Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
O que se diz quando se ri: o chiste em Freud, Lacan e o inconsciente
Priscila de Jesus Lima
Aluna do Curso Regular 2025 do Instituto de Psicanálise da Bahia
Participante do Núcleo Carrossel do Instituto de Psicanálise da Bahia
Sigmund Freud (1905/2017), em “O chiste e sua relação com o inconsciente”, investiga a estrutura e a função do chiste (ou “tirada espirituosa”) como uma formação do inconsciente. Quando Freud escrevia A interpretação dos sonhos (1900), já percebia alguma coisa semelhante aos chistes, algo do inconsciente se revelava ali.
Para muitos, o chiste é sinônimo de piada, mas Freud refere-se a uma espécie de trocadilho, neologismo ou jogo de palavras. Em linhas gerais, para Freud, o chiste (Witz, no original alemão) é uma expressão para falar de algo que não pode ser dito, não pode parecer como tal, de modo que não surge isoladamente. Tal expressão exige um outro para ser partilhada, e seu efeito de riso ou graça depende de quem a recebe.
Segundo Freud, o chiste é uma forma de “economia de desprazer”, ou seja, ele permite que conteúdos recalcados atravessem a censura do recalque, se manifestem de maneira disfarçada e, ao mesmo tempo, propiciem prazer.
Esta obra, por vezes negligenciada frente a textos mais clínicos, revela elementos fundamentais sobre o funcionamento psíquico, a economia do prazer e os mecanismos da linguagem. Ao reler essa produção à luz da teoria lacaniana, abre-se um campo fértil de articulação entre o chiste, o significante e o desejo inconsciente.
Neste ensaio, propomos uma leitura crítica que abarca três eixos: (1) os conceitos fundamentais da obra de Freud; (2) as reformulações lacanianas sobre linguagem e inconsciente; (3) uma análise das implicações contemporâneas dessa articulação, incluindo sua incidência nos discursos sociais e culturais, como os memes.
O chiste em Freud: entre o prazer e a linguagem
Freud dedica-se a explorar não apenas a natureza do chiste, mas também a distingui-lo de outros fenômenos do campo do humor, como o cômico e o humor propriamente dito. Ele sublinha que o chiste não se confunde com o cômico: enquanto o cômico pode emergir da mera comparação entre dois elementos (como quando vemos alguém exagerar um gesto cotidiano ou tropeçar de maneira inesperada), o chiste opera essencialmente no plano da linguagem e depende de uma construção psíquica sofisticada que envolve a atividade inconsciente.
Em termos gerais, pode-se dizer que o cômico pode ser encontrado nas ações, no comportamento ou nas características físicas de alguém, ao passo que o chiste é uma formação verbal que exige uma elaboração mental específica e tem origem nas palavras (Freud, 1905/2017). Essa distinção evidencia que o chiste pertence à ordem da palavra e do significante, enquanto o cômico situa-se no domínio da imagem e da percepção.
O chiste, então, não é um simples riso espontâneo diante de uma situação ridícula. Ele é uma formação do inconsciente e, como tal, compartilha com o sonho e o sintoma os mesmos mecanismos fundamentais: a condensação e o deslocamento. A condensação diz respeito à junção de diversos significantes ou sentidos em uma única palavra ou construção – um efeito muito comum nos trocadilhos, por exemplo. Já o deslocamento refere-se à substituição de um elemento por outro aparentemente irrelevante, mas que permite a manifestação disfarçada de um conteúdo recalcado. Ambos os mecanismos são amplamente utilizados no chiste, conferindo-lhe sua eficácia nonsense.
Além disso, é importante destacar as características específicas que distinguem o chiste: a) O chiste como laço social: nesse sentido, funciona como operador de laço social, criando cumplicidade momentânea entre os envolvidos. Freud é claro ao dizer que o prazer do chiste depende do efeito que ele produz no outro; b) Temporalidade: o chiste precisa ser dito no momento certo para funcionar. Fora de tempo, ele perde o impacto, o efeito de surpresa e o prazer que poderia provocar. São muitos os exemplos de chistes fornecidos por Freud em sua obra, a maioria sem graça alguma provocando uma sensação de estranhamento de suas piadas. Acredito que isso se deva à não adaptação do contexto da época; c) Brevidade: o chiste é conciso. Seu efeito depende de uma economia de palavras que Freud compara a uma economia de energia psíquica. Quanto mais breve, mais eficaz o efeito de prazer. A brevidade é parte de sua força, já que obriga o ouvinte a “preencher” rapidamente o sentido que se insinua; d) Jogo de palavras: Freud destaca que muitos chistes se baseiam em trocas fonéticas, homonímias, trocadilhos e ambiguidade linguística. O jogo de palavras é o campo privilegiado para o trabalho da condensação: várias camadas de sentido se sobrepõem em uma única forma, revelando a lógica do inconsciente, que, como Lacan enfatizará, opera com o significante. Por fim, o ato de Surpresa: Freud mostra como o chiste frequentemente começa com uma construção lógica ou narrativa comum, mas, subitamente, rompe com essa expectativa ao introduzir um nonsense aparente que, logo depois, é decifrado pelo ouvinte como portador de um novo sentido oculto.
Dessa forma, o chiste revela, através da ruptura com o discurso comum, a irrupção de algo do inconsciente, um gozo, uma verdade deslocada, um desejo reprimido. Conforme aponta Luciana Balbo (1999),
O chiste recupera um gozo que ficou impedido pelo recalque. Todo o tempo Freud nos relembra da dificuldade do sujeito em abrir mão de uma via de descarga prazerosa, o chiste parece conseguir recuperar parte dessa satisfação ligada ao recalque. […] Ele nos coloca que o efeito do chiste no sujeito é enganoso. (p. 20)
Assim, ocorre uma manipulação consciente de modo que algo do inconsciente vai para a consciência de forma intencional. A experiência de gozo se dá pelo algo que escapa ao sentido. Com efeito, pode-se dizer alguma coisa querendo dizer outra, abrindo para um novo sentido.
Lacan e o chiste: o inconsciente estruturado como uma linguagem
Ao se valer da linguística estrutural para reinterpretar Freud, Lacan estabelece seu famoso axioma: o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Ele desloca o foco da psicanálise do conteúdo manifesto para a estrutura significante. O que importa, mais do que se diz, é como se diz, isto é, a lógica que organiza a fala do sujeito e os efeitos que ela produz.
No Seminário 5, As formações do inconsciente, Lacan recoloca o chiste não apenas como um conteúdo inconsciente, mas como um jogo significante que revela a estrutura do sujeito. O chiste se inscreve como ato de linguagem que aponta a fissura do sujeito no campo do Outro. Essa retomada revela algo fundamental: a linguagem não serve apenas para comunicar, mas produzir sentido onde ele estava dado – e esse sentido nem sempre é claro, nem tampouco intencional. Na escuta psicanalítica, o neologismo é um acerto do inconsciente.
Um exemplo paradigmático, trabalhado por Freud e frequentemente retomado em leituras lacanianas, é o famoso chiste, citado na obra de 1905, atribuído ao poeta Heinrich Heine. Nesse chiste, o personagem Hirsch-Hyacinth refere-se à sua relação com Rothschild dizendo: “[…] ele me tratou de maneira totalmente familionária (em alemão: “Er ist mein Vetter… familionär”). Há, aqui, um jogo de palavras entre “familiär” (familiar) e “Millionär” (milionário), formando o neologismo “familionär”.
Nesse chiste, não se trata de transmitir um conteúdo previamente estruturado no pensamento para então vesti-lo de palavras. Ao contrário: é o material significante que produz o conteúdo – ou seja, o sentido emerge a posteriori como efeito de uma operação de linguagem que subverte a lógica consciente. O neologismo revela uma ambiguidade que diz mais do que se poderia dizer diretamente: revela, por exemplo, a tentativa de Hirsch-Hyacinth de aproximar-se da nobreza por meio de uma ficção de parentesco, ao mesmo tempo que ironiza essa aspiração, expondo ao ridículo da tentativa.
Em consonância com esta análise, Lacan, no Seminário 5, demonstra que a função do significante no chiste não está a serviço do sentido prévio, mas de sua produção. O sujeito fala, e é aí que o desejo se escapa, como um efeito, não como uma causa.
Trata-se do sentido inconsciente: ao produzir um nonsense, o chiste permite que o sujeito diga o indizível, desviando-se da censura e inscrevendo-se no campo do desejo.
Essa análise permite a compreensão de que o significante não serve apenas para representar algo, ele produz. Produz sentido, gozo, surpresa, embaraço.
Assim, a partir de Freud e com Lacan, o chiste deixa de ser apenas um objeto de estudo da estética ou da linguagem comum e se torna um fenômeno psíquico que toca o real do sujeito – esse real que escapa, mas que insiste em retornar sob a forma de um riso inesperado, de um absurdo que, justamente por não fazer sentido, diz mais do que qualquer enunciado claro poderia dizer.
A contemporaneidade: memes, política e o inconsciente hoje
A cultura digital e os memes podem ser compreendidos como “chistes contemporâneos”. Eles operam por condensação, duplo sentido e rompimento com o discurso convencional. Ao mesmo tempo em que fazem rir, também denunciam. Freud já afirmava que o chiste pode ser usado para dizer o que não se pode dizer, e isso se atualiza nos memes sobre política, sexualidade, identidade etc…
O chiste tem um potencial subversivo, já apontado por Freud. Lacan, ao tematizar o discurso do mestre e do inconsciente, amplia essa perspectiva: o chiste é um furo no discurso dominante. Por isso, essa subversão se torna um instrumento de resistência, mas também de gozo coletivo, muitas vezes cruel, segregador ou racista. Nessa dupla face, o humor funciona tanto como uma alavanca crítica quanto como uma válvula de gozo perverso socialmente aceito.
Os modos contemporâneos do humor nos permitem pensar nos memes como formas atuais de manifestação do inconsciente e circulação do discurso operando através da condensação, como apresenta Freud. Assim como o chiste, eles não são neutros: carregam posicionamentos, inscrevem ideologias, revelam gozos. Quando rimos de um meme, esse riso pode denunciar ou reforçar os lugares que ocupamos. Tal como Freud advertia, o chiste tem potência crítica, mas também pode operar como válvula de escape para o recalque social.
O chiste como operador de verdade e furo do discurso
Ao longo de “O chiste e sua relação com o inconsciente”, Freud (1905/2017) revela que o chiste não é apenas uma forma de provocar riso, mas um mecanismo complexo de elaboração inconsciente, enraizado nos mesmos processos que estruturam o sonho, o lapso e o sintoma. Seu valor ultrapassa o campo do entretenimento: o chiste é, em Freud, uma via de acesso ao que o sujeito não sabe sobre si, mas que escapa por entre palavras, neologismos, ambiguidades, silêncios e jogos significantes.
Lacan, ao recolocar o chiste no cerne da teoria do sujeito e da linguagem, radicaliza essa perspectiva. No Seminário 5, As formações do inconsciente, o chiste aparece como uma das vias pelas quais o sujeito se constitui no campo do Outro. Nele, o inconsciente não apenas “aparece”, ele atua. O chiste mostra que não somos senhores do que dizemos: mesmo aquilo que nos faz rir e carrega a marca do que não queríamos dizer, mas dissemos, e que às vezes nos escapa em palavras.
Nesse sentido, o chiste revela a própria estrutura da linguagem inconsciente. No exemplo analisado do chiste “familionariamente”, há aí uma irrupção do real na fala: o impossível de dizer escapa, sob forma de trocadilho, e provoca um efeito de verdade. Não é o conteúdo do chiste que importa, mas o arrojo que ele opera no sujeito e no laço social.
Dessa forma, seja nos memes digitais, nos chistes sociais ou nas intervenções clínicas, o chiste revela sua potência como operador de sentido e ruptura. Ele evidencia como o inconsciente se inscreve na linguagem cotidiana e na cultura, mesmo sob formas aparentemente banais. Ao provocar riso, desloca certezas, abre brechas na normatividade e introduz o desejo no discurso. Como demonstram Freud, Lacan e autores contemporâneos, o chiste não é um simples ornamento discursivo, mas uma estratégia estrutural do inconsciente. Sua lógica é a da surpresa, do equívoco e do furo – aspectos que também se revelam na clínica. A partir disso, é possível retomar o chiste como uma chave para pensar o sujeito contemporâneo, o laço social e a escuta analítica.
O chiste é uma das expressões mais densas e reveladoras do inconsciente. Na condição de ato analítico opera como furo no discurso atuando sobre a ampliação da significação cristalizada que o paciente tem sobre si. Sendo assim, o chiste é uma ferramenta potente para a clínica. Façam bom uso!
Referências
BALBO, Luciana. A entrada do chiste na cena analítica. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. II, n. 4, p. 11-26, out./dez. 1999. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rlpf/a/GNKNzGBFVY9T7r5ZXZD788D/?lang=pt.
FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente (1905). Tradução: Fernando Costa Mattos e Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (Obras completas, 7)
LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: As formações do inconsciente. (1957-1958) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
