Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
Do excesso e suas bordas: o manejo do gozo na contemporaneidade
Ligia Amorim
Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia
O presente ensaio propõe um diálogo entre a ética da psicanálise lacaniana e a concepção ecológica do arquiteto chinês Kongjian Yu, criador do conceito de cidades-esponja. Partindo da ideia de que tanto a água quanto o gozo são excessos que resistem à contenção, o texto articula três figuras simbólicas – a barragem de Marguerite Duras, os diques da Holanda evocados por Freud e a cidade-esponja de Kongjian Yu, falecido recentemente em um acidente aéreo no Brasil – para pensar o modo como o sujeito contemporâneo pode lidar com o transbordamento pulsional. Em uma época marcada pelo imperativo de gozar, a psicanálise propõe não a repressão do excesso, mas sua circunscrição simbólica, criando bordas por onde o gozo possa circular sem devastar.
O arquiteto chinês Kongjian Yu (1963-2024), reconhecido por sua proposta das cidades-esponja, dedicou-se a pensar como o excesso – no caso, o da água – pode ser manejado de modo criativo. Em vez de combater as enchentes, Kongjian propunha acolher o transbordamento, permitindo que o solo urbano absorvesse, infiltrasse e fizesse circular o excesso de água. Sua concepção desloca a lógica do controle para a do bom uso do excesso. Essa intuição ecológica encontra surpreendente ressonância com a ética da psicanálise lacaniana.
Para Lacan (1962-1963/2005), o sujeito também é atravessado por um excesso: o gozo, satisfação que excede a economia do prazer e não pode ser inteiramente simbolizada. No Seminário 10, A angústia, Lacan compara a pulsão a uma torneira: o problema não está em abri-la, mas em fechá-la – instaurar um ponto de corte que regule o fluxo pulsional (Lacan, 1962-1963/2005, p. 315). Essa metáfora hidráulica antecipa a função do analista: não bloquear o gozo, mas introduzir um ponto de perda necessário à sua circulação.
Essa problemática reaparece na literatura e na teoria. Em Uma barragem contra o Pacífico, Marguerite Duras (1950/2009) narra a insistência de uma mãe em construir uma barragem para impedir que a água salgada invada os arrozais – tentativa fadada ao fracasso. A barragem é destruída pelas forças naturais, pela corrosão, pelas marés. Freud (1932/2010), na Conferência XXXI, evoca o antigo mar interior holandês, o Zuiderzee (Freud, 1935/2005), transformado em terra cultivável, para ilustrar como o ego se forma a partir do id – um pedaço do mar pulsional que se deixa drenar, domesticando o excesso. Essa imagem pode ser colocada em diálogo com a concepção de Jacques-Alain Miller sobre o trabalho simbólico de circunscrição do gozo: não se trata de eliminar o mar do inconsciente, mas de construir diques simbólicos que permitam à vida psíquica se sustentar sobre ele.
Miller (2009) retoma a metáfora aquática para pensar o gozo como o elemento massivo por excelência: tal como a água, ele não vem em partes discretas, a menos que algo funcione como borda – “é necessário garrafas para se ter uma água e outra” (p. 72). A operação do significante, nesse sentido, é o que introduz uma lógica de corte, permitindo que o gozo deixe de ser pura invasão e se torne algo com o que o sujeito possa fazer laço. Enquanto Duras mostra o fracasso trágico da contenção, Miller propõe uma circunscrição simbólica – diques que não eliminam o gozo, mas o contornam.
Lacan ensina que o gozo, embora fluido, é contável: deixa marcas, traços, letras. O dique e a barragem tornam-se, assim, imagens do esforço humano de lidar com o impossível de conter o gozo – e dos restos que ele sempre deixa. A análise tenta regular o gozo, circunscrevê-lo simbolicamente, sabendo que algo sempre escapa. O que está em jogo não é eliminar o excesso, mas manejá-lo.
Da mesma forma que o arquiteto propõe à cidade aprender a conviver com a água, o analista propõe ao sujeito aprender a conviver com seu gozo. Ambos tratam do mesmo desafio: criar bordas simbólicas capazes de dar forma ao que transborda.
Na sociedade contemporânea, marcada pela saturação de imagens e pelo imperativo de gozar, o excesso não é mais recalcado, mas exigido. A cultura convoca o gozo no corpo, no trabalho, na performance e até na felicidade. O resultado é um gozo sem bordas simbólicas, que retorna sob formas de sofrimento difuso: angústias corporais, compulsões, burnout, depressão.
Nessa perspectiva, a “torneira” lacaniana ganha atualidade: se o excesso de hoje é o da saturação, o manejo analítico não visa reprimir, mas introduzir diferença. A análise opera como uma engenharia subjetiva do tipo cidade-esponja – cria poros, frestas simbólicas por onde o gozo possa circular sem devastar.
Trata-se, como dizia Lacan (1972-1973/1985), de fazer uso do gozo. O analista não cura o excesso – reorienta seu curso, como o arquiteto que desvia a água para canais férteis. Cada análise inventa um modo singular de tratar o gozo.
Assim como Kongjian Yu propõe que as cidades deixem de ser impermeáveis, a psicanálise propõe que o sujeito se torne menos impermeável à falta. O gesto do arquiteto e o do analista se encontram em uma mesma ética: não eliminar o excesso, mas fazer dele causa de criação.
No lugar da represa, a cidade-esponja; no lugar do recalque, o trabalho analítico. Ambos transformam o que ameaça em recurso simbólico – criam espaços de porosidade, onde o excesso pode ser habitado sem destruir. Assim como a cidade aprende a viver com suas chuvas, o sujeito aprende, em análise, a viver com o que o habita. O gozo, o excesso, o real – não são o que deve ser eliminado, mas o que, acolhido e tratado, permite inventar um modo singular de viver.
Referências
DURAS, Marguerite. Uma barragem contra o Pacífico. (1950) Tradução: T. L. Vieira. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
FREUD, Sigmund. Conferências de introdução à psicanálise. (1935) Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, 2005.
FREUD, S. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. (1932) Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, 2010.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: A angústia. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
MILLER, Jacques-Alain. A lógica da cura psicanalítica. In: X Jornadas do Campo Freudiano, 1993, Málaga – Espanha.
MILLER, Jacques-Alain. Sutilezas analíticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
YU, Kongjian. The sponge city: Planning, design and political design. 2021. Disponível em: https://www.turenscape.com/paper/detail/503.html. [Acesso em: 26 out. 2025].
