Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
Lê(n)da: letra, desejo e amor
Raquel Matias
Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia
Há textos que não se leem – acontecem!
São encontros que abrem uma fenda no saber, e, por ali, algo passa, se inscreve, toca o corpo. Assim foi o meu encontro com a escrita de Lêda Guimarães. Um encontro sem rosto, sem presença imaginária, mas de uma presença real, feita de uma escrita que se oferece como passagem do desejo e não como doutrina.
Hoje, ao apresentar este livro, O que é ser homem?, sinto-me diante de um novo acontecimento de leitura. Porque a questão que Lêda nos lança – e que ecoa nesta mesa – não é simplesmente uma pergunta sobre o homem. É, antes, uma pergunta cortante sobre o nosso tempo.
Então, o que é ser homem, hoje, quando o masculino declina e o semblante de virilidade se desfaz no ar do tempo? Lêda não responde – ela escuta. E, escutando, nos ensina a sustentar a pergunta, a não ceder à tentação de preencher o furo com definições fáceis. É por isso que sua obra segue viva: porque nela o saber não se fecha, mas vibra no não-saber que move o desejo.
No meu próprio percurso, que também passou por ser Mais-um do cartel que mergulha nos textos de Lêda, percebo que foi percorrendo os desfiladeiros do feminino que me aproximei do, não menos enigmático, masculino. O feminino, em sua relação com o indizível, sussurrou-me que há uma ética do não-todo, um modo de sustentar o impossível sem querer reduzi-lo. E foi justamente esse sussurro surpreendente que me permitiu escutar o masculino desde sua opacidade, em seu mal-estar, em sua vulnerabilidade contemporânea.
É assim que o trabalho de Lêda se costura ao meu e ao de tantos outros: não como continuidade linear, mas como bordado em movimento, cheio de fios que se afrouxam e se enlaçam. Porque o que se transmite na psicanálise não é uma doutrina – é um modo de trabalhar, uma ética. É a coragem de manter viva a interrogação, de se deixar surpreender pelo que o inconsciente ainda tem a dizer.
Afinal, o que é estar vivo, senão isso? Manter o desejo em trabalho, suportar o que não se sabe, deixar-se afetar por aquilo que nos ultrapassa.
Lêda soube disso. Sua escrita é feita desse entrelaçamento entre rigor e risco, entre o conceito e o corpo. É uma escrita que pensa e transpira, que se oferece à leitura como experiência, não como explicação.
O livro de Lêda chega, agora, não como uma última página, mas como um chamado: a seguir lendo, seguir escutando, seguir bordando os fios que ela deixou em suspenso.
A presença de Liliane Sales, Luis Salamone e Nieves Soria nesta mesa também fala disso: daquilo que se tece entre analistas, nas bordas da transferência de trabalho, onde a amizade e o desejo se encontram. Liliane, organizadora deste livro, amiga íntima, doce porta-voz da mulher extraordinária que Lêda foi; Luis, parceiro de escrita e de percurso com Lêda; Nieves, companheira de reflexão e de laço, autora do prefácio que nos guia. Cada um deles, a seu modo, testemunha essa vitalidade do trabalho que não se interrompe com a morte, mas se reinventa no laço e na leitura.
É nesse ponto que vida e morte se tornam indiscerníveis. Porque a psicanálise, quando é viva, pulsa nesse limite: onde o amor toca o saber, e o saber se confirma no corpo.
E é nesse ponto que, em nome de tantos que foram atravessados pela palavra de Lêda, eu digo: a psicanálise segue viva. Segue viva enquanto houver quem a deseje, quem por ela se deixe interrogar e aceite surpreender-se.
A Psicanálise segue viva enquanto houver letra, desejo e amor. Viva Lêda! Viva a Psicanálise!
