Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
Não há formação analítica. Então, o que há?
Nelson Matheus Silva
Associado ao Instituto de Psicanálise da Bahia
Psicanalista praticante em Recife
Participou da experiência da NPJ na EBP (2023-25)
Não há formação analítica; há apenas formações do inconsciente (Lacan, 1973/1975, p. 191).
Já repetimos por diversas vezes como Lacan se opôs à ortodoxia da Associação fundada por Freud, a qual tentava assegurar um modelo particular de formação em psicanálise, com seus didatas e sua política, para pôr um acento na experiência. A citação escolhida para esta Disciplina do Comentário me lançou, contudo, em um paradoxo que tento resolver no que concerne à minha própria formação, uma vez que ela coloca em destaque, e em tensão, a relação entre a formação e o saber.
A substituição do sistema pela série, da fixação pelo franqueamento, da verificação do saber adquirido pelo passo adiante marca o modo como o ensino e a formação analítica se organizaram a partir daquilo que Lacan veio a chamar de um discurso. A experiência, entretanto, à qual me refiro não se trata daquela acumulada, não estamos diante da lógica do contável que visaria à unidade e nos conduziria a um conjunto fechado. O que se privilegia é a experiência um por um no discurso analítico, uma experiência, escreve Lacan (1972/2003, p. 312) em sua “Nota italiana”, do saber. Quando o discurso toma forma, o saber assume o lugar da verdade.
É justo ao redor do significante verdade que a psicanálise se constrói (Bonnaud, s/d.). No primeiro tempo do ensino de Lacan, o verdadeiro se sobrepõe ao real, culminando, por fim, em revelar sua impossibilidade: por ser impossível de todo dizê-la, se torna veridade[1], mente, a verdade é uma variedade. No âmbito da experiência do discurso analítico, o saber adquire um valor que lhe é próprio; saber-verdade se opõe, desse modo, ao que vou chamar aqui de saber-conhecimento. O conhecimento, este sim, está na ordem do contábil. É aqui que a citação desta Disciplina do Comentário adquire seu valor: “não há formação analítica; há apenas formações do inconsciente” (Lacan, 1973/1975, p. 191).
Lacan profere essa fala já num tempo adiantado de seu ensino, em 1973, em sua intervenção no Congresso da Escola Freudiana de Paris, na cidade francesa La Grande-Motte. Ao tomar a palavra sobre a experiência do passe, ele faz o caminho inverso que havia feito em sua “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola” (Lacan, 1967/2003) e toma a formação em primeiro plano para enfatizar onde ela deve ser localizada:
Eis o que obtenho após ter proposto esta experiência (o passe). Obtenho algo que, justamente, não é absolutamente da ordem do discurso do mestre, nem do magistério, ainda bem menos alguma coisa que partiria da ideia de formação; eu falei das formações do inconsciente […]: nunca falei da formação analítica. Eu falei de formação do inconsciente. Não há formação analítica, mas, da análise, emerge uma experiência que é erroneamente qualificada como didática. Não é a experiência que é didática […], por que creem vocês que eu tentei apagar por completo este termo, didática, e que falei de psicanálise pura? […] Isso não impede uma análise de ser didática, mas o didatismo da coisa, eis como melhor o situamos: dei-lhes uma lição sobre ele no ano passado[2], sobre o que está em jogo na chamada experiência interrogativa em relação ao animal. Colocamos, como vocês sabem, diversos animais em pequenos labirintos. […] O que fazemos? Nós os ensinamos a aprender. […] Assim, vendo as coisas por este ângulo, após uma experiência analítica que implica certamente a conquista de um saber, do que se pode abordar deste saber que está ali antes de o sabermos, a saber, o inconsciente […]. É neste sentido, e somente neste sentido, que uma análise é didática (Lacan, 1973/1975, p. 191).
Isso é o avesso do que era sustentado pelos pós-freudianos no que tange à formação: eles se propunham a serem capazes de dizer o que era e o que não era a psicanálise na tentativa de sustentar uma enunciação coletiva (Miller, 2003a, p. 6). Dizer que há apenas formações do inconsciente destaca o saber enquanto suposto e que a formação do analista passa por uma reabsorção (Miller, 2003a, p. 7) da própria experiência analítica. Analisantes perpétuos – é como dirá Miller (2009, p. 21) ao expor sua aspiração para a Escola.
Não há formação analítica, mas há a Escola. Nela, expor um saber é dizer de uma verdade que põe em ato o lugar do sujeito no discurso. “A política lacaniana é uma política da enunciação” (Tarrab, 2020). É desse modo que a Escola passa a ser um lugar de insegurança (Miller, 2023a, p. 224): ela impossibilita o estabelecimento de uma enunciação para todos, isso não impede, por sua vez, que nela se possa encontrar um refúgio para o mal-estar na cultura.
Uma formação por imersão (Miller, 2001/2006). Essa foi a proposta lançada por Lacan; uma submersão do sujeito no âmbito do saber, o que o convida a nadar, a inventar um caminho que lhe seja próprio. A respeito dessa passagem de analisante a analista, há aí uma sombra espessa (Lacan, 1967/2003, p. 258), e é por meio da Escola que ela pode ser dissipada. É ainda na “Proposição…” que Lacan dirá que mais além do praticante se autoproclamar como tal, “isso não impede que a Escola garanta que um analista dependa de sua formação” (Lacan, 1967/2003, p. 248).
Tomar como o referente à experiência de Escola, como essa experiência no saber, a possibilidade de se verificar que alguém esteja imerso no discurso analítico coloca uma vez mais o acento no saber enquanto verdade, condição indispensável que permite que alguém se forme naquilo que faria tal saber advir, isto é, a ignorância, uma “paixão que deve dar sentido a toda a formação analítica” (Lacan, 1955/1998, p. 360).
A paixão pela ignorância, discernida do obstáculo interno que ela pode representar para uma análise – a partir do não querer saber –, coloca alguém frente ao desejo de saber, condição impossível de se dizer sem que haja minimamente circunscrito o que é para cada um a causa de seu horror de saber. Disso resulta o que o analista deve saber: saber ignorar aquilo que sabe. “O fruto positivo da revelação da ignorância é o não-saber, que não é uma negação do saber, porém sua forma mais elaborada” (Lacan, 1955/1998, p. 360), uma douta ignorância. Querer saber, ali onde antes havia um não querer saber, marca um giro no discurso e aponta para o que pode vir a ser o emergir de um desejo como causa, a invenção de um amor inédito.
O acento, quando posto no amor e no seu objeto privilegiado, o saber, desvela-o e o mostra em fracasso (Lacan, 1971/2003, p. 17-18); não há como não o ser. Na demanda de amor, o que se vela é o seu objeto, o saber enquanto suposição. Lacan diz que “aquele a quem eu suponho o saber, o amo” (Lacan, 1972-1973/1985, p. 91). Sócrates já havia nos ensinado que o objeto agalmatizado é o saber. E se esse objeto pôde ser deslocado dele para Agatão é justo porque era o próprio Alcibíades a agalma, era nele que estava o saber, um saber não sabido. Aqui já nos mostra também a estrutura do encontro daquilo que advém como desencontro. O que se demanda no amor é outra coisa.
Não poderíamos tomar aqui o desencontro como essa descontinuidade para frisar com isso que a formação do analista seria uma “sucessão de rupturas” (Brodsky, 2023, p. 119)? Isto é, não se trata nem de progresso nem de curriculum. Não se trata de uma continuidade de onde se poderia extrair uma garantia. Trata-se de “momentos fecundos” (Gorostiza, 2011, p. 3) a serem verificados après coup. Seja na prática, no controle, na teoria ou na própria análise, não há nenhum le dimanche de la vie (Silva, 2023) – foi o que me ensinou Queneau. A potência da psicanálise não estaria exatamente aí, em poder sustentar que há um furo no saber? Por essa razão, não há como conceber a Escola a não ser como um conjunto aberto: uma proliferação de furos (Brodsky, 2020, p. 55). E isso convoca cada um a jogar a partir de suas próprias cartas.
No que tange às admissões, entretanto, a Escola, na experiência que oferece, deixou de lado os jovens (Miller, 2023b). E não haveria de ser diferente. Um curriculum passou a exigir um percurso “impossível de se cumprir antes dos 50 anos de idade” (Miller, 2024, p. 22). Esta observação feita por Miller, porém, levou a AMP a decidir por uma Política da Juventude, o que me parece reorientar a direção da Escola, fazendo dela um lugar para que os mais jovens possam formar-se nela e com ela contar a fim de se conduzirem.
Uma placa sensível. É assim que Alberti (2023) interpreta a juventude, sensível ao discurso contemporâneo. Assim, ela situa a importância dos jovens na Escola como uma necessidade de discurso, uma necessidade de que exista a psicanálise. Lacan via no novo o traço do verdadeiro (Miller, 2001/2003b, p. 9). Dizer que aos jovens, ou à juventude, lhes falta tempo é nutrir nisso um sonho de eternidade, um sonho que “nega a castração que cada um porta e o infalível de crer que se pode dizer qual é o tempo que falta” (Zelaya, 2023, p. 40).
Não há formação analítica, mas pode haver uma experiência como ato. Sabemos que um ato só pode ser assim chamado por ser efeitos, mas antes, por ter se fundado numa não garantia. No ato, sempre se está sozinho, é sempre um por um. Laurent Dupont (s/d.), em uma intervenção junto à revista Factor a, enfatiza que só é possível dizer que houve uma experiência quando algo novo surgiu dali. Uma experiência é um ato. O novo pode surgir ou não. “Se a experiência está centrada no acúmulo do vivido, não há experiência como ato”, ele diz.
Ler a formação como uma experiência é dizer também onde ela vai se alojar: da análise à Escola, e retorno. A experiência sempre advém de algo contingente, que “põe à prova o desejo do analista em sua relação com a Escola” (Dupont, s/d.). Como para cada um se fez existir essa dimensão, essa confrontação com o S(Ⱥ), é o que coloca a possibilidade de dizê-lo como um efeito de formação. Pode ser que funcione ou não. Mas é sempre a cada vez.
Miller, ao recordar a figura de Lacan como a de um ancião que se dirige à juventude, destaca que nunca houve nada em seu Seminário que convidasse a juventude rebelde a dormir, nenhuma palavra apontava para essa direção. Ele frisou, entretanto, que “o ancião estava ali para recordar à juventude que há estruturas […] e que não basta soprar sobre as mesmas para que se desvaneçam e que, para ter a possibilidade de mover algo, é preciso tê-las em conta” (Miller, 2023c). Em seu ensino, sempre se tratou de sustentar um discurso capaz de fazer a psicanálise desejável no presente igual como ela o foi em seu primeiro momento, especialmente para os jovens. Um convite aberto à experiência, sucessiva e interminável de formar-se a partir do que é para cada um o seu ponto de solidão.
O tema da abertura da Escola ao novo, por meio de sua Nova Política, a dos jovens, nos convida a olhar como o deus Jano, para dentro e para fora, para o passado e para o futuro. É preciso, ademais, “saber acrescentar à porta do cartel – regida pelo todo e o Mais-Um –, uma outra porta ao não-todo, verdadeira entrada Um×Um.” (Antelo, inédito). Trata-se da revalorização do que há da experiência, ou melhor, do que pode haver, porque a princípio não há. São os signos de amor, porém, o que já apontam de entrada para essa transformação no discurso como também para as respostas que podem advir diante da oferta de que se demande, e são eles que podem possibilitar fazer da Escola um laço.
Referências
ALBERTI, Christiane. Placa sensible. Mondō, n. 3, 11 dec. 2023. Disponível em: https://mondodispatch.com/es/2023/12/11/placa-sensible/. Acesso em: 10 maio 2024.
ANTELO, Marcela. De entrada: a porta e um japonês. (Inédito)
BONNAUD, Hélène. Saber y Verdad. Intervención en la presentación del S. XV en la ECF. Psicoanálisis Lacaniano. S.d. Inédito. Link: https://psicoanalisislacaniano.com/2024/05/28/hbonnaud-saber-verdad-20240528/.
BRODSKY, Graciela. Pasión lúcida. In: BRODSKY, Graciela (org.). Pasiones lacanianas. Olivos: Grama Ediciones, 2020. p. 55-65.
BRODSKY, Graciela. Los psicoanalistas y el deseo de enseñar. Olivos: Grama Ediciones, 2023.
DUPONT, Laurent. Entrevista a Laurent Dupont para la revista Factor a. s/d. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ObpH06m_YHo
GOROSTIZA, Leonardo. O gnômon do psicanalista. Opção Lacaniana online, São Paulo, ano 2, n. 4, p. 1-12, mar. 2011. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_4/O_gnomon_psicanalista.pdf. Acesso em: 25 de jan. 2025.
LACAN, Jacques. Variantes do tratamento-padrão. (1953) In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 325-364.
LACAN, Jacques. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. (1967) In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 248-264.
LACAN, Jacques. Lituraterra. (1971) In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 15-27.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
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SILVA, Nelson Matheus. Le Dimanche de La Vie, Mon Cul. Agente, Revista de Psicanálise, Salvador, n. 20, p. 193-198, set. 2023.
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[1] Neologismo que mescla verdade e variedade. Tradução livre do autor.
[2] Trata-se da lição de 26 de junho de 1973. LACAN, Jacques (1972-1973) Le Séminaire, livre XX, Encore. Paris: Seuil, 1975, p. 128. Nesta lição, Lacan comenta os dispositivos de aprendizagem aos quais os psicólogos experimentais submetem ratos a labirintos
