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Um psicanalista em sala de aula: psicanálise, pedagogia e educação

Karynna Nóbrega
EBP/AMP
Atual Diretora de Cartéis e Intercâmbio da Seção Nordeste.
Professora Associada Nível I do curso de Psicologia da
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)

Na verdade, não é obrigatório que o homem seja educado. Ele faz sua educação por si só. De uma forma ou de outra ele se educa. Convém efetivamente que aprenda alguma coisa, que ele quebre um pouco a cabeça. Os educadores são pessoas que julgam poder ajudá-lo. Consideram inclusive que há um mínimo a ser dado para que os homens sejam homens, e que isso se passa pela educação. Não estão completamente errados. É preciso certa educação para que os homens consigam se suportar (Lacan, 2005b, grifo nosso).

O que faz um psicanalista na sala de aula? O que faz um psicanalista na Universidade? E numa escola? Horne (2005), no artigo “Psicanálise e universidade”, esclarece que há duas vertentes de intervenção da psicanálise, seja ela em intensão e em extensão. A intensão refere a formação propriamente dita do analista por meio da própria análise, a supervisão e a formação teórica. Já a extensão se refere à infiltração da psicanálise na pólis; no contexto da universidade relaciona-se à extensão, quando o psicanalista transmite os fundamentos e promove a transferência e análises.

Com a psicanálise, aprendemos que o amor é uma condição para o saber; em outros termos, que toda relação é transferencial, bem como aprendemos que o mal-entendido é estrutural. Para tanto, pretendo fazer uma breve articulação entre psicanálise, pedagogia e a educação a partir de Freud, Lacan e outros autores.

Em “O Mal-estar da civilização”, Freud (1930/1996) esclarece que o mal-estar é estrutural. Há três fontes de sofrimento humano, a saber: a relação com o corpo, com o outro e os problemas da natureza. Ele problematiza que a felicidade é episódica e que o homem busca ser feliz e assim permanecer, encontrando diferentes formas de satisfação, seja por meio da religião, da arte, da ciência, do uso de substâncias tóxicas e do amor. Freud destaca que governar, educar e analisar são três profissões impossíveis. Ou seja, haverá sempre um resto, um ponto de impossível a ser alcançado.

Em “Explicações, aplicações e orientações”, Freud (1933/1996) menciona que a educação inibe, proíbe e suprime. Dessa forma, ele mostra que a educação promove e visa a um disciplinamento da pulsão, por meio do controle dos corpos, e tem uma função civilizatória, quando o sujeito renuncia a algumas formas de satisfação para investir na pulsão de saber.

Di Ciaccia (1990), no artigo “Da pedagogia à psicanálise”, promove uma distinção entre esses dois campos de saber, mostrando como cada um, a seu modo, interfere na criança. A educação visa ao disciplinamento da pulsão, enquanto a psicanálise se volta à terapêutica. Podemos destacar uma similitude entre a pedagogia e a psicanálise: uma experiência de corpo e de palavra, especificamente das marcas do Outro. Em relação às distinções, o autor esclarece que a pedagogia visa inibir os excessos, aposta no Outro da linguagem e se serve da identificação com o Outro; por outro lado, a psicanálise promove o afrouxamento do excesso, se serve do Outro barrado da linguagem, e enfatiza que a palavra do Outro é a matéria-prima que funda e constitui o sujeito. Diante disso, podemos perceber uma especificidade de cada campo, bem como uma distinção nos objetivos. Se, por um lado, a pedagogia promove a identificação e a alienação ao Outro, por outro lado, a psicanálise promove uma desidentificação e a separação do Outro, promovendo um esvaziamento do imaginário. Podemos ler o Outro como sendo as diferentes formas discursivas, já que fazemos laço e gozamos por meio do discurso.

Assim, podemos encontrar a dimensão do real em jogo tanto no campo da educação, como na clínica. Com Lacan, podemos ler Freud pensando que essas três profissões apresentam sempre um resto e um saber fazer com o real. Lacan (2005b) esclarece, em O triunfo da religião, que não se para de educar e nem de governar.

Miller (2017), em O triângulo dos saberes, retoma Lacan e destaca que há uma antinomia entre o ensino e o saber, ou seja, o saber inconsciente não é da ordem de um saber que se ensine, é da ordem de uma experiência. Logo, saber e ensino na concepção lacaniana não são equivalentes. O ensino remete à resistência e ao recalcamento do saber, e há por parte da pedagogia uma tentativa de separar o saber do gozo, bem como tratar o real por meio do imaginário; em outros termos, pela via do sentido e da significação. Miller distingue o saber em duas vertentes: seja como semblante, seja como verdade que remete ao real e ao saber fazer. Já para Lacan, saber e gozo estão do mesmo lado. Na universidade, o saber é efeito do ensino? De que saber se trata no contexto da universidade?

Alberti (2023), em “Lo que puede el psicoanálisis”, destaca que os discursos (mestre, universitário, capitalismo e histérico), cada um a seu modo, exercem uma forma de dominação, e pretendem dominar por meio de uma submissão do outro, sendo o discurso do analista o único que não pretende dominar.

No artigo “Amor de transferência: mais além do sujeito”, Silva e Ornellas (2016) relacionam o espaço escolar e a relação professor versus aluno com o setting analítico e a relação analista e analisante, uma vez que, para que haja análise, é necessário que haja amor, e no espaço escolar fazem-se necessárias a transferência, a instauração do sujeito suposto saber para que haja aprendizado.

O que transmite o docente em seu fazer? É possível ensinar o que não se ensina? Com Freire (2021), aprendemos que a tarefa do ensinante é também de aprendiz. Hooks (2017), inspirada em Freire, faz uso de uma pedagogia transformadora, esclarecendo que há uma responsabilidade compartilhada e o respeito à diferença por meio do multiculturalismo. Para Freire (2021), “É impossível ensinar sem essa coragem de querer bem, sem a valentia dos que insistem mil vezes antes de uma desistência. É impossível ensinar sem a capacidade forjada, inventada, bem-cuidada de amar.” (p. 28). Ou seja, há a dimensão do amor em jogo no lado tanto do ensinante como do aprendiz.

Sabemos que nenhuma educação é neutra. O Outro escola é tecido por vários e diferentes discursos. Com Lacan, aprendemos que em torno do discurso fazemos laço com o Outro. No campo do Outro escola, percebemos a presença do discurso do empuxo à patologização e de demanda de diagnósticos precoces, da medicalização do sofrimento (discurso do mestre) e da tentativa da judicialização (discurso jurídico) da vida, além da presença do discurso religioso. Atravessado por diferentes discursos, a figura do professor na atualidade, de maneira mais enfática, tem sido alvo de ataques de violência, vigilância, críticas e de descrédito, uma certa destituição de saber. Por que será que a figura do professor é alvo de descaso, descuido e invisibilidade na cultura? Quais os efeitos dos usos da inteligência artificial em relação ao amor ao saber?

O psicanalista está advertido de que não há uma separação entre o saber e o gozo. Onde há saber, há gozo. Santiago (2015), no livro O que tem esse menino?, relata a experiência de conversação entre docentes para abordar os sintomas escolares (analfabetismo, inibição intelectual, bullying dentre outros). Fazendo uso da conversação, da construção do caso clínico no um a um, ele nos ensina que o falasser faz laço com o Outro escola por meio de seu sintoma e do seu gozo, e que quando esse sintoma e gozo, de algum modo, interferem no funcionamento e na dinâmica da sala de aula, passam a ser nomeados pelo Outro escola como patológico e passam a ser segregados. Assim, ao abordar os casos clínicos e discorrer sobre o mito individual de cada um, Santiago (2015) esclarece que o saber tem relação com o gozo e o lugar no campo do Outro, ou seja, cada um sofre a seu modo das palavras impostas que nos marcam.

A sala de aula não mudou, mas a relação com o saber mudou. Lacan (1962-1963/2005a), no Seminário 10, esclarece que só o amor faz o gozo condescender ao desejo. Como despertar o desejo de saber e de aprender, quando se tem o saber no bolso e a inteligência artificial à disposição? Como instaurar a figura do sujeito suposto saber nos tempos que correm e nos tempos em que o Outro não existe? Um dos desafios encontrados na minha prática em sala de aula se dá em como introduzir a dimensão do enigma e do sujeito suposto saber por meio da docilidade e do manejo entre vários para possibilitar um saber fazer diante do real, considerando a dimensão do Um. Conforme indica Miller (2021), ser dócil ao outro, sem perder de vista a dimensão do real em jogo. Apostar na educação é apostar na pulsão de saber e na pulsão de vida. Como nos ensina Lacan (2005b): “É preciso certa educação para que os homens consigam se suportar.” (p. 59).


Referências

ALBERTI, C. Lo que puede el psicoanálisis. Revista Virtualia, ano XVII, n. 42, maio 2023.

DI CIACCIA, A. Da pedagogia à psicanálise. Estilos da Clínica, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 18-26, 1997. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71281997000200003. Acesso em: 17 out. 2023.

FREIRE, P. Professora, sim; tia, não: cartas a quem ousa ensinar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

FREUD, S. O mal-estar na civilização. (1930) In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 67-148.

FREUD, S. Explicações, aplicações e orientações. (1933) In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 135-154.

HOOKS, B. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

HORNE, B. Psicanálise e universidade. Correio, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, n. 54, p. 14-16, nov. 2005.

LACAN, J. O seminário, livro 10: A angústia. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005a.

LACAN, J. O triunfo da religião. Rio de Janeiro: Zahar, 2005b.

MILLER, J.-A. O triângulo dos saberes. Opção Lacaniana Online, São Paulo, ano VIII, n. 24, p. 1-9, nov. 2017.

SANTIAGO, A. L. O que tem esse menino? Belo Horizonte: Editora Sintoma, 2015.

SILVA, E. M.; ORNELLAS, M. de L. Amor de transferência: mais além do sujeito. Revista Brasileira de Educação, v. 4, n. 7, p. 1-11, 2016.

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