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Um enlace com a arte popular

Maíra Valente de Souza
Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia

Não sei precisar as razões do fascínio que emergiu em mim no encontro com a roda de samba a ponto de convertê-la em um ritual do qual, a partir de então, era necessário participar uma, e mais outra e outra vez, ao longo de sete anos. Mais do que um campo de pesquisa, a roda de samba constituía-se num espaço estranhamente familiar. Certa estranheza, sentida ali naquele primeiro encontro, verificava-se presente em cada nova experiência, empurrava à repetição e produzia sempre uma diferença da ordem de uma familiaridade imprevista. Constante busca do novo na vivência do mesmo.

A essa altura, cursava a graduação em Pedagogia e já entrevia um interesse que focava nos processos educativos para além dos muros institucionais. Desejava etnografar determinados modi vivendi onde a educação apresentava-se imersa no próprio saber fazer cultural e aprofundar no que do singular faz laço; no que, a despeito dos caprichos capitalistas, resiste, cria e recria vínculos sociais, numa espécie de ética rebelde.

Para produzir uma pesquisa pedagógica dentro de um contexto amplo, que era o da antropologia da educação, foi imprescindível não apenas escutar, um a um, aqueles que fazem e frequentam em diferentes lugares a roda de samba, mas estar atenta a certo saber que circulava, dentro de um universo simbólico comum, e dava sustentação a uma prática artística e cultural, o que acabou por ancorar-me numa posição estrangeira – habitar um território desconhecido, ainda que pertencente a ele. É o que se orienta, no campo das etnometodologias, na direção de se poder ler algo que escapa ao todo, ao ethos grupal, mas que não passa despercebido àquele que se dispõe a desabituar-se para, quem sabe, familiarizar-se com o estranho na tentativa de fazer ver, a partir da escrita, o impossível de dizer.

“Na roda de samba, é de si que a comunidade fala o tempo todo” (Moura, 2004, p. 102). Ali, forja-se um ambiente doméstico, regido por um código muito particular e por acordos tácitos, onde sambistas tocam, dançam e cantam as próprias dores e alegrias, fundando um sentimento de pertença, que preserva as singularidades de cada um e reinstala o prazer de viver em coletividade. Há um retorno a uma íntima morada, certamente propiciado pelo universo sonoro e linguageiro, mas também parece haver, a cada retorno, a possibilidade de lidar mais e melhor com as perdas e extrair daí sementes de liberdade.

Marcus André Vieira (2015) retoma o texto “O avesso do trauma”, de Éric Laurent, para diferenciar os excessos traumáticos que estariam do lado da destruição e da repetição, o trauma como real no simbólico, dos excessos sinthomáticos em que consistiria o acontecimento de corpo, como abertura à contingência, como simbólico no real:

Simbólico no real destaca não a incompatibilidade da linguagem com relação ao gozo, do impossível de dizer, mas, ao contrário, a linguagem se apresentando como o lugar do gozo, e não a linguagem se apresentando em oposição ao gozo (Vieira, 2015, p. 8).

Portanto, o acontecimento de corpo não seria a experiência de um gozo fora da linguagem, mas um acontecimento de linguagem ao mesmo tempo que de gozo, gozo singular do sinthoma, em que há uma relação de concomitância entre real e simbólico. Um acontecimento de lalíngua, ainda que fora do sentido, não fora do simbólico. “Caso contrário vamos achar que esse acontecimento é silêncio, indizível, pulsão de morte como pura morte, quando na verdade ela é também gozo vital linguageiro.” (Vieira, 2015, p. 8).

É precisamente essa relação entre simbólico e real que observo na roda de samba. A música, a sonoridade musical, ao mesmo tempo em que instaura a possibilidade de um acontecimento fora de sentido, permite, por outro lado, um tratamento desse excesso pela via do sentido, através das letras das canções e de um linguajar comum. “Em vez de dizermos então que o mal-entendido é a língua impotente diremos que ele é lalíngua em seu esplendor. Ele não atrapalha a comunicação, é o que a sustenta.” (Vieira, 2015, p. 9).

Carlos Rodrigues Brandão (2006) diz-nos sobre a função daquele que chama de “Senhor da Palavra”, quem estaria dentro de uma comunidade tradicional, por exemplo, na posição de um Outro da linguagem: “Enunciador do conhecido e do consagrado, a missão daquele que comanda é ser a fala do saber que todos sabem e da norma que todos devem cumprir e a quem compete ao chefe apenas lembrar.” (p. 12). Se, como se diz na psicanálise, estamos em uma época em que esse Outro vem perdendo, gradativamente, consistência, poderia a arte – sobretudo, a arte popular, como, no caso, a roda de samba – reinserir o sujeito no campo das trocas e do sentido e, portanto, na dimensão da falta, mas também no caminho de uma invenção? Servir, para além de um processo sublimatório, como um enlaçamento discursivo para os sujeitos? E, sendo assim, contribuir para as reflexões sobre a clínica e a formação em psicanálise?

Vamos seguir com esta ideia? Uma análise nos daria a possibilidade de ver nos acontecimentos não apenas seu poder de corte e ruptura, mas de abertura e invenção, mais o transbordamento do campo dos possíveis do que as marcas que este transbordamento deixará (Vieira, 2015, p. 4).

Sempre que ouço falar dos novos sintomas, costumo dizer que talvez não haja nada de tão novo que Freud já não tivesse presenciado no início do século XX. Revolução burguesa e industrial, queda das monarquias, guerras, inovações tecnológicas de forte impacto sociocultural e nas relações estratégicas entre nações, enfim, reconfiguravam uma época, penso, em similar proporção ao que vivenciamos atualmente. Freud soube, a meu ver, escutar o sintoma de uma era. Se a arte serviu-lhe também como bússola, talvez seja porque o artista às vezes consiga, não exatamente antever, mas produzir algum dizer sobre o que lhe atravessa, inclusive, da cultura de seu tempo, a-bordando e tecendo com um real.

Entretanto, é preciso situar a roda de samba como uma arte que vai além da própria criação artística, ainda que passe por aí, na medida em que ela funda um grupo de parcerias e convívio, inclusive fazendo uso de uma gramática simbólica e afetiva que vai na contramão do que experienciamos com a virtualidade e esgarçamento dos laços sociais e resgatando a dimensão da familiaridade, da presença e, sobretudo, do pertencimento. Percebo que há uma certa avidez nos sujeitos contemporâneos, ainda que se diga o contrário, em fazer laço e que, talvez, caiba aos praticantes da psicanálise uma maior escuta do que lhes advém das ruas, da cultura e das artes populares; uma escuta de um saber fazer que produz diferentes enlaçamentos, muito mais na via de uma vivificação.

Gostaria de finalizar com a fala de Sérgio de Mattos sobre seu final de análise, em entrevista no podcast “Sobre Um-dizer”:

[…] esse me chame, além dessa questão da tonalidade, dessa rítmica, “me chame, me chame, me chame”, que é quase que um canto de ninar também, né?, me deu um lugar assim no outro, que é um lugar que eu não tinha pela minha história, onde tinham portas fechadas pra mim, onde eu estava diante de situações muito mortíferas, onde o outro pra mim era sempre o lugar de uma ameaça, que então eu tinha que me preparar e estar o tempo inteiro em prontidão, porque podia vir guerrear comigo. Então, tinha assim um corpo sempre pronto pra batalha […] aí, assim, eu vivia nesse estado e naquele momento parece que desmonta tudo isso. Eu encontro uma relação nova com o Outro, que é um outro amoroso onde eu possa estar relaxado, né? Eu acho que esse relaxamento permite aparecer toda uma libido, todo um gozo, que dispensava toda essa defesa, a angústia e tudo isso que provoca aquela… é uma explicação meio psicanalítica da coisa… que provoca aí uma delícia na minha vida, né? (Mattos, 2025). [Transcrição da autora].

Vamos apostar em um novo encontro possível, talvez mais amoroso?


Referências

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação popular. São Paulo: Brasiliense, 2006. (Coleção Primeiros passos, 318)

MATTOS, Sérgio de. O que se aprende em uma análise com Sérgio de Mattos. Locução de Cauana Mestre e Licene Garcia. Podcast Sobre Um-dizer, 53min, 14 jul. 2025. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/6QXDMyULMYkRQKYvj4bPqr?si=VSUK9nQlRWSbhBdBaas3Rg. Acesso em: 8 nov. 2025.

MOURA, Roberto M. No princípio, era a roda: um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

VIEIRA, Marcus André. Na cidade do sinthoma. Litura, Rio de Janeiro, 2015. Disponível em: https://litura.com.br/wp-content/uploads/2023/08/VIII-O-passe-e-corpo-falante-Na-cidade-do-sintoma-editado.pdf. Acesso em: 8 nov. 2025.

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