skip to Main Content

A desrealização de Freud na Acrópole

Leandro Borges
Cartelizante

Freud está com 48 anos. Vai à Itália de férias e acaba encontrando-se, quase inesperadamente, na Grécia, em Atenas:

Eu me encontrava na Acrópole e pousava meus olhos sobre o cenário, um pensamento surpreendente passou rápido em minha mente: “Então tudo isso realmente existe mesmo, tal como aprendemos no colégio!” (Freud, 1936/1976, p. 295).

Atordoado, não admite o que vê; percebe-se nitidamente estranho e dividido. Ele escreve: “Acrópole justamente mostrara que, em meu inconsciente, eu não tinha acreditado, e que só agora estava adquirindo uma convicção que ‘atingia o fundo do inconsciente’…” (Freud, 1936/1976, p. 295). Sua experiência de estranheza, de incredulidade, se deu por uma reação brutal à diferença entre dois regimes de existência: o da crença e o da realidade. Ele acrescenta: “Pela evidência dos meus sentidos, estou agora na Acrópole, mas não consigo acreditar nisso” (Freud, 1936/1976, p. 298). A esse fenômeno de falsificação da realidade, a essa sensação psíquica de aparência confusa e distorcida, Freud nomeia dedesrealização,e a concebe não apenas como um distúrbio psicológico, mas como uma formação defensiva complexa, na qual o eu suspende o valor da realidade para conter o retorno de experiências infantis traumáticas. O efeito é a criação de uma zona intermediária, onde o eu preserva sua coerência ao custo de um desligamento parcial da realidade.

Podemos intuir que, quando Freud literalmente vê a Acrópole, tem um encontro traumático com tiquê, com o real do olhar e, com efeito, uma experiência de gozo. “Realmente, eu não poderia ter imaginado ser possível que me fosse dado ver Atenas com meus próprios olhos – como indubitavelmente está ocorrendo” (Freud, 1936/1976, p. 300). Brousse (2014) observa que o laço entre a imagem e o organismo tem a ver com as experiências de gozo: são elas que articulam e “grampeiam” a imagem ao corpo. Esse grampo, que os une, é o objeto a, que é aquilo de que o sujeito, para se constituir, se separa enquanto órgão; ele é o resto de uma separação inaugural que opera como símbolo da falta e consequentemente causa do desejo. Quando a Acrópole se “desrealiza” diante dos olhos de Freud, algum grampo se solta e uma nova articulação entre imagem e organismo lhe é exigida pela pulsão. Algo se retranscreve na memória de corpo, uma mudança de registro, onde o traço mnêmico se converte em marca corporal, o gozo sofre mutação,e se inscreve no corpo pela via do significante. “Se o traço não se torna lembrança, a memória permanece sob o domínio do corpo que sente; se ele se torna lembrança, ela pode obedecer à falta-a-ser, e o recalque vence a clivagem” (Brousse, 2021, p. 29).

A experiência de gozo de Freud nos conduz com precisão ao conceito de objeto a no campo escópico. Ele designa o ponto a partir do qual o olhar irrompe como resto do real, isto é, com aquilo que, na visão, não se vê, mas que insiste como presença opaca, uma mancha que fere a unidade imaginária da imagem. No Seminário 11, Lacan desenvolve a noção de esquise do olho e do olhar, distinguindo o primeiro como pertencente à ordem do visível e o segundo como manifestação do real: “A função do olhar introduz no campo da visão algo de inapreensível, que se manifesta como uma mancha” (Lacan,1964/2008, p.96). Lacan formula que a relação do sujeito com o olhar se funda no engano, o olhar não coincide com o ver; nesse descompasso, o sujeito se crê fonte do olhar, mas é olhado do ponto onde ele falha. Isto posto, o olho não é só janela, mas também buraco. Na Acrópole, o olhar de Freud é capturado por seu ponto cego: o que se eleva diante dele não é apenas um monumento, mas a própria materialidade pulsante do inconsciente. Ele já não contempla,mas é atravessado pelo que vê; é ele quem agora é visto.

O inconsciente, diz Lacan, é homólogo às zonas erógenas do corpo. Elas são seulocus, lugares de passagem, de fricção, onde o gozo se grava em traços. “O lugar e o laço são inseparáveis. Já que ‘o ato de recordar é em parte corporal’, existem os loca corporalia, lugares de memória, que são lugares corporais…” (Antelo, 1993, p. 91). Nessa topologia, a pulsão opera como uma borda viva, que funcionam por abertura e fechamento, articulando o corpo ao significante. É nessa unidade das hiâncias, afirma Lacan (2008), que “a pulsão tem seu papel no funcionamento do inconsciente” (p. 178). Diante da Acrópole, o olhar de Freud saturado de memória de gozo atravessa o limiar do sentido e o inconsciente se abre como fenda pulsante. Tal abertura não apenas rompe com o automatismo dos significantes, mas desvela a fragilidade dos semblantes e abala a sustentação de sua fantasia, fazendo emergir o real que, até então, se mantinha velado sob o véu do sentido.

Foi um acontecimento de corpo. Freud é tomado pela coisa estranha que nos habita ao ver, com seus próprios olhos, um desejo destinado ao impossível realizar-se diante dele. Na Acrópole, a experiência de um êxito o surpreende, ele se percebe pensando que é “bom demais para ser verdade” (Freud, 1936/1976, p. 301). Essa sensação que o suspende entre o prazer e a perturbação revela a força do supereu, que vela todo o feito com o selo da culpa. “Parecia-me além dos limites do possível eu, algum dia, viajar tão longe – eu percorrer um caminho tão longo” (Freud, 1936/1976, p. 302). O olhar lançado sobre Atenas devolve-lhe a imagem de uma travessia: a ultrapassagem simbólica do pai. No instante em que realiza o que o pai não pôde, Freud se vê invadido por uma culpa silenciosa, o preço de ter atravessado o interdito. Aos 80 anos, ele reconhece que “parece como se a essência do êxito consistisse em ter realizado mais que o pai, e como se ainda fosse proibido ultrapassar o pai” (Freud, 1936/1976, p. 303). O episódio marca, assim, a queda do ideal paterno. E Freud acaba por nos testemunhar que o desejo só pode ser satisfeito se for trabalhado e torcido pela censura e que, sempre que houver desejo realizado, haverá também desrealização.

Referências

ANTELO, Marcela. A dama Yates. Correio, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, n. 72, p. 91-92, 2013.

BROUSSE, Marie-Hélène. Corpos lacanianos: novidades contemporâneas sobre o estádio do espelho. Opção Lacaniana Online, nova série, São Paulo, ano V, n. 15, p. xx-xx, 2014. Disponível em:https://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_15/Corpos_lacanianos.pdf. Acesso em: 25 out. 2025.

BROUSSE, Marie-Hélène. Traços e marcas. Curinga, Belo Horizonte, n. 68:Psicanálise, corpo e acontecimento, p. 24-34, 2021.

FREUD, Sigmund. Um distúrbio de memória na Acrópole. (1936) In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XXII: Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 291-303.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

Back To Top