{"id":1658,"date":"2019-10-21T18:16:52","date_gmt":"2019-10-21T21:16:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1658"},"modified":"2019-11-02T20:28:31","modified_gmt":"2019-11-02T23:28:31","slug":"suicidio-e-kakon-como-odio-de-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2019\/10\/21\/suicidio-e-kakon-como-odio-de-si\/","title":{"rendered":"Suic\u00eddio e kakon como \u00f3dio de si"},"content":{"rendered":"<h6>Tha\u00efs Moraes Correia<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[*]<\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<h5 style=\"text-align: right;\">S\u00f3 o monstro \u00e9 original na morte.<br \/>\nHeitor arrastado por Aquiles diante dos muros de Troia<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 a morte.<br \/>\nA morte de Of\u00e9lia n\u00e3o \u00e9 a morte.<br \/>\nO suic\u00eddio ritual de Mishima n\u00e3o \u00e9 a morte.<br \/>\nTorquato Neto.<br \/>\nFrancesca Woodman.<br \/>\nO tiro de Hemingway na pr\u00f3pria boca<br \/>\ntalvez seja a morte.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: right;\">S\u00f3 o monstro \u00e9 original na morte.<br \/>\nTodo tumor \u00e9 parecido.<br \/>\nTodo cora\u00e7\u00e3o enfarta igual.<br \/>\nO atropelamento \u00e9 do asfalto.<br \/>\nA bala perdida \u00e9 do metal.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: right;\">(Victor Heringer, 2018)<\/h5>\n<\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_1686\" aria-describedby=\"caption-attachment-1686\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1686\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_005.png\" alt=\"Frida Kahlo \u201cThe medical art\u201d \" width=\"400\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_005.png 806w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_005-300x235.png 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_005-768x601.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1686\" class=\"wp-caption-text\">Frida Kahlo \u201cThe medical art\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Este artigo circunscreve o tema do suic\u00eddio, trama delicada e encoberta por v\u00e9us que se tornou recorrente entre adolescentes na contemporaneidade. Hoje, com a queda do falocentrismo e seu feroz retorno totalit\u00e1rio presente nas m\u00eddias eletr\u00f4nicas e nas empresas que comp\u00f5em a GAFAM, entendemos que uma quest\u00e3o pode estar relacionada \u00e0 outra.<\/p>\n<p>Vivemos em um momento em que os tratamentos ps\u00edquicos desembocam numa cl\u00ednica geral da depress\u00e3o. N\u00e3o podemos deixar de nos apoiar na defini\u00e7\u00e3o que Lacan d\u00e1 sobre a tristeza como rejei\u00e7\u00e3o do inconsciente, ou como \u201cdoen\u00e7a\u201d do ideal. Fala-se at\u00e9 de uma euforia da depress\u00e3o para aludir ao fato de a depress\u00e3o estar em todos os lugares: nos consult\u00f3rios, nos congressos internacionais, nas revistas semanais, nas publica\u00e7\u00f5es especializadas \u2013 enfim, todos falam dela. Cito Nic\u00e9as de anota\u00e7\u00f5es minhas \u201ca depress\u00e3o vem sendo anunciada como a express\u00e3o mais presente do mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 importante vermos a diferen\u00e7a cl\u00ednica entre os estados psic\u00f3ticos desencadeados sob forma de melancolia e os estados chamados de melancoliza\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica, posto que a passagem ao ato adv\u00e9m do que n\u00e3o foi simbolizado. Em qualquer uma das estruturas.<\/p>\n<p>Consideramos que<\/p>\n<blockquote><p>Na psicose h\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de um objeto mal: kakon para os gregos e, consequentemente, um empuxe a golpear (a si mesmo ou ao outro). Quando o psic\u00f3tico golpeia o outro, golpeia o kakon que est\u00e1 no mais \u00edntimo dele. Para ilustrar esse \u201cgolpe\u201d, tomemos da mitologia grega a rela\u00e7\u00e3o de Medeia e Jas\u00e3o. Esta, para ferir o marido que a tra\u00edra, trama a morte de seus pr\u00f3prios filhos. Medeia \u00e9 severamente repudiada pelos gregos. Ela tenta negociar sua partida para Atenas e trama a morte dos filhos, e tudo acontece segundo seus caprichos. Jas\u00e3o e Medeia se embatem na fatalidade e ela possui um \u00fanico trunfo: pode fugir ou dizer que \u00e9 neta do Sol &#8211; ref\u00fagio no del\u00edrio (CORREIA, 2010).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 esse kakon, \u00f3dio de si, que est\u00e1 presente no cora\u00e7\u00e3o do suicida quando este golpeia a si mesmo, saindo fora da vida, desistindo de suportar a inconsist\u00eancia do corpo falante.<\/p>\n<p>Nada mais tabu do que se falar sobre a morte, ainda mais o suic\u00eddio em que o sujeito falante n\u00e3o reconhece mais nenhum apelo, e a dor de existir se esvai no sil\u00eancio, de quem n\u00e3o reconhece mais o apaziguador Outro e desiste em ato no seu corpo. Localizamos o suic\u00eddio no registro da a\u00e7\u00e3o, como passagem ao ato.\u00a0 Isso dir\u00e1 da posi\u00e7\u00e3o do sujeito frente \u00e0 falta. No caso do suic\u00eddio, h\u00e1 uma volta brutal \u00e0quela primeira falta que constitui o fato de termos nascidos mortais, isto \u00e9, h\u00e1 a vida, mas com a vida h\u00e1 a morte. O suic\u00eddio estaria ao lado da morte do desejo. Lacan (2005) nos lembra que \u201cquando se contradiz o ideal, quando ele desmorona, \u00e9 o que se constata: o poder do desejo desaparece em Hamlet\u201d.<\/p>\n<p>No mundo contempor\u00e2neo repleto de fake news, n\u00e3o estar\u00edamos na ordem de um gozo opaco, ao largo do desejo? Segundo M. Bassols, a b\u00fassola lacaniana do real coloca a singularidade no sujeito do gozo e na opacidade do ser.<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas \u00e0s quais o mundo virtual torna poss\u00edvel viver sua exist\u00eancia, mantendo-se protegidas de um encontro real. Dentro do virtual, h\u00e1 o encontro com o real. Vive-se a sexualidade na internet como tempo de namorar, via puls\u00e3o esc\u00f3pica. \u00c9 l\u00e1, tamb\u00e9m, que existem os grupos das \u201cMargaridas\u201d, onde jovens que pensam em se matar se encontram, ou onde o suic\u00eddio ocorre de forma brutal na <em>deep web<\/em> sob a vis\u00e3o dos <em>hackers <\/em>e em tempo real.<\/p>\n<p>Seria a passagem ao ato uma ode ao sil\u00eancio? Quando Lacan comenta o quadro de Munch, \u201cO grito\u201d, para real\u00e7ar o sil\u00eancio ligado ao objeto pulsional, pensa que o sil\u00eancio \u00e9 aquilo que se sucede ao grito, este ent\u00e3o brota exatamente em \u201cescapar do grito\u201d. Isso equivale a dizer que o sil\u00eancio vem sempre depois, segundo nos ensina Esperanza (2008, p. 320).<\/p>\n<p>Existem suic\u00eddios que n\u00e3o s\u00e3o absolutamente decididos e outros s\u00e3o; nesse caso existe apenas uma coisa para o sujeito: \u00e9 sair do corpo, ir-se embora, deixar o corpo. No caso do suicida, h\u00e1 uma superposi\u00e7\u00e3o de duas faltas: a falta do sujeito e a falta do Outro. Al\u00e9m da falta origin\u00e1ria, h\u00e1 a falta do Outro enquanto desejante, constituindo-se como nova falta que \u00e9 a falta de desejo atual do sujeito.<\/p>\n<p>Em Lacan (2005, p. 129), no Semin\u00e1rio 10, encontramos:<\/p>\n<blockquote><p>Esse <em>largar de m\u00e3o<\/em> \u00e9 o correlato essencial da passagem ao ato. Resta ainda precisar de que lado ele \u00e9 visto. Ele \u00e9 visto justamente do lado do sujeito (&#8230;) O momento da passagem ao ato \u00e9 do embara\u00e7o maior do sujeito, com o acr\u00e9scimo comportamental da emo\u00e7\u00e3o como dist\u00farbio do movimento. \u00c9 ent\u00e3o que, do lugar em que se encontra &#8211; ou seja, do lugar da cena em que, como sujeito fundamentalmente historizado, s\u00f3 ele pode manter-se em seu status de sujeito -, ele se precipita e despenca fora da cena\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Concluiremos dizendo que o sintoma \u00e9 da ordem de um dizer, a fantasia da ordem do fazer e a passagem ao ato, o suic\u00eddio, uma a\u00e7\u00e3o. Acerca da identifica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 falada por Freud, \u00e9 tamb\u00e9m o objeto a, a qual o suicida tenta \u201cpegar pelo rabo\u201d, pois \u201cn\u00e3o \u00e9 do mundo externo que sentimos falta, como h\u00e1 quem o expresse impropriamente, mas de n\u00f3s mesmos\u201d, como nos recorda Lacan no Semin\u00e1rio X. A ang\u00fastia \u00e9, segundo Lacan, algo que n\u00e3o engana. O suic\u00eddio \u00e9 visto como um ato que retira essa certeza da ang\u00fastia e passa a ser o ato que n\u00e3o engana. A an\u00e1lise poderia ser definida como o lugar onde \u201caqui n\u00e3o se age\u201d &#8211; pois o agir est\u00e1 em suspenso, o que n\u00e3o impede, \u00e0s vezes, de ver o paciente agir, at\u00e9 mesmo fazer uma passagem ao ato.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CORREIA, Tha\u00efs M<strong>. <\/strong><strong>Casos raros: as psicoses ordin\u00e1rias na cl\u00ednica do del\u00edrio generalizado<\/strong><strong>. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>. Ano I, n\u00ba 3, dezembro. 2010 em: <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero3\/index.html\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero3\/index.html<\/a>. Acesso em: 20 jun. 2019.<\/h6>\n<h6>ESPERANZA, G<strong>.<\/strong> A for\u00e7a do sil\u00eancio<strong>. <\/strong>In: <strong>Scilicet<\/strong>. Os objetos \u201ca\u201d na experi\u00eancia psicanal\u00edtica. AMP. RJ: Contra Capa, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <strong>O Semin\u00e1rio, 10<\/strong>: RJ: J. Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[*]<\/a> Prof\u00aa. adjunta IV &#8211; UFMA.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tha\u00efs Moraes Correia[*] &nbsp; S\u00f3 o monstro \u00e9 original na morte. Heitor arrastado por Aquiles diante dos muros de Troia n\u00e3o \u00e9 a morte. A morte de Of\u00e9lia n\u00e3o \u00e9 a morte. O suic\u00eddio ritual de Mishima n\u00e3o \u00e9 a morte. Torquato Neto. Francesca Woodman. 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