{"id":1660,"date":"2019-10-21T18:18:26","date_gmt":"2019-10-21T21:18:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1660"},"modified":"2019-11-02T20:26:57","modified_gmt":"2019-11-02T23:26:57","slug":"percursos-oniricos-o-real-entre-sonho-e-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2019\/10\/21\/percursos-oniricos-o-real-entre-sonho-e-analise\/","title":{"rendered":"Percursos on\u00edricos: o Real entre sonho e an\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1685\" aria-describedby=\"caption-attachment-1685\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1685\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_004.png\" alt=\"Christian Schloe, \u201cThe Fellowship\u201d\" width=\"400\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_004.png 764w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_004-300x240.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1685\" class=\"wp-caption-text\">Christian Schloe, \u201cThe Fellowship\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Glaycianny Pires Alves Lira<br \/>\nRhuan Pablo Barbosa da Silva<\/h6>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c[&#8230;] O inconsciente \u00e9 muito exatamente a hip\u00f3tese de que a gente n\u00e3o sonha apenas quando dorme\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Jacques Lacan, 1977)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Lacan (1964) questiona, no Semin\u00e1rio 11, \u201cComo o sonho, portador do desejo do sujeito, pode produzir o que faz ressurgir \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o o trauma?\u201d (p. 55) \u2013 quando prop\u00f5e esse certame, o que Lacan faz \u00e9 questionar o funcionamento do sonho, colocando-o como algo que possui certa l\u00f3gica nas produ\u00e7\u00f5es do sujeito, atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o e da poss\u00edvel elabora\u00e7\u00e3o sobre as forma\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas. Seria poss\u00edvel, ent\u00e3o, pensar a estrutura do sonho an\u00e1loga ao caminhar de uma an\u00e1lise, como aponta Freud (apud QUINET; ALBERTI, 2012), ou seja, seria admiss\u00edvel cogitar a sucess\u00e3o de sonhos, em uma an\u00e1lise, como algo da ordem de um percurso?<\/p>\n<p>Se pensarmos que sim, e que as forma\u00e7\u00f5es on\u00edricas acompanham o percurso de uma an\u00e1lise \u2013 n\u00e3o em uma linha sucessiva, ou linear, <em>para frente<\/em>, mas enquanto <em>laufen<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup><strong>[1]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>,ou <em>per<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>; por meio de um curso, uma via por onde se pode andar e \u201crecordar, repetir e elaborar\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> \u2013 como seria realiz\u00e1vel; se \u00e9 poss\u00edvel o deslizamento significante, ou trocadilho; considerar esse percurso on\u00edrico?<\/p>\n<p>&#8220;De fato, as fantasias e os devaneios da vig\u00edlia expressam os mesmos desejos, conscientes ou n\u00e3o, que podem vir a surgir nos sonhos durante o sono&#8221; (COUTINHO, 2009, p. 56). H\u00e1, portanto, uma ideia de n\u00e3o distin\u00e7\u00e3o entre <em>acordado<\/em> e <em>dormindo<\/em>, podendo as produ\u00e7\u00f5es on\u00edricas acompanharem as elabora\u00e7\u00f5es anal\u00edticas do sujeito e o sonho seria, nesse sentido, mais um mediador entre o Eu e o inconsciente, como j\u00e1 propunha Freud (1900) ao coloc\u00e1-lo como uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente (como os chistes e os atos falhos) e, portanto, uma via de acesso a ele.<\/p>\n<p>O sonho ocuparia uma posi\u00e7\u00e3o r\u00e9gia nessa <em>encruzilhada<\/em> de conte\u00fados inconscientes e, segundo Lacan (1957) propiciaria um <em>despertar <\/em>do desejo, atrav\u00e9s desse acesso, sendo, em um fim \u00faltimo, um encontro com o Real \u2013 \u00e9 a partir dessa conjectura do encontro, ou de um (des)encontro que propicie o retorno ao mesmo, esse mesmo que se repete, mas nunca \u00e9 igual, que pensaremos o sonho como esse medianeiro entre sujeito e objeto. Ou, como aponta Costa (2006) \u201c(&#8230;) a elabora\u00e7\u00e3o on\u00edrica resulta de uma media\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para suportar o real (&#8230;) Sonhar \u00e9 a possibilidade de inserir um diferencial entre um lugar de sujeito e a posi\u00e7\u00e3o de objeto no mundo e nas rela\u00e7\u00f5es&#8221; (p. 37).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o poder\u00edamos pensar no sonho como um atravessador? Atrav\u00e9s da dor, do traum\u00e1tico que retorna na elabora\u00e7\u00e3o do sonhador seria poss\u00edvel atravessar algo da ordem de uma constru\u00e7\u00e3o \u2013 como uma ponte que <em>atravessa-a-dor<\/em> do sujeito. Como uma travessia. <em>Attraversiamo<\/em>, do italiano, \u00e9 um convite, uma quest\u00e3o: vamos atravessar? Essa travessia que remete tanto a uma ponte quanto a um processo, faz men\u00e7\u00e3o \u00e0 fantasia \u2013 em uma an\u00e1lise, a travessia da fantasia seria esse <em>meio<\/em>; ou poder\u00edamos falar losango; onde se passa de sujeito ($) a objeto (a). Seria o sonho uma possibilidade de percurso, dentro de uma an\u00e1lise, dessa travessia? Ou considerar\u00edamos o sonho como um atravessamento no processo, parte dele?<\/p>\n<p>Se ponderarmos o sonho como um r\u00e9bus (algo da ordem de um equ\u00edvoco \u2013 uma palavra tomada em um outro sentido, que n\u00e3o lhe \u00e9 contumaz) como prop\u00f5e Freud (1900), e, ainda, tomarmos o ensinamento de Lacan (2005) sobre o funcionamento do sonho enquanto linguagem e, portanto, que precisa de um leitor para que um texto se produza <em>des-cifradamente<\/em>, podemos pensar o sonho como endere\u00e7ado.<\/p>\n<p>Esse endere\u00e7amento \u00e9 an\u00e1logo ao processo anal\u00edtico, sob transfer\u00eancia. Ent\u00e3o seria o sonho uma estrada marcada \u00e0 espera tanto de um caminhante-analisando, quanto de um guia tur\u00edstico-analista? Guia tur\u00edstico por\u00e9m, pressup\u00f5e legalidade para atua\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que em uma an\u00e1lise esse sujeito que carrega uma marca, caminha por vias clandestinas, e a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos \u00e9 uma delas, poder\u00edamos inferir, ent\u00e3o, uma posi\u00e7\u00e3o por parte do analista de <em>coyote<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em>? Um coyote-analista?<\/p>\n<p>Em carta \u00e0 Fliess, Freud (1899\/1986) afirma que \u201cInvariavelmente, o sonho visa a realizar um desejo que assume diversas formas. \u00c9 o desejo de dormir! Sonhamos para n\u00e3o ter que acordar, porque queremos dormir\u201d (p. 355). Lacan (1992) retoma essa interpreta\u00e7\u00e3o de Freud sobre a tend\u00eancia ao dormir para n\u00e3o acordar com o que chama de despertar \u2013 esse <em>abrir os olhos <\/em>ao Real e continuar sonhando, na realidade, a partir deste (des)encontro.<\/p>\n<p>O analista-coyote seria pe\u00e7a fundamental, ent\u00e3o, neste processo; no despertar, tanto do sonho quanto do Real da cl\u00ednica, do corpo, do sujeito, do imposs\u00edvel. A figura do atravessador ancorada no coyote \u2013 um analista-coyote \u2013 remete a um pagamento pelo ato, \u00e9 o que Lacan (1998) afirma sobre o analista pagar com o corpo, com sua pessoa (suporte para a transfer\u00eancia). O analista paga com o corpo e o sonhador paga com o desejo, o desejo de suportar uma interpreta\u00e7\u00e3o, uma elabora\u00e7\u00e3o, um per-curso, um curso para desvelar e suportar esse encontro com o Real que acontece tanto no sonho quanto em uma an\u00e1lise. H\u00e1 percurso no sonho, portanto, h\u00e1 uma vazante por onde, a despeito (ou com ajuda das porosidades) da <em>censura<\/em> o conte\u00fado inconsciente manifesta-se, de diversas formas, e faz marca \u2013 como a jusante de um rio ou a <em>jouissance<\/em> anal\u00edtica, o percurso de um gozo \u2013 on\u00edrico, anal\u00edtico ou ambos.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>COSTA, A. <strong>Sonhos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.<\/h6>\n<h6>COUTINHO, A. <strong>Sonhos, ang\u00fastia e aliena\u00e7\u00e3o.<\/strong> Reverso, Belo Horizonte, v. 31, n. 58, p. 53-62, set. 2009. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0102-73952009000200006&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt; Acesso em 24 ago.\u00a0 2019.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. <strong>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/strong>. (Edi\u00e7\u00e3o Comemorativa 100 anos) Rio de Janeiro: Imago, 2001. (Originalmente publicado em 1900)<\/h6>\n<h6>FREUD, S.; FLIESS, W. <strong>A correspond\u00eancia completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess<\/strong>.\u00a0 MASSON, J. M. (org.), Rio de Janeiro: Imago, 1986. (Originalmente publicado em 1899).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <strong>A inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud<\/strong>. In: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. (Originalmente publicado em 1957).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <strong>O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, 1998. (Originalmente publicado em 1964).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <strong>Une pratique de bavardage<\/strong>. In: Ornicar?, 19, Paris: Lyse, 1977.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <strong>O semin\u00e1rio, livro 17: O avesso da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>QUINET, A.; ALBERTI, S. <strong>Argumento do VII Encontro Interacional da IF-EPFCL<\/strong>. Rio de Janeiro, 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.champlacanien.net\/public\/docu\/4\/rdv2012Argument.pdf&gt; Acesso em 24 jul. 2019.<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>Do alem\u00e3o, caminho, como prop\u00f5e Freud sobre o decurso de uma an\u00e1lise.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Prefixo referente atrav\u00e9s de; por entre.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>Men\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo do texto de Freud, originalmente publicado em 1914.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u00c9 a denomina\u00e7\u00e3o dada ao &#8220;agente&#8221; que cobra para atravessar emigrantes de forma ilegal.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Glaycianny Pires Alves Lira Rhuan Pablo Barbosa da Silva \u00a0 \u201c[&#8230;] O inconsciente \u00e9 muito exatamente a hip\u00f3tese de que a gente n\u00e3o sonha apenas quando dorme\u201d. 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