{"id":1881,"date":"2020-11-30T18:43:49","date_gmt":"2020-11-30T21:43:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1881"},"modified":"2020-11-30T18:43:49","modified_gmt":"2020-11-30T21:43:49","slug":"mulheres-e-discursos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2020\/11\/30\/mulheres-e-discursos\/","title":{"rendered":"Mulheres e discursos"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1856\" aria-describedby=\"caption-attachment-1856\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1856\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3-Eugenia-Loli-Concurrent-Streams-2017.jpg\" alt=\"Eugenia Loli - Concurrent Streams - 2017\" width=\"400\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3-Eugenia-Loli-Concurrent-Streams-2017.jpg 768w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3-Eugenia-Loli-Concurrent-Streams-2017-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1856\" class=\"wp-caption-text\">Eugenia Loli &#8211; Concurrent Streams &#8211; 2017<\/figcaption><\/figure>\n<h6 class=\"p2\"><i>Bruna do Vale<\/i><\/h6>\n<h6 class=\"p3\"><i>Associada do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/i><\/h6>\n<p class=\"p4\">A mulher \u00e9 algo que faz quest\u00e3o, um enigma em suas diversas faces, contadas uma a uma. Por assim se fazer, coloca em cheque o universal, destacando a singularidade e a subjetividade de cada falasser. Com sutileza, Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse(2019), no livro <i>Mulheres e discursos,<\/i> nos apresenta esse mundo por meio de diversos significantes que marcam os discursos da \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"p4\">Como exemplo, temos atualmente a presen\u00e7a de lutas feministas, antirracistas etc., que, mesmo sendo essenciais, acabam por definir corpos. Trazem consigo, muitas vezes, a dureza de uma ordem que estabelece quem fica e quem sai, quem est\u00e1 dentro e quem est\u00e1 fora, com objetivo de incluir todos os corpos em um universo s\u00f3, fala-se de igualdade, mas marca-se uma diferen\u00e7a. S\u00e3o discursos, constituem um modo de gozo articulado a uma sociedade. A eles atribu\u00edmos sentido de castra\u00e7\u00e3o ligados \u00e0 uma ordem simb\u00f3lica (BROUSSE, 2019).<\/p>\n<p class=\"p4\">Se trago isso \u00e9 para pontuar que o feminino tratado na psican\u00e1lise aponta para a dire\u00e7\u00e3o da ex-sist\u00eancia do mundo do discurso. \u201cEle est\u00e1 fora do mundo do discurso. Expulso do sentido f\u00e1lico, expulso do \u2013\u03c6, n\u00e3o responde muito bem \u00e0 unidade da castra\u00e7\u00e3o\u201d (BROUSSE, 2019, p. 31). Entretanto, os discursos, que se apresentam com significantes mestre na atualidade, deixam marcado esse ponto fora da ordem que aparece como o que resta, que faz furo mesmo que permita a constru\u00e7\u00e3o de um semblante de identidade.<\/p>\n<p class=\"p4\">Isso \u00e9 interessante e, ao mesmo tempo, confuso. Ao apontar a poss\u00edvel exist\u00eancia de diversos sujeitos, apresenta uma pluraliza\u00e7\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es, mas recai numa infinita divis\u00e3o das massas, ou seja, os sujeitos acabam por se identificar a significantes-mestres que os reduzem a dados cifrados, tornando-se ferramenta que o discurso capitalista acaba por fazer uso. Assim, \u201cA multiplicidade de identifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o modifica em nada seu modo de funcionamento. Elas permanecem no Outro\u201d (BROUSSE, 2019, p. 72) e n\u00e3o ao lado do sujeito. Dessa forma, Brousse vai elencando as formas como os significantes-mestres v\u00e3o se colocando na atualidade com o que ainda permanece como esse Outro ordenador e com o que do corpo feminino faz fun\u00e7\u00e3o de Nome-do-Pai, esse como efeito de simb\u00f3lico no real.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">O que quero dizer com isso? Que o nome-do-pai, como fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, faz furo. E o que esse furo quer dizer? Trata-se de um furo de nomea\u00e7\u00e3o, e por isso ele fabrica um sentido. A met\u00e1fora paterna efetua um Um entre o pai e a m\u00e3e dos supostos homens e mulheres. Isso produz um inconsciente que ex-siste ao corpo, que n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o corpo, que faz dele um puro ser de discurso, no qual o corpo feminino entra em fun\u00e7\u00e3o. Fun\u00e7\u00e3o de qu\u00ea? De m\u00e3e, de mulher, de irm\u00e3, de filha&#8230; Al\u00e9m disso, qualquer outra fun\u00e7\u00e3o \u00e9 ligada a isso (BROUSSE, 2019, p. 30).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p4\">Assim, isso que faz fun\u00e7\u00e3o implica nas identidades, que est\u00e3o ligadas ao reconhecimento dado pelo Outro, perpassando a significantiza\u00e7\u00e3o do corpo (LACAN, 1954\/1992). Significantes como identidade, g\u00eanero, minorias, por exemplo, designam a indefini\u00e7\u00e3o de um todo por apresentarem a inefic\u00e1cia do sistema bin\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 duas defini\u00e7\u00f5es, entre o zero e o um h\u00e1 um infinito (LACAN, 1972-73\/1985). Multiplica-se os significantes-mestres e, consequentemente, a segrega\u00e7\u00e3o, a qual traz uma l\u00f3gica de apropria\u00e7\u00e3o e desapropria\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do capitalismo, troca-se o sujeito dividido pelo sujeito da ci\u00eancia (BROUSSE, 2019).<\/p>\n<p class=\"p4\">Para responder a isso, a psican\u00e1lise vai pela via da subvers\u00e3o, do gozo pelo desejo, o que implica passar de uma l\u00f3gica da identidade, em que v\u00e1rios podem se identificar a uma coisa\/tra\u00e7o\/pessoa, para uma l\u00f3gica da posi\u00e7\u00e3o de gozo, que \u00e9 do Um, passa-se de um processo simb\u00f3lico para um processo real (BROUSSE, 2019). Tratar disso parece implicar impasses que o pr\u00f3prio desconhecido oferece. \u00c9 se deparar com a falta de palavras, a aus\u00eancia de significantiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p4\">\u00c9 isso que Brousse prop\u00f5e desenvolver ao longo do livro, apresentando os discursos do mestre que aparecem e indicando como o feminino os atravessa com a pretens\u00e3o de indicar poss\u00edveis dire\u00e7\u00f5es de tratamento. Como j\u00e1 cantava Caetano (1991): \u201calguma coisa est\u00e1 fora da ordem\u201d, \u00e9 justamente isso que faz interesse para a psican\u00e1lise, por dar acesso a uma feminiza\u00e7\u00e3o em meio a um discurso viril, colocando-o ao avesso e levando-a \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 class=\"p7\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/h6>\n<h6 class=\"p7\">BROUSSE, M. H. <i>Mulheres e discursos<\/i>. Rio de janeiro: Contra capa, 2019.<\/h6>\n<h6 class=\"p7\">LACAN, J. (1954). <i>O semin\u00e1rio, livro II<\/i>: o eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica psicanal\u00edtica. Rio de Janeiro: Zahar, 1992<\/h6>\n<h6 class=\"p7\">LACAN, J. (1972-73). <i>O semin\u00e1rio, livro XX<\/i>: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985<\/h6>\n<h6 class=\"p7\">VELOSO, C. <i>Fora da ordem<\/i>. Rio de janeiro, 1991.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruna do Vale Associada do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) A mulher \u00e9 algo que faz quest\u00e3o, um enigma em suas diversas faces, contadas uma a uma. Por assim se fazer, coloca em cheque o universal, destacando a singularidade e a subjetividade de cada falasser. 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