{"id":1654,"date":"2019-10-21T18:13:26","date_gmt":"2019-10-21T21:13:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1654"},"modified":"2019-11-02T20:23:54","modified_gmt":"2019-11-02T23:23:54","slug":"um-sonho-prolongado-realizacao-do-despertar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2019\/10\/21\/um-sonho-prolongado-realizacao-do-despertar\/","title":{"rendered":"Um sonho prolongado, realiza\u00e7\u00e3o do despertar"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1688\" aria-describedby=\"caption-attachment-1688\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1688\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_007.png\" alt=\"Christian Schloe , \u201cPortrait Of A Heart\u201d, Digital, 2013\" width=\"400\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_007.png 602w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_007-282x300.png 282w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1688\" class=\"wp-caption-text\">Christian Schloe, \u201cPortrait Of A Heart\u201d, Digital<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Rog\u00e9rio Barros<\/h6>\n<hr \/>\n<blockquote><p>FREUD, Sigmund. Sobre la psicolog\u00eda de los procesos on\u00edricos. En: <strong>La interpretaci\u00f3n de los sue\u00f1os<\/strong>. Volumen V. Buenos Aires: Amorrortu, 1991. p. 504-505.<\/p>\n<p>Las condiciones previas de este sue\u00f1o paradigm\u00e1tico son las siguientes: Un padre asisti\u00f3 noche y d\u00eda a su hijo mortalmente enfermo. Fallecido el ni\u00f1o, se retir\u00f3 a una habitaci\u00f3n vecina con el prop\u00f3sito de descansar, pero dej\u00f3 la puerta abierta a fin de poder ver desde su dormitorio la habitaci\u00f3n donde yac\u00eda el cuerpo de su hijo, rodeado de velones. Un anciano a quien se le encarg\u00f3 montar vigilancia se sent\u00f3 pr\u00f3ximo al cad\u00e1ver, murmurando oraciones. Luego de dormir algunas horas, el padre sue\u00f1a que su hijo est\u00e1 de pie junto a su cama, te toma el brazo y le susurra este reproche: \u00abPadre, \u00bfentonces no ves que me abraso?\u00bb. Despierta, observa un fuerte resplandor que viene de la habitaci\u00f3n vecina, se precipita hasta all\u00ed y encuentra al anciano guardi\u00e1n adormecido, y la mortaja y un brazo del cad\u00e1ver querido quemados por una vela que le hab\u00eda ca\u00eddo encima encendida. [&#8230;] Ahora bien, despu\u00e9s que hemos reconocido al sue\u00f1o como un producto provisto de sentido que puede insertarse en la trama del acontecer ps\u00edquico, nos maravillar\u00e1 naturalmente que en tales circunstancias sobreviniese un sue\u00f1o, cuando lo indicado era el m\u00e1s brusco despertar. Pero debemos reparar en que este sue\u00f1o tampoco escapa a un cumplimiento de deseo. En \u00e9l, el ni\u00f1o se comporta como si estuviera vivo, \u00e9l mismo da aviso al padre, se llega hasta su cama y le toma de un brazo, como probablemente lo hizo en aquel recuerdo del cual el sue\u00f1o recogi\u00f3 el primer fragmento del dicho del ni\u00f1o. Y en virtud de ese cumplimiento de deseo, precisamente, prolong\u00f3 el padre por un momento su dormir. El sue\u00f1o prevaleci\u00f3 sobre la reflexi\u00f3n de vigilia porque pudo mostrar al ni\u00f1o otra vez con vida. Si el padre se hubiera despertado enseguida, extrayendo la conclusi\u00f3n que lo llev\u00f3 a la c\u00e1mara mortuoria, habr\u00eda abreviado la vida del ni\u00f1o, dig\u00e1moslo as\u00ed, por ese breve lapso [\u2026].<\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<p>No cap\u00edtulo VII de <em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em>, intitulado <em>Psicologia dos processos on\u00edricos<\/em>, Freud (1900-1901\/1996a) traz um importante sonho. Nele, um pai desperta da sua produ\u00e7\u00e3o on\u00edrica ao ouvir o filho, rec\u00e9m falecido, cujo corpo era velado no quarto ao lado, em tom de censura, proferir a seguinte frase: \u201cPai, n\u00e3o v\u00eas que estou queimando?\u201d. Esse sonho traz para Freud uma quest\u00e3o: porque o sonho se produz em tal circunst\u00e2ncia, quando o que deveria ocorrer seria o mais r\u00e1pido despertar? De pronto, advoga que o pai deveria ter adormecido com a preocupa\u00e7\u00e3o de que esse fato pudesse ocorrer, mas o que lhe inquieta \u00e9 produ\u00e7\u00e3o on\u00edrica que se mantem, ao inv\u00e9s de causar o despertar.<\/p>\n<p>Freud (Ibid.) repete a hip\u00f3tese central da obra: o sonho realiza um desejo. Nesse caso, prevalece no sonho o desejo do pai ver o filho vivo. Indica que, caso o sonhador tivesse acordado quando da percep\u00e7\u00e3o do clar\u00e3o que se apresentava a porta do seu quarto, n\u00e3o reencontraria o filho em seu sonho, \u201cabreviando a vida [&#8230;] por esse breve lapso de tempo\u201d (Ibid., p. 542).<\/p>\n<p><strong>Sonho, imposs\u00edvel ultrapassem, despertar<\/strong><\/p>\n<p>Proponho pensar que o prolongamento do sonho toma da indestrutibilidade do desejo, qualificado assim por Lacan (1959-60\/1991) no semin\u00e1rio sobre a \u00e9tica, a for\u00e7a para dar continuidade a produ\u00e7\u00e3o on\u00edrica. Isso nos permite interrogar sobre a introdu\u00e7\u00e3o do aspecto pulsional no sonho, a\u00ed mesmo onde a continuidade cumpre um proposito de satisfa\u00e7\u00e3o cujo objeto n\u00e3o se v\u00ea, mantendo o sonhador adormecido apesar do clar\u00e3o, sendo reintroduzido na frase que desperta: \u201cPai, n\u00e3o v\u00eas?\u201d.<\/p>\n<p>Freud (Ibid.) d\u00e1 revelo a frase proferida no despertar, a despeito do clar\u00e3o. Prop\u00f5e que se trata, a\u00ed, de uma condensa\u00e7\u00e3o de elementos que tocam \u201co esp\u00edrito do pai\u201d (p. 542). Freud (Ibid.) a reparte a frase. \u201cEstou queimando\u201d pode ter sido proferida pelo filho em virtude de febres da doen\u00e7a. Sobre o \u201cN\u00e3o v\u00eas?\u201d, apenas aponta estar carregada de afeto, cuja articula\u00e7\u00e3o primordial nos \u00e9 desconhecida.<\/p>\n<p>Em <em>Os afetos nos sonhos<\/em>, Freud (1900-1901\/1996b) elucida que estes permitem que os sonhos sejam inclu\u00eddos com maior energia entre nossas experi\u00eancias an\u00edmicas. Isso se deve ao fato de que os afetos n\u00e3o sofrem deforma\u00e7\u00f5es, diferente das representa\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o deslocadas e substitu\u00eddas. Os afetos nos d\u00e3o pista do que burla o recalque, n\u00e3o sendo por ele influenciado. Uma mira ao real do sonho, umbigo cuja pot\u00eancia simb\u00f3lica n\u00e3o faz mais que bordejar.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o v\u00eas?\u201d indica uma satisfa\u00e7\u00e3o com um objeto sem imagem, al\u00e7ado pelo simb\u00f3lico por uma frase na negativa. Objeto <em>a<\/em> que se apresenta pr\u00f3ximo, t\u00e3o pr\u00f3ximo que dispara a ang\u00fastia (LACAN, 1962-3\/2005). Objeto <em>a<\/em> que, fora do circuito esc\u00f3pico, aponta para a opacidade de uma satisfa\u00e7\u00e3o irrepresent\u00e1vel, cujo \u201camago do mesmo problema\u201d deve ser explicado sobre \u201coutro \u00e2ngulo de abordagem\u201d (FREUD, 1900-1901\/1996a, p. 543).<\/p>\n<p>Como aponta Lacan (1969-70\/1992), aprendemos com a <em>Traumdeutung<\/em> freudiana que acordamos para nos manter em uma realidade em que seguimos sonhando. Entretanto, despertar para o irrepresent\u00e1vel da morte nos permite antever esfor\u00e7o de ultrapassagem, prolongando um mais al\u00e9m que aponta pra realiza\u00e7\u00e3o do despertar. Em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 tese do sonho ser a realiza\u00e7\u00e3o de um desejo, podemos supor, com Lacan, que o sonho \u00e9, em verdade, a realiza\u00e7\u00e3o do despertar (Naparstek, 2019).<\/p>\n<p><strong>\u201cUm sonho dentro de um sonho\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, sob transfer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Se de um lado, pensamos o despertar como a (real)iza\u00e7\u00e3o do sonho, um ultrapasse imposs\u00edvel que a maquinaria inconsciente se esfor\u00e7a em alcan\u00e7ar, outra vertente interpretativa se faz tamb\u00e9m poss\u00edvel. Nesse sentido, um detalhe do escrito de Freud (1900-1901\/1996a) nos chama aten\u00e7\u00e3o: este sonho se trata, em verdade, de um \u201cressonho\u201d. A paciente de Freud, dona do sonho, replica-o, sob transfer\u00eancia. Trata-se de um sonho outrora proferido em uma confer\u00eancia sobre os sonhos que a paciente assistiu e cuja origem real \u00e9 desconhecida. Produzido sob transfer\u00eancia, o sonho se endere\u00e7a ao analista, a fim de confirmar a tese da realiza\u00e7\u00e3o do desejo com um \u201csentido \u00f3bvio\u201d (FREUD, 1900-1901\/1996a, p. 542).<\/p>\n<p>Se, da frase do filho, antevimos o real do gozo que n\u00e3o se enreda ao significante ou se permite velar, satisfa\u00e7\u00e3o que, destrilhada circuito pulsional do olhar, causa ang\u00fastia que desperta, o \u201cressonho\u201d nos permite ver como o desejo da hist\u00e9rica enreda-se ao desejo outro para se satisfazer, tal qual Lacan (1958\/1998) prop\u00f5e na <em>Dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios do seu poder.<\/em> O sonho se trama no seio do Outro, tece-se dele, articulando-se em estrutura de linguagem. Inconsciente transferencial que, pela via on\u00edrica, enla\u00e7a-se ao Outro em busca de um sentido.<\/p>\n<p>O prolongamento do sonho d\u00e1 pistas de outra satisfa\u00e7\u00e3o que culmina em um ponto imposs\u00edvel. Se essa fenda n\u00e3o se transp\u00f5e, cabe interrogar: \u00e9 a vida um sonho (ZLOTNIK, 2019) excepcionalmente prolongado em que nos esfor\u00e7amos em alcan\u00e7ar um gozo imposs\u00edvel?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1900-1901a). A psicologia dos processos on\u00edricos. Em: FREUD, S. <strong>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1900-1901b). Os afetos nos sonhos. Em: FREUD, S. <strong>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958). A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder. In: LACAN, J. <strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1959-1960). <strong>O Semin\u00e1rio, livro 7<\/strong>: a \u00e9tica da psican\u00e1lise. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962-1963). <strong>O Semin\u00e1rio livro 10<\/strong>: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970). <strong>O semin\u00e1rio, livro 17<\/strong>: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>Naparstek, F. <strong>El despertar de lo real, bajo su aspecto de imposible<\/strong> \u2013 entrevista con Silvia Baudini, Fabi\u00e1n Naparstek. [Entrevista concedida a] Karina Piluso. Freudiana, Buenos Aires, 85\/2019, p. 109-124, 2019. Dispon\u00edvel em: http:\/\/uqbarwapol.com\/el-despertar-de-lo-real-bajo-su-aspecto-de-imposible-entrevista-con-silvia-baudini-fabian-naparstek\/.<\/h6>\n<h6>ZLOTNIK, M. <strong>A vida \u00e9 sonho?<\/strong> Textos de orienta\u00e7\u00e3o do XII Congresso da AMP, 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/articulos.php?sec=el-tema&amp;sub=textos-de-orientacion&amp;file=el-tema\/textos-de-orientacion\/la-vida-es-sueno.html<\/h6>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Esse t\u00edtulo faz refer\u00eancia a m\u00fasica da banda Na\u00e7\u00e3o Zumbi, intitulada \u201cUm sonho\u201d. Destacamos um trecho, que tangencia a abordagem aqui proposta: \u201cUm sonho dentro de um sonho\/ Eu ainda nem sei se acordei\/ Desse sonho, quero imagem e som\/ Pra saber o que foi que aconteceu\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio Barros FREUD, Sigmund. Sobre la psicolog\u00eda de los procesos on\u00edricos. En: La interpretaci\u00f3n de los sue\u00f1os. Volumen V. Buenos Aires: Amorrortu, 1991. p. 504-505. Las condiciones previas de este sue\u00f1o paradigm\u00e1tico son las siguientes: Un padre asisti\u00f3 noche y d\u00eda a su hijo mortalmente enfermo. 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