Leila Mignac Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia “O que meu corpo sabe da…
O que fazer com esse corpo?
Beatriz de Souza Silva
Associada ao Instituto de Psicanálise da Bahia
Cirurgias plásticas, harmonizações faciais, botox, uso de hormônios, práticas intensivas de esportes, tatuagens… multiplicam-se em ritmo exponencial a variedade de intervenções no corpo. Ou, como chamou Miller (2001) em “Elementos da biologia lacaniana”, os “novos usos” frente à problemática do homem com seu corpo vivo (p. 74). Mauricio Tarrab (2018) nomeia o que acontece na atualidade como uma “compulsão de fazer coisas no corpo” (p. 36.)
No entanto, apesar de a ciência e a tecnologia serem grandes propulsoras hoje dessas intervenções, nas mais diversas culturas, assim como as grandes tradições religiosas, sempre se calcaram em rituais que tomavam os corpos como objetos a serem modificados. Mutilação feminina, como acontece predominantemente em alguns países da África e do Oriente Médio; perfuração no corpo em rituais na Índia; a tradição chinesa de enfaixar os pés das mulheres jovens, chamado pés de lótus; até as tradições brasileiras, como os brincos colocados nos bebês ainda na maternidade. Enfim, dos rituais menos aos mais elaborados, mais ou menos bárbaros, os corpos sempre estiveram no lugar de objeto a ser domado e alterado pelo Outro social. A novidade da época, como aponta Tarrab (2018), é que as novas alterações não são mais ordenadas pelo Outro social, não são mais prescritas pela figura de um pai como agente da castração. É a característica da época em que o Outro não existe.
Diferentemente destas tradições que portavam a marca da castração, até mesmo literalmente em alguns casos, as modificações nos corpos no século XXI parecem portar outra marca: a da reivindicação do direito de gozar do corpo sem falhar. Um corpo que responda a imagem de saúde, juventude e potência, como pontua Clotilde Leguil (2015). Um corpo a ser oferecido ao olhar do Outro é um corpo que passa a ser moldado, transformado, de modo a fazer desaparecer qualquer marca da idade, de inquietação, de angústia e também de desejo. Seguindo as palavras de Clotilde Leguil (2015), é “um corpo imaginário que hipnotiza suficientemente o olhar como forma de fazer desaparecer a marca da castração” (s/p).
A ciência no casamento com o capitalismo, ao exacerbar a objetificação do corpo, consegue apagar a dimensão subjetiva e construir uma identificação ao objeto de consumo. Como bem diz Lacan (2011), “toda ordem, todo discurso aparentado com o capitalismo deixa de lado o que chamaremos, simplesmente, de coisas do amor” (p. 88). Foraclui o sujeito do seu campo discursivo.
O saber tecnológico e a ciência produzem objetos que visam tamponar a divisão subjetiva. Há uma união entre sujeito e objeto, e estes passam a serem contabilizados, adquirem valor e são incorporados como objetos de gozo. O objeto fica no lugar em que vem complementar o corpo, numa ditadura de mais-de-gozar. Leguil (2015) chega a dizer que nessa nova relação em que o corpo permanece o tempo todo conectado, em que há uma constante demanda ao olhar, ouvir, sentir, pode-se falar em uma nova relação com a existência. Na era em que o Outro não existe e, portanto, em muitos casos o analista não ocupa mais o lugar de suposição de saber – já que o saber está no bolso, como nos diz Miller (2016) –, cabe interrogar por onde o analista pode caminhar.
Lacan (1975-1976/2007), no Seminário 23, diz que “o falasser adora o seu corpo, porque crê que o tem” (p. 64). O corpo aparece como aquilo que o homem pode ter e isso só se demonstra pela experiência que vive de o perder. Ele acrescenta ainda que essa é a debilidade inerente ao ser falante, uma vez que acredita na consistência imaginária do mental, crê na existência do seu corpo, enquanto este “sai fora a todo instante” (p. 64). Lacan (1975-1976/2007) diz ainda que “a adoração é a única relação que o falasser tem com seu corpo” e “isso é sempre suspeito, pois comporta o mesmo desprezo” (p. 64).
As harmonizações, tatuagens, botox ou silicone, não são as primeiras modificações que tocam o corpo e nem tampouco as mais importantes, nas quais o analista precisa se deter. A primeira grande alteração que o corpo vive, que o vivifica por sinal, é o que vai portar a marca da inconformidade, mas o discurso do mestre moderno faz crer que existe uma modificação que possa tamponar o mal-estar. As novas modalidades de padecimento buscam uma maneira de fazer calar o sintoma, de intoxicá-lo.
Freud introduz uma radical diferença entre a Psicanálise e o saber médico ao tomar como objeto de investigação o que é segregado, o que resta e aponta para a falha, para a ausência de homeostase. É exatamente nisso que não interessa a nenhum outro discurso que o analista pode operar. Ao tomar o que é deixado de fora como causa de trabalho, é possível produzir um saber, um giro que saia do silêncio da intoxicação à invenção.
Miller (2022), em “Comentário sobre ‘A terceira’”, vai dizer que já éramos “animais doentes do próprio gozo” (p. 74) antes da era eletrônica e não deixamos de ser. É o significante que afeta o corpo, deixa as marcas de gozo que torna esse corpo vivo e desarmônico. É nas rachaduras da imagem que uma demanda genuína pode ser apresentada. Na contramão do discurso moderno, a psicanálise não se interessa com o que preenche as marcas do corpo, mas sim com os significantes que o vivificam e o fazem gozar.
Referências
LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: O sinthoma. (1975-1976) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Sérgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
LACAN, Jacques. Estou falando com as paredes. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
LEGUIL, Clotilde. Las pasiones del cuerpo em el siglo XXI. Revista Freudiana, Barcelona, 73, enero/abr. 2015. Disponível em: https://freudiana.com/las-pasiones-del-cuerpo-en-el-siglo-xxi/.
MILLER, Jacques-Alain. Elementos de biologia lacaniana. Belo Horizonte: EBP-MG, 2001.
MILLER, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 72, p. 13-19, mar. 2016.
MILLER, Jacques-Alain. Comentário sobre “A terceira”. In: LACAN, Jacques. A terceira, Teoria da lalíngua. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2022. p. 63-74.
TARRAB, Mauricio. La mirada de las imágenes y otros textos psicoanalíticos. Olivos: Grama ediciones, 2018.
