de Lêda me é muito caro na mesma medida em que me enche de amor.

Uma amiga de dedicação irretocável e uma fidelidade própria de sua ética.

Aproximei-me de Lêda quando fui fazer supervisão com ela. Encantava-me tanto a leitura que fazia dos casos que, certa feita, saí do seu consultório deixando lá o meu carro estacionando e voltei para casa andando. Entrei em uma espécie de transe, como efeito de uma mensagem inconsciente ao modo dos sonhos.

Minha clínica muda a partir daí. Quando retorno a cada supervisão, falava sobre isso com Lêda, ao que ela responde: “Não é mágica, Lilizinha, isso é a psicanálise”.

A psicanálise sempre foi uma paixão inseparável de Lêda. Emprestei muitas vezes meus ouvidos para que ela lesse seus escritos antes de apresentá-los, ou publicá-los. Sua veia analítica, seu rigor estavam ali contrastando com a exuberância da sua presença.

Este livro O que é ser homem? vem como uma pergunta resultado da sua pesquisa realizada nos últimos cinco anos de vida. Depois de muito estudar o feminino, seu interesse se voltou muito atentamente para o masculino e seus segredos. O que experimentou com os homens nas suas relações amorosas, no olhar do seu pai e nos homens que passaram por sua clínica instigou a sua escuta de um segredo que guardava a impotência psíquica deles.

Agradeço a André Guimarães por ter confiado a mim poder dar continuidade a esse projeto na organização do livro. Tarefa que não foi fácil por nunca ter lidado com publicações como essa, mas que agarrei com o mesmo desejo de realização que recebi de Lêda a cada desafio vivido na minha vida profissional e pessoal. Entre acertos e tropeços, eu e André não desistimos da finalização desta última obra de Lêda.

Ela, mais uma vez alvissareira, nos impacta com sua visceralidade de mulher que seduz, perturba, interroga e sorri. Era seu modo de teorizar, divertindo-se. Em seu infinito particular na transmissão da psicanálise, usava de linguagem direta, certeira, na escrita e apresentações, causando risos e deslocamentos no que tinha de mais sério – “o punhal afiado do ato analítico”, como ela definia. Sua marca pelo desejo decidido em vida que extrapola a sua própria existência.

Agradeço também ao cartel Lêda Guimarães, que contribuiu muito a erguer esse encontro de hoje na ocasião do lançamento do livro póstumo daquela que nunca recuou do seu desejo em produzir pela psicanálise.

Teria que agradecer a muitas pessoas pela dedicação a este livro. Marcela Antelo, Daniela Araújo, Nieves Soria, que aceitou prontamente nosso convite para fazer o prefácio; Robinson Machado, por sua delicada atenção ao livro, e a Lêda. Esse que segurou sua mão até o último momento. Ao Luiz Augusto, a quem trazemos também como memória póstuma e que muito contribuiu para a finalização deste livro. E, por fim, a Patrícia Brandão, que se juntou a nós com uma pesquisa fina na produção da capa deste livro.

Lêda foi grandiosa na sua postura ética, luminosa na sua transmissão, como lembrou Raquel. Uma presença delicada na singularidade de todos a quem ela elegeu, seja amigos, filho e analisandos.

Essa amiga, irmã, um amor na minha vida, resta impregnada em mim por suas falas, vigor, desejo de vida, amor sem pressa e sem demandas. “Abaixo superego” era um dos seus lemas quando brincava com um dos conceitos psicanalíticos a que ela se debruçou por anos.

Obrigada, Lêda, por ter me permitido viver tudo que experimentamos juntas, por tanto aprendizado, por todas as farras, músicas de rua, piano de caudas nos fundos de um boteco, das risadas honestas, carnaval de Salvador, da intimidade compartilhada.

Trazemos hoje, nesta noite, uma Lêda viva na sua escrita e amor à psicanálise.

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