{"id":1889,"date":"2020-11-30T18:51:41","date_gmt":"2020-11-30T21:51:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1889"},"modified":"2020-12-01T05:16:03","modified_gmt":"2020-12-01T08:16:03","slug":"o-analista-entre-o-diva-e-as-telas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2020\/11\/30\/o-analista-entre-o-diva-e-as-telas\/","title":{"rendered":"O analista entre o div\u00e3 e as telas"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1858\" aria-describedby=\"caption-attachment-1858\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1858\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/5-Eugenia-Loli-Dry-Cleaning-2013.jpg\" alt=\"Eugenia Loli - Dry Cleaning - 2013\" width=\"400\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/5-Eugenia-Loli-Dry-Cleaning-2013.jpg 1080w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/5-Eugenia-Loli-Dry-Cleaning-2013-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/5-Eugenia-Loli-Dry-Cleaning-2013-768x1024.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1858\" class=\"wp-caption-text\">Eugenia Loli &#8211; Dry Cleaning &#8211; 2013<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Vanessa Serpa Leite<\/h6>\n<h6><em>Associada do IPB<\/em><\/h6>\n<p>Ainda na passagem do s\u00e9culo XX para XXI, Miller (1999) d\u00e1 uma c\u00e9lebre entrevista sobre o uso do div\u00e3 e a portabilidade do corpo na psican\u00e1lise, mediante o aumento dos recursos tecnol\u00f3gicos; quest\u00f5es estas que nos parecem caras no momento atual por conta da pandemia mundial do C<em>ovid-19<\/em>, em que a norma tornou-se o atendimento psicanal\u00edtico por meio de tecnologias digitais, via telas de computador e celular que transmitem imagem e voz. Desde o in\u00edcio da urg\u00eancia do isolamento e afastamento social, analistas e praticantes da psican\u00e1lise vem debatendo a diferen\u00e7a da presen\u00e7a do analista em carne e osso na sess\u00e3o e a presen\u00e7a do analista atrav\u00e9s da voz e da imagem, onde o objeto div\u00e3 n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel como na cena enquadrada pelo consult\u00f3rio do analista.<\/p>\n<p>Um dos pontos principais trazidos por Miller (1999), a partir das perguntas de Eric Faverau, diz respeito ao verdadeiro objeto da psican\u00e1lise, que \u00e9 o psicanalista, e n\u00e3o o div\u00e3. Para Miller, o psicanalista \u00e9 o objeto que Freud inventou na medida em que ele \u00e9 capaz de se fazer objeto. Logo, o div\u00e3 n\u00e3o passa de uma cama onde um corpo se despe de seu formato ativo e imagin\u00e1rio para que o falasser se encontre com o que h\u00e1 de resto. Nessa perspectiva, transmite a ideia de que o div\u00e3 \u00e9 um objeto capaz de deixar presente e ao mesmo tempo ausente a rela\u00e7\u00e3o sexual, na medida em que possibilita o ser falante se entregar totalmente \u00e0 experi\u00eancia do encontro com o corpo parasitado pela palavra. Ora, se o div\u00e3 n\u00e3o \u00e9 o cerne da experi\u00eancia anal\u00edtica, mas sim o analista como objeto, sabemos que \u00e9 o ato do analista em oferecer ao falasser o lugar de encontro com sua pr\u00f3pria estranheza que confere o estatuto da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Miller (1999) esclarece que o div\u00e3 serve para amputar a motricidade, deixando materializado esse corpo derrotado e abandonado. Em seguida, defende que a presen\u00e7a virtual possibilitada pela tecnologia trope\u00e7a na medida em que sabota o real. Ou seja, alerta que a co-presen\u00e7a em carne e osso \u00e9 necess\u00e1ria apenas para fazer surgir a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. Numa sess\u00e3o, analista e analisante n\u00e3o est\u00e3o juntos para se ver, e o div\u00e3 \u00e9 justamente o objeto que representa isto: deixar surgir a n\u00e3o equival\u00eancia. Segue, ent\u00e3o, a pergunta: como provocar e sustentar o encontro com o real em modo <em>on-line<\/em>?<\/p>\n<p>Recentemente, Vieira (2020), em <em>live<\/em> da SPCRJ intitulada <em>A janela e o vizinho<\/em>, questiona a possibilidade de provocar o encontro com o estranho nas sess\u00f5es <em>on-line<\/em>. Segundo ele, aquilo que causa uma certa estranheza \u00e9 o pr\u00f3prio da sess\u00e3o anal\u00edtica. O psicanalista quer ver o que n\u00e3o est\u00e1 na janela, no enquadre da realidade ps\u00edquica, aquilo que n\u00e3o \u00e9 reconhecido pelo eu. As sess\u00f5es <em>on-line<\/em> t\u00eam ocorrido normalmente\u00a0 no ambiente familiar, no espa\u00e7o pr\u00f3prio e \u00edntimo do analisante. Dessa forma, Vieira vai trazer que o encontro interpessoal, ou a baliza entre os corpos, \u00e9 necess\u00e1ria para contornar a realidade ps\u00edquica e ent\u00e3o fazer aparecer o que est\u00e1 fora desse enquadre. O que \u00e9 trazido como \u201cestranho\u201d \u00e9 o mesmo que Miller j\u00e1 apontava em 1999, quando questionado sobre a presen\u00e7a do div\u00e3.<\/p>\n<p>Ainda anteriormente \u00e0 entrevista dada \u00e0 Eric Faverau, Miller (1990) discute as mudan\u00e7as ocasionadas pelo discurso da ci\u00eancia, com o advento do fax e o uso do telefone. Nesta \u00e9poca, destacou que o fax modificava a rela\u00e7\u00e3o de proximidade e a rela\u00e7\u00e3o de vizinhan\u00e7a, ocasionando uma certa acelera\u00e7\u00e3o nos atos individuais,\u00a0 enquanto o telefone provocava uma ilus\u00e3o da presen\u00e7a do outro, como uma falsa presen\u00e7a. Dessa forma, vemos que, desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 90, se discutia formas in\u00e9ditas de presen\u00e7a permitidas pela tecnologia e de que maneira isto afeta as rela\u00e7\u00f5es humanas, logo, o fazer do analista. Mais al\u00e9m do div\u00e3 como o verdadeiro objeto da psican\u00e1lise, \u00e9 a presen\u00e7a do analista que est\u00e1 em jogo nesta querela. Presen\u00e7a esta que quanto mais o modo virtual de rela\u00e7\u00e3o se banaliza, mais a presen\u00e7a real se torna preciosa, nos diz Miller na entrevista dada em 1999.<\/p>\n<p>Para concluir, e muito distante de um ponto final nesta discuss\u00e3o, Miller (1999) considera que o analista \u00e9 um objeto muito particular, que permite \u00e0 algu\u00e9m \u00e0 se experimentar, como falasser sem saber o que se quer, nem o que se diz, nem mesmo a quem se diz. Diante disso, devemos pensar como manobrar e atuar na falsa presen\u00e7a sem sabotar o real. N\u00e3o se trata, ent\u00e3o, da discuss\u00e3o sobre a aus\u00eancia do objeto div\u00e3, mas sim da busca dos alicerces da pr\u00e1tica para fazer incidir a presen\u00e7a do analista mesmo com as modifica\u00e7\u00f5es que a ci\u00eancia provoca no encontro entre corpos, inclusive quando esses corpos s\u00e3o afastados e afetados pela invas\u00e3o de novos e mort\u00edferos agentes biol\u00f3gicos que v\u00eam desvelando o real em cada singularidade de modo in\u00e9dito na hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>MILLER, J.-A. (1999). <em>Le divan. <\/em><em>XX1 e si\u00e8cle<\/em>. Demain la mondialisation des divans? Vers le corps portable. Par Eric Favereau. AN 2000. Les objets du si\u00e8cle.<\/h6>\n<h6>MILLER J.-A. (1990). A pergunta de Madri. Em: <em>Aposta no passe<\/em>: seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola, membros da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<strong>. <\/strong>Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018.<\/h6>\n<h6>VIEIRA, M. A. <em>A janela e o vizinho<\/em>. <em>3\u00aa live da SPCRJ na s\u00e9rie \u201cVicissitudes dos encontros on-line\u201d<\/em>, 2020. Dispon\u00edvel em https:\/\/youtu.be\/D4BBi05Sb2U .<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vanessa Serpa Leite Associada do IPB Ainda na passagem do s\u00e9culo XX para XXI, Miller (1999) d\u00e1 uma c\u00e9lebre entrevista sobre o uso do div\u00e3 e a portabilidade do corpo na psican\u00e1lise, mediante o aumento dos recursos tecnol\u00f3gicos; quest\u00f5es estas que nos parecem caras no momento atual por conta da pandemia mundial do Covid-19, em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-1889","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-022","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1889"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1889\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1983,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1889\/revisions\/1983"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1889"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=1889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}