{"id":1664,"date":"2019-10-21T18:21:42","date_gmt":"2019-10-21T21:21:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1664"},"modified":"2019-11-02T20:21:27","modified_gmt":"2019-11-02T23:21:27","slug":"o-sonho-do-saber-medico-ou-o-saber-medico-nao-e-um-equivoco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2019\/10\/21\/o-sonho-do-saber-medico-ou-o-saber-medico-nao-e-um-equivoco\/","title":{"rendered":"O sonho do saber m\u00e9dico (ou o saber m\u00e9dico n\u00e3o \u00e9 um-equ\u00edvoco)"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1683\" aria-describedby=\"caption-attachment-1683\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1683\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_002-300x241.png\" alt=\"Christian Schloe \u201cThe Tea Party painting\u201d\" width=\"400\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_002-300x241.png 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_002-768x616.png 768w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/lapsus_017_002.png 883w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1683\" class=\"wp-caption-text\">Christian Schloe, \u201cThe Tea Party painting\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Marcelo Braz<\/h6>\n<p>A medicina \u00e9 uma pr\u00e1tica que se ampara na ci\u00eancia. Seja a biol\u00f3gica, a qu\u00edmica, ou a f\u00edsica, o saber da medicina e seu discurso se sustentam em uma tentativa de leitura do real. Se h\u00e1 um saber no simb\u00f3lico que pode ser alojado no real pela medicina, este saber n\u00e3o recobre totalmente o real quando faz desaparecer o sintoma no sentido fenomenol\u00f3gico. A medicina tenta fazer-se sujeito deste saber e o aloja no real enquanto \u201co analista aloja outro saber, em outro lugar, mas que deve levar em conta o saber no real\u201d (LACAN, 2003, p. 311).<\/p>\n<p>N\u00e3o poderia ser diferente e nem devemos cobrar da medicina que ela abandone a pr\u00e1tica de Hip\u00f3crates para demandar <em>mais ainda<\/em> do que a tarefa de S\u00edsifo na filosofia do absurdo. A realiza\u00e7\u00e3o deste rei transformado em escravo ap\u00f3s sua morte \u00e9 fazer rolar a pedra significante (n\u00e3o \u00e9 a pedra de Drummond) montanha acima eternamente. Cada vez que ele est\u00e1 a ponto de concluir seu trabalho, que domina com um saber aprendido pela repeti\u00e7\u00e3o, se encontra com o real e, assim, a pedra chega em um ponto que n\u00e3o pode ser atravessado e volta a rolar novamente para baixo impondo a S\u00edsifo que n\u00e3o saia da repeti\u00e7\u00e3o significante, que \u00e9 atemporal. Este rei transformado em escravo segue o discurso do mestre (Zeus) obstinadamente. Realiza o absurdo tal qual os homens contempor\u00e2neos, mas consciente de sua condi\u00e7\u00e3o penitente. Produzir um saber significante (S2) no real \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o do absurdo que a medicina comprou sem se destruir por causa disso. Ela carrega sua pedra orgulhosa do ponto at\u00e9 onde pode chegar com seu \u201csemblante de fazer-se sujeito desse saber\u201d (LACAN, 2003, p. 311). O sonho do saber m\u00e9dico \u00e9 modesto. E a psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Na li\u00e7\u00e3o 7 (1977) do Semin\u00e1rio 24, Lacan afirma que: \u201co saber enquanto tal \u00e9 o saber enquanto est\u00e1 no real\u201d. Como essa frase poderia ser reformulada por Lacan para descrever o saber na sua primeira cl\u00ednica? Certamente seria assim: \u201co saber enquanto tal \u00e9 o saber enquanto est\u00e1 no simb\u00f3lico\u201d. Esta frase poderia ter sido proferida por Lacan durante \u201cLa primera\u201d por assim dizer, durante o Discurso de Roma (1953), pois o que estava em jogo era a primazia da fun\u00e7\u00e3o e do campo da linguagem ante a fala, s\u00f3 vindo a priorizar a fun\u00e7\u00e3o e o campo da fala em \u201cLa tercera\u201d (1974) e definindo-a a\u00ed como a superf\u00edcie de al\u00edngua. Temos ent\u00e3o duas abordagens diferentes para o saber da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>A primeira abordagem \u00e9 a abordagem do saber articulado, do saber significante que se aloja no Outro enquanto tesouro dos significantes. E a Outra? \u201cO analista aloja outro saber\u201d diz Lacan. Que saber seria esse alojado no Outro enquanto meio de gozo? J\u00e1 vimos que n\u00e3o \u00e9 um saber enquanto est\u00e1 no simb\u00f3lico. A outra abordagem \u00e9 um retorno a Freud no texto \u201cO inconsciente\u201d (1915). O homem de letras por tr\u00e1s da apar\u00eancia de m\u00e9dico sustenta que a primeira t\u00f3pica tem uma din\u00e2mica entre o inconsciente e o pr\u00e9-consciente marcada por duas transcrip\u00e7\u00f5es. Para que um saber pr\u00e9-consciente, um saber inconsciente no sentido apenas descritivo possa tocar algo do inconsciente propriamente dito, sist\u00eamico, \u00e9 preciso que aquilo que \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o de palavra (S2) esteja ligada a uma representa\u00e7\u00e3o de coisa (S1). Para Freud, o verdadeiro saber \u00e9 o saber que toca o corpo. E s\u00f3 se toca o corpo quando a representa\u00e7\u00e3o se faz <em>coisa<\/em>. Este \u00e9 o saber caro para a psican\u00e1lise. Em Lacan, o saber do Um, do S1 serial encarnado num corpo que se goza sem sujeito e sem dito. Um-dizer real que afeta o corpo, id\u00eantico a si mesmo. Pierre Augustin Caron teria sido o primeiro a afirmar que \u201csaber \u00e9 saber fazer\u201d, \u201csaber fazer a\u00ed\u201d diria Lacan, no furo S(\u023a), saber fazer com Um-saber disjunto ao pensado do racionalismo cartesiano. Um-saber imposs\u00edvel de integrar \u00e0 articula\u00e7\u00e3o significante. H\u00e1 Um-signo que n\u00e3o significa coisa alguma, mas pode significar qualquer coisa equivocada. Um-equ\u00edvoco dissociado da mentira e afim ao verdadeiro, ou seja, afim ao real de Um-saber corporal.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/h6>\n<h6>BASSOLS, Miquel. <strong>A psican\u00e1lise, a ci\u00eancia, o real<\/strong>, <em>in Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 11<\/em>. Rio de Janeiro: EBP, 2015.<\/h6>\n<h6>CAMUS, Albert. <strong>O mito de S\u00edsifo<\/strong>. Rio de Janeiro: Record Ed., 2019.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. <strong>Obras completas, volume XIV<\/strong>. 3 ed. Rio de Janeiro, Imago Ed, 1969.<\/h6>\n<h6>IRIZAR, Lierni. <strong>El cuerpo, extra\u00f1o<\/strong>. Bilbao: Ediciones Beta II mil\u00eanio, 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <strong>A terceira<\/strong>, <em>in Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 62<\/em>. Rio de Janeiro: EBP, 2011.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <strong>O semin\u00e1rio, livro 20, Mais, ainda<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <strong>O semin\u00e1rio, livro 24, O n\u00e3o-sabido que sabe de Um-equ\u00edvoco \u00e9 o amor<\/strong> (in\u00e9dito). Salvador: EBP-BA, 2019.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <strong>Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Braz A medicina \u00e9 uma pr\u00e1tica que se ampara na ci\u00eancia. Seja a biol\u00f3gica, a qu\u00edmica, ou a f\u00edsica, o saber da medicina e seu discurso se sustentam em uma tentativa de leitura do real. 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