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Efeito de poesia*

Eucy de Mello
Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia

Tenho escutado, na minha prática clínica, alguns pacientes que são pais e mães de crianças em idade escolar e que se encontram atormentados e angustiados pelos imperativos de um discurso que pretende arrumá-las nas prateleiras da funcionalidade, o que quer que isso queira dizer. Na tentativa de falar sobre o que os atormenta quanto a esses imperativos, falam também daquilo que os consome em termos de suas próprias questões no que diz respeito a esse “estar integrado(a)”, “estar funcionando”. A sanha normatizadora da contemporaneidade obedece ao discurso capitalista, que promove o individualismo, mas elide a singularidade. Talvez por isso tenha surgido em mim um interesse maior pelo que Freud aponta como uma das vicissitudes da pulsão e que conhecemos pelo nome de sublimação.

Ainda que de forma totalmente diferente dos imperativos normatizadores da nossa época, a sublimação se apresentou, sob a pena de Freud, como uma possibilidade de escoamento da pulsão que pudesse veicular um tipo de renúncia. Ela é apresentada como uma alternativa às exigências de civilização da pulsão, mas também superestimada como solução ideal do conflito entre os imperativos pulsionais e a convivência humana, sendo até mesmo percebida, pelos mais incautos, como uma facilitadora da adaptação social.

Por outro lado, a sublimação foi e será sempre associada à criação artística, o que nos leva pelos caminhos da invenção e do sinthome. Ainda que Lacan não trate nomeadamente da sublimação no Seminário 23, nem talvez em nenhum outro Seminário posterior, me parece que a pulsão vai ficando cada vez mais central até o fim de seu ensino, por ser indissociável das questões do Gozo. Miller (2012), falando sobre o sexto paradigma, que localiza a partir do Seminário 20, diz que “se observamos isso lucidamente, o gozo uno apresenta-se como gozo do corpo, gozo fálico, gozo da fala, gozo sublimatório” (p. 46). E acrescenta: “Lacan indica-nos, verdadeiramente, que é no lugar do gozo uno que a sublimação encontra seu verdadeiro fundamento” (Miller, 2012, p. 46).

Mas aqui, no entanto, vou me deter apenas em um ponto, um ponto de partida, e que diz respeito às relações da sublimação com a criação artística, especialmente a poesia.

Lacan, principalmente a partir do Seminário 7, vai se afastar cada vez mais dessa formulação de cunho socializante e normatizador, e afirma que a sublimação “eleva um objeto à dignidade da Coisa” (Lacan, 1959-1960/1997, p. 141), postulando a noção freudiana de Das Ding como fundamental, o que aponta para o centro da economia libidinal.

Se Das Ding é o que padece do significante, situando o irrepresentável da experiência de satisfação e apontando para o vazio, engendrando o furo, a sublimação parece possibilitar a criação de um objeto surgido desse vazio, na condição de explicitar sua opacidade.

Lacan vai tomar um comentário de Freud em “Totem e tabu” quando ele diz do que as diferentes neuroses poderiam ser caricaturas, para dizer que, diferentemente da ciência – que nega a existência de Das Ding e da religião – que a preserva como mistério mítico que deve ser mantido à distância, a arte pode contornar Das Ding, explicitando seu vazio através da criação de um objeto nesse lugar. “Nem a ciência nem a religião são aptas para salvar a Coisa, nem a nos dá-la” (Lacan, 1959-1960/ 1997, p. 168), ele nos diz no Seminário sobre a Ética. Poderíamos então pensar que a arte, sim, seria?

“A astúcia do homem é de estofar tudo isso com poesia, que é efeito de sentido, mas da mesma forma efeito de furo. Só a poesia permite a interpretação” (Lacan, 1977a, p. 73). Essa fala de Lacan nos remete a outra, bastante anterior, quando diz que a sublimação teria a ver com a criação de um objeto que possa não evitar a Coisa, mas representá-la na medida em que é criado.

A poesia equivoca, ela faz aparecer o invisível no momento mesmo em que faz transmudar-se o reconhecível, em que subtrai o comum no uso das palavras, provocando prazer e até também desprazer, mas certamente causando efeitos. Caetano Veloso, em sua canção “Outras palavras” do álbum de mesmo nome, lançado em 1981, nos brinda com uma estrofe que evidencia esse cúmulo de equivocação com que a poesia pode nos atravessar:

Para fins gatins alphaluz

Sexonhei la guerrapaz

Ouraxé palávoras driz

Okê cris expacial

Projeitinho imanso ciumortevida vidavid

Lambentelho frúturo orgasmaravalha-me logun

Homenina nel paraís de felicidadania (OUTRAS, 1981).

O que pode a psicanálise aí?

“O analista fatia”, diz Lacan (1977b, p. 12, tradução minha).

O que ele diz é corte, ou seja, ele participa da escrita, salvo que ele equivoca sobre a ortografia. Ele escreve diferentemente, de forma que, através da ortografia, de uma forma diferente de escrever, algo soa diferente do que é dito, do que é dito com a intenção de dizer, conscientemente, ainda que a consciência esteja bem longe. É por isso que digo que, no que diz o analisante e no que diz o analista, não há outra coisa que escrita (Lacan, 1977b, p. 12, tradução minha).

Não se pode confundir o artista com o analista ou o analisante, pois assim “se perde o eixo orientador da análise, ao se confundir a edificação de um contorno que faz borda e o objeto bordado no véu da fantasia” (Falbo, 2017, p. 1), mas podemos ver aí experiências de certa forma correlatas, pois as montagens e desmontagens que todos eles podem experimentar têm sempre a marca do fora-de-sentido que faz emergir o indizível.

A orientação lacaniana nos convoca a um esforço de poesia e podemos pensar (por que não?) que se a poesia dos artistas pinça o nervo da língua, a poesia que podemos fazer, numa experiência de análise, pinça o nervo de lalíngua.

Talvez possamos dar à sublimação um estatuto de efeito de poesia, efeito que possibilite bordar uma borda para “O que não tem certeza, nem nunca terá / O que não tem conserto, nem nunca terá / […] / O que não faz sentido” (O que, 1976).

*  Este trabalho foi produto de um cartel sobre a Pulsão, acontecido entre 2022 e 2024.


Referências

FALBO, Gisele. A-bordagens da arte em psicanálise: sublimação, psicobiografia e sinthoma. Opção Lacaniana Online nova série, São Paulo, ano VIII, n. 22, p. 1-13, mar. 2017.

LACAN, Jacques. Le séminaire, livre XXIV: L’Insu que sait d’une-bévue s’aile à mourre. Leçon du 17 mai 1977a.

LACAN, Jacques. Le séminaire, livre XXV: Le moment de conclure. Leçon du 20 décembre 1977b.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. (1959-1960) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Antônio Quinet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

MILLER, Jacques-Alain. Os seis paradigmas do gozo. Opção Lacaniana Online nova série, São Paulo, ano III, n. 7, p. 1-49, mar. 2012.

O QUE será? (À flor da terra). Intérprete: Chico Buarque. Compositor: Chico Buarque. In: Meus caros amigos. Phonogram/Philips, 1976.

OUTRAS palavras. Intérprete: Caetano Veloso. Compositor: Caetano Veloso. In: Outras palavras. Philips, 1981.

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