Leandro Borges Cartelizante Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba…
Um detalhe, uma ferida – aproximações ao ato analítico
Leila Mignac
Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia
“O que meu corpo sabe da fotografia?” – é assim que Roland Barthes (1980, p. 17) abre sua tentativa de localizar a essência da fotografia em A câmara clara, partindo de uma investigação em torno da sua atração por determinadas fotos. Isso passa por uma constatação: “Tal foto me advém, tal outra não” (Barthes, 1980, p. 24). Como espectador, ele descreve, então, o Studium como elemento da imagem que se busca com a consciência. É o esforço de reconhecer as intenções do fotógrafo ao compor o quadro da foto, acessando-a a partir de signos culturais que permitem sua compreensão: como William Klein ensinando sobre como se vestem os russos ao fotografar em Moscou em 1959, ou Koen Wessing apontando a copresença de personagens improváveis – soldados e freiras – no mesmo enquadre de uma insurreição na Nicarágua (Barthes, 1980). São elementos que provocam um interesse meio desejo, meio querer, um to like e não um to love. O Punctum, por outro lado, perturba o Studium e se apresenta em um detalhe que é como uma flecha que transpassa quem o nota, partindo da cena. Ponto sensível que é como pequena mancha, picada, buraco e corte: uma ferida (Barthes, 1980). Para exemplificá-lo, o leitor é guiado em uma série de imagens por onde um detalhe descentrado o punge, sem aviso: um sapato de presilhas, um colar de pérolas, os maus dentes de um garoto, as unhas pouco limpas de uma mão, o curativo no dedo de uma menina. Tudo está dado e é indesenvolvível neste ponto que fisga e que não responde à cultura ou ao saber.
Um detalhe conquista toda minha leitura; trata-se de uma mutação viva de meu interesse, de uma fulguração. Pela marca de alguma coisa, a foto não é mais qualquer. Esse alguma coisa deu um estalo, provocou em mim um pequeno abalo, um satori, uma passagem de um vazio (Barthes, 1980, p. 46).
A câmara clara de Barthes parece conversar com o que Georges Didi-Huberman trabalha em seu livro O que vemos, o que nos olha, escrito que também parte de uma pergunta: “quando vemos o que está diante de nós, por que uma outra coisa sempre nos olha, impondo um em, um dentro?” (Didi-Huberman, 2010, p. 30). Didi-Huberman vai centrar seu argumento na ideia de que “cada coisa a ver, por mais exposta, por mais neutra de aparência que seja, torna-se inelutável quando uma perda a suporta (…) e desse ponto nos olha, nos concerne, nos persegue” (Didi-Huberman, 2010, p. 33). Assim, ele se apoia no Ulisses de Joyce para nomear como ferida visual o que alude a uma ferida aberta no coração de Stephen Dedalus: a mãe morta que, ao ver o mar que se afasta, o olha. É também inspirada em Joyce a afirmação que a visão se choca com o volume dos corpos humanos em suas cavidades; acontecendo através dos olhos, que se fecham para ver. Didi-Huberman inscreve o visível, portanto, sobre um vazio que se abre em nós e que nos constitui, apontando para algo que nos escapa irremediavelmente.
Trata-se de dois modos de abordar o reviramento proposto por Lacan com a mancha como ponto tíquico na função escópica e que se dá na fenda entre o olho e o olhar (Lacan, 1964/1988). Pode-se dizer que Barthes, Didi-Huberman e Lacan se encontram neste unheimlich, que é o correlato de uma estranheza êxtima ao falasser. Isso mostra – aí onde o real, como cúmplice da pulsão, se evidencia em um ponto cego que nos olha. É o que, no Seminário 11, Lacan destaca ao dizer que, ao se ver sendo olhado por uma lata de sardinhas no quadro dos pescadores em que ele faz mancha, ela tem algo a ver com ele: aqui, o olhar pode ser circunscrito como o objeto a em sua função punctiforme e evanescente (Lacan, 1964/1988): ponto de rachadura no sentido e de divisão do sujeito que também se manifesta no Punctum de Barthes e no que há de inelutável na visão para Didi-Huberman. E é neste ponto mesmo que o ato analítico os encontra.
Lacan indica que “o psicanalista, na psicanálise, não é sujeito, e que, por situar seu ato pela topologia ideal do objeto a, deduz-se que é ao não pensar que ele opera” (Lacan, 1969/2003, p. 377). Isto é, por se situar em uma contingência, tiquê, como o detalhe que nos atinge de surpresa, o ato se dá neste instante em que não há Outro ou sujeito. Há, sim, objeto ativo enquanto o sujeito é subvertido (Holguin, 2019) – uma vez que o que está em questão é um dizer que o modifica (Lacan, 1969/2003). Após o momento decisivo do ato, o sujeito não é mais o mesmo: o que se instaura, sobretudo, é um antes e um depois, como César que, ao saltar sobre o Rubicão e pisar na Itália, desafia as leis impostas até então, tornando-se um rebelde. A partir disso, não é possível voltar atrás.
Com efeito, outra aproximação entre ato analítico e o ponto tíquico se faz a partir de um acontecimento que remete a uma ferida, a mesma que está no centro do que nos flecha – não seria essa a direção? A ferida de que não há relação sexual e que a elucubração de saber tenta, em última instância, aplacar (Miller, 2018, p. 97). Por isso, o ato analítico pode ser descrito como não recuar frente à estrutura de ficção de uma análise, sendo conduzido pela lógica de mostrar o impossível de dizer a partir de um limite estrutural imposto ao saber (Miller, 2010). É o que Miller assinala em A palavra que fere, dando pistas sobre a incidência traumática do significante no corpo e apontando que o ato pode alcançá-la ao fazer repercutir o gozo ao qual se liga e ultrapassa o sentido.
Desse modo, o novo que se abre a partir do ato analítico em sua temporalidade de salto pode afetar o núcleo pulsional e fazer a verdade variar, provocando a transformação do sujeito ao levá-lo mais além do saber. O que oportuniza essa decisão, no entanto, é que o analista se faça de objeto a e que se sustente por um desejo “de se chegar ao real, de reduzir o Outro a seu real e liberá-lo do sentido” (Miller, 2012). Ou, dito de outro modo, um desejo de obter uma diferença radical a partir de um gesto que repousa em um lance de dados.
Referências
BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 2010.
HOLGUIN, Clara M. Um laço êxtimo: solidão com laço – Sobre o ato analítico e a garantia. Blog da EBP-SP, 2019. Disponível em:
https://ebp.org.br/sp/um-laco-extimo-solidao-com-laco-sobre-o-ato-analitico-e-a-garantia/. Acesso em: 25 out. 2025.
LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.
LACAN, J. O ato psicanalítico. Resumo do Seminário de 1967-1968. (1969) In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 371-381.
MILLER, Jacques-Alain. A palavra que fere. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 56/57, p. 67-70, 2010.
MILLER, Jacques-Alain. Apresentação do tema do IX Congresso da AMP. Conferência realizada em 2012. Disponível em:
http://www.congresamp2014.com/pt/template.php?file=Textos/Presentation-du-theme_Jacques-Alain-Miller.html. Acesso em: 25 out. 2025.
MILLER, Jacques-Alain. Uma psicanálise tem estrutura de ficção. In: Aposta no passe: seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola Brasileira de Psicanálise, Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018. p. 91-101.
