Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
Um “vasio” destino ao feminino
Raphael Sá Barreto Gadelha
Associado ao Instituto de Psicanálise da Bahia
Lêda Lessa Andrade Filha
Psicanalista
O que quer uma mulher?
A mulher constituiu para Freud um mistério: ele se refere a ela como um “continente negro” e constantemente assinala a dificuldade da psicanálise de se aproximar dos processos da sexualidade feminina. Numa carta para Marie Bonaparte, Freud expressa a pergunta “o que quer uma mulher?”. Os ecos dessa indagação estão presentes na obra de Freud e para além de seus textos.
Serge André esboça uma possível resposta. Ⱥ mulher, a partir de seu gozo não-todo demarcado pelo significante, mais além do falo, sua condição é de não-toda sujeito. André conclui que a mulher ser não-toda sujeito significa que uma mulher é não-toda determinada por seu inconsciente; a mulher só tem inconsciente na medida em que se alinha na fórmula do todo. Afirma Lacan (1972-1973/2008): “Não é senão de lá onde ela é toda que a mulher pode ter um inconsciente” (p. 105). A mulher só é sujeito na medida em que se alinha ao lado masculino da sexuação, ao lado do inconsciente-linguagem. Tendo em vista que a psicanálise se dirige ao sujeito do inconsciente, então, pode-se compreender, logicamente, que uma mulher será não-toda analisável. Portanto, “o que quer uma mulher”, para André, é receber um suplemento de inconsciente, é a possibilidade de significantizar isto de insignificantizável e insubjetivável (André, 1987).
A falta de simbolização do S(Ⱥ), coloca André, está na origem do medo ou horror que a feminilidade pode causar tanto para as mulheres quanto para os homens, algo pior que o horror da castração. Frente a esse horror, tem-se em vista que uma mulher quer que “alguma coisa advenha ao lugar deste significante faltoso, que um ponto de apoio lhe seja fornecido precisamente lá onde o inconsciente a deixa abandonada” (André, 1987, p. 283). A coisa que pode advir, poderá ela buscar por alguns caminhos, dentre eles, a histeria, a mascarada e o amor. Porém, há uma quarta possibilidade: a criação. A criação é a manobra do artista de criar um significante novo no lugar de S(Ⱥ), mas que não tampone esse furo; pelo contrário, revela-o fazendo atuar como furo (André, 1987). Nas palavras de Lacan (1959-1960/1988): “Um objeto pode preencher essa função que lhe permite não evitar a Coisa como significante, mas representá-la na medida em que esse objeto é criado” (p. 151). Para falar da criação, André evoca o Seminário 7 de Lacan em sua metáfora sobre o oleiro que tem como sua criação o vaso, na medida em que o vazio que o vaso inclui lhe dá sua forma. A criação é um “vasio”, neologismo que faço com a junção desses dois significantes, “vaso” e “vazio”. O “vasio” é essa poética na medida em que a poesia evoca o furo, fazendo-o atuar, como aponta André (1987). Não há tamponação, o “vasio” é a possibilidade de fazer algo com o vazio.
Um retorno a Freud
O ensino de Lacan caminha para uma outra resposta sobre a mulher. Na sexuação, a anatomia não é o destino. Uma virada que faz o ensino lacaniano é a passagem da clínica do penisneid, que toma a mulher por um traço menos (-) para a compreensão de algo a mais (+), um gozo a mais, para além do falo.
É possível fazer a objeção de que, em Freud, a teoria do complexo de castração e do encontro com o outro sexo aparece de forma um tanto imaginarizada. No entanto, podemos ler algo do não-todo nas entrelinhas freudianas, mesmo que coberta por essa sombra espessa da visão masculina sobre a mulher, enfatizada nesse tal “continente negro”. É curioso que desde o texto “Dissolução do Complexo de Édipo”, de 1924, Freud tenha percebido que existe algo na mulher que escapa ao supereu, algo que não pode ser inteiramente submetido a ele. Por não ter o pênis, a mulher não teria nada a perder (a não ser o objeto), não conheceria a ameaça de castração. Freud (1925/2010) aponta alguns “traços de caráter que sempre foram criticados na mulher” como “menor inclinação a submeter-se às grandes exigências da vida”, “menos senso de justiça” e ser “mais guiada por sentimentos afetuosos e hostis ao tomar decisões” (p. 298). Tais afirmações encontrariam fundamento nessa distinta formação do supereu. São exemplos que demonstram algo de um extravio na relação com a lei fálica, algo que foge ao controle da lei. Não à toa, são as histéricas que apontam o furo no mestre e denunciam sua impotência – impotência de ofertar a ela um significante que possa dizer da feminilidade, já que não existe significante que diga do sexo feminino. Dessa forma, Freud soa depreciativo ao denunciar tais traços na mulher apontando-lhe um menos (-) em sua constituição. No entanto, suas afirmações dialogam fortemente com a perspectiva do lado feminino das fórmulas da sexuação, onde a mulher se encontra não-toda assujeitada à castração e à lei fálica.
Outra declaração freudiana que aponta para um “mais além” é a troca de zona erógena. Do clitóris a uma outra zona, a vagina. O clitóris é associado a um pênis por Freud e assim se relacionaria a um gozo fálico; a vagina seria a zona erógena própria da mulher. Lacan (1972-1973/2008) zomba desse gozo, dito, vaginal: “Eu falava da última vez das psicanalistas mulheres – que tentem nos dizer, pois bem, nem uma palavra! Nunca se pode tirar nada. Então a gente chama como pode, esse gozo vaginal” (p. 81). Na sexuação, há uma seta que parte da mulher e que se lança ao lado do homem e aí reside o seu ancoramento no gozo fálico, mas também se relaciona a um outro gozo, ao S(Ⱥ). Este não sai de seu lado em direção ao outro sexo, permanece solitário em seu campo. Eis o gozo outro, além do falo, e o título de “gozo vaginal” vem na tentativa de nomear esse além, inominável, escondido sob o véu da imaginarização de um “continente negro”.
Vale trazer à tona as três saídas da feminilidade que Freud postulou. Uma saída histérica, pelo complexo de masculinidade; outra pela inibição sexual e o caminho denominado por Freud de “normal” seria a maternidade. Entretanto, as três saídas se encontrariam no campo masculino da fórmula, na lógica do todo, até mesmo o caminho “normal”. Nesse sentido, a mãe não é uma mulher, “a tábua da sexuação ilustra esta divisão mãe-mulher: a mãe se localizará à esquerda, do lado todo, ao passo que Ⱥ mulher será situada do lado não-todo” (Chiriaco, 2022, p. 71). A mãe está no campo do “ter” onde toma o filho como seu objeto a. Pode a mulher encontrar uma saída pela feminilidade do lado do “ter”? Miller (2022) responde: “Contrariamente a Freud, Lacan pensava que não havia soluções para a mulher do lado do ter e que, nessa vertente, há apenas falsidades e inautenticidades” (p. 24). Portanto, é do lado do ser que vem uma outra solução: “a solução do lado do ser consiste em não tapar o buraco, ou seja, fabricar um ser com o nada” (Miller, 2022, p. 20).
Uma via ao não todo
Tal inconsistência do ser demarca a posição feminina. Não há significante do sexo feminino, há algo que não se inscreve e que não pode se esgotar em uma identificação com o falo. Esse mais além do falo, ou mais além do Um, do Um que representa o lado Homem da fórmula, é esse impossível de se dizer ligado à ausência de significante que represente a feminilidade. Elucida Mees (2019):
O mais além do Um demarca o que não se escreve do traço e do pai. Há uma posição Outra, consequentemente, relativa à identificação. Se o feminino se identificasse ao pai, sua sexuação redundaria no masculino e, portanto, é condição para a posição feminina que assim não seja. A posição feminina, logo, alude a uma “destituição subjetiva”. (p. 112)
A autora estabelece uma associação entre a destituição subjetiva e a posição feminina. A “destituição subjetiva” é um conceito pertinente ao final de uma análise, referente à queda do sujeito suposto saber que é projetado na figura do psicanalista no decorrer do processo analítico. Esse conceito “supõe que tenha havido a queda dos significantes advindos do Outro e que representavam o sujeito” (Mees, 2019 p. XX), a queda dos significantes-mestres que identificam o sujeito, identificação relativa ao campo do Outro. A relação entre a destituição subjetiva e a posição feminina está nesse ponto de inconsistência do ser, mais além de uma identificação com o todo, na ligação ao S(Ⱥ):
A destituição subjetiva, portanto, assemelha-se àquilo que a posição feminina demarca no quadro da sexuação: sem o falo como resposta identificatória ao Outro […]. O significante da falta do Outro [S(Ⱥ)] do feminino, assim, assemelha-se ao que está em causa na destituição subjetiva. A ausência do traço da feminilidade e a não-toda inscrição na função fálica se associam ao des-ser do final da análise. (Mees, 2019, p. 129)
Em ressonância a esse “des-ser”, pode-se pensar nisso que Miller coloca acerca de uma “solução pelo lado do ser”, uma solução que não busca tapar o furo, que inclui a lógica do não-todo. Dessa maneira, Mees (2019) propõe que no final de análise “há afirmação da condição de usufruto à modalidade desse gozo e daquilo que ele demarca sobre o objeto a e o S(Ⱥ)” (p. 131). O S(Ⱥ), que André enunciou em seu potencial de horror, pior que o horror à castração, pode receber um tratamento pela palavra.
Vale trazer de volta a ideia de criação, conceituada por Lacan e trabalhada por André. Podemos estabelecer, então, uma associação com o saber-fazer construído no final de análise e a criação do “vasio”? Aqui é interessante trazer uma distinção que Miller faz entre o conceito de criação e de invenção. Ele afirma que a criação comporta um caráter ex-nihilo (Miller, 2003), aquilo que se faz a partir do nada. Por outro lado, a invenção seria “uma criação a partir de materiais existentes” (Miller, 2003, p. 1). A invenção, seguindo um raciocínio de Miller, é uma criação, mas a partir de algo já dado; ela comporta a originalidade e a diversidade. Talvez a invenção possa ser compreendida como a criação a partir dos restos sintomáticos, justamente, a construção de um saber-fazer com o que se é. Logo, penso ser possível estender a associação entre a invenção de um saber-fazer ao final de uma análise com a manobra de criação do artista como uma outra via de “destino” ao feminino, diferente das saídas fálicas propostas por Freud. Uma análise é um possível tratamento do feminino no corpo falante, do ponto de S(Ⱥ) onde o Outro não responde.
Referências
ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1987.
CHIRIACO, Sonia. O nada. Scilicet: “A mulher não existe”. Grande conversação virtual internacional. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2022. p. 70-72.
FREUD, Sigmund. A dissolução do complexo de Édipo. (1924) In: FREUD, Sigmund. O eu e o Id, “Autobiografia” e outros textos (1923-1925). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 203-213. (Obras completas, 16)
FREUD, Sigmund. Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos. (1925) In: FREUD, Sigmund. O eu e o Id, “Autobiografia” e outros textos (1923-1925). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 283-299. (Obras completas, 16)
FREUD, Sigmund. Sobre a sexualidade feminina. (1931) In: FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, Novas conferências introdutórias e outros textos (1930-1936). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 372-397. (Obras completas, 18)
FREUD, Sigmund. A feminilidade. (1933) In: FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, Novas conferências introdutórias e outros textos (1930-1936). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2010. p. 263-293. (Obras completas, 18)
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. (1959-1960) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Antônio Quinet. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
MEES, Lúcia Alves. O feminino do fim de análise: a passagem do gozo Outro ao desejo do psicanalista e seu ato. 2019. Tese (Doutorado em Teoria Psicanalítica) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
MILLER, Jacques-Alain. A invenção psicótica. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 6, 2003.
MILLER, Jacques-Alain. Os semblantes entre os sexos. Scilicet: “A mulher não existe”. Grande conversação virtual internacional. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2022. p. 17-27.
