{"id":1893,"date":"2020-11-30T18:55:30","date_gmt":"2020-11-30T21:55:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1893"},"modified":"2020-11-30T18:56:45","modified_gmt":"2020-11-30T21:56:45","slug":"o-acolhimento-psicanalitico-no-intervalle-cap1-principios-e-aplicacoes2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2020\/11\/30\/o-acolhimento-psicanalitico-no-intervalle-cap1-principios-e-aplicacoes2\/","title":{"rendered":"O acolhimento psicanal\u00edtico no Intervalle-Cap<sup>1<\/sup>: princ\u00edpios e aplica\u00e7\u00f5es<sup>2<\/sup>"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1862\" aria-describedby=\"caption-attachment-1862\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1862\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/9-Eugenia-Loli-Screaming-Children-in-Pool-2016-scaled.jpg\" alt=\"Eugenia Loli - Screaming Children in Pool - 2016\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/9-Eugenia-Loli-Screaming-Children-in-Pool-2016-scaled.jpg 2560w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/9-Eugenia-Loli-Screaming-Children-in-Pool-2016-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/9-Eugenia-Loli-Screaming-Children-in-Pool-2016-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/9-Eugenia-Loli-Screaming-Children-in-Pool-2016-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/9-Eugenia-Loli-Screaming-Children-in-Pool-2016-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/9-Eugenia-Loli-Screaming-Children-in-Pool-2016-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/9-Eugenia-Loli-Screaming-Children-in-Pool-2016-2048x2048.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1862\" class=\"wp-caption-text\">Eugenia Loli &#8211; Screaming Children in Pool &#8211; 2016<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Catherine Meut<br \/>\nDiretora do Intervalle-Cap. Membro da \u00c9cole de la Cause Freudienne e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise<\/h6>\n<h6>Mathieu Siriot<br \/>\nPsic\u00f3logo da Intervalle-Cap<\/h6>\n<p>H\u00e1 quatorze anos atr\u00e1s, abrimos um centro de acolhimento psicanal\u00edtico com psic\u00f3logos cl\u00ednicos, participantes do primeiro Atelier de Psican\u00e1lise Aplicada da ECF, criado por Jacques-Alain Miller. Oferecer um acolhimento psicanal\u00edtico a algumas pessoas mais pobres e vulner\u00e1veis foi um projeto inovador. Por isso, ele foi recebido com interesse e curiosidade no campo social e tamb\u00e9m no meio psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do <em>Intervalle-Cap <\/em>em Paris foi &#8211; e ainda \u00e9 hoje &#8211; um ato de resist\u00eancia contra a ideologia atual que submete cada vez mais o atendimento ps\u00edquico e o sujeito a crit\u00e9rios de adapta\u00e7\u00e3o e compet\u00eancia social.<\/p>\n<p>Tratava-se de criar um lugar diferente, outro, nem m\u00e9dico nem social: um lugar livre para a fala e de qualquer objetivo pr\u00e9-estabelecido de adapta\u00e7\u00e3o e cura.<\/p>\n<h3><strong>Acesso livre e gratuito<\/strong><\/h3>\n<p>O acesso ao <em>Intervalle-Cap<\/em> \u00e9 simples e r\u00e1pido. Voc\u00ea pode vir e ser recebido sem ter marcado uma consulta. Al\u00e9m disso, as entrevistas s\u00e3o gratuitas. Essas condi\u00e7\u00f5es de acolhimento praticamente sem restri\u00e7\u00f5es e muito flex\u00edveis eram completamente novas para um dispositivo de orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a elas, o <em>Intervalle-Cap<\/em> \u00e9 um lugar ao qual podem se endere\u00e7ar os sujeitos que est\u00e3o em uma grande vulnerabilidade ps\u00edquica e social, os sujeitos desorientados, muitas vezes sem trabalho ou mesmo sem domicilio fixo, na err\u00e2ncia e que testemunham o instante mesmo da sua ruptura social. Pela escolha decidida dessas condi\u00e7\u00f5es de acolhimento audaciosas, que facilitam seu acesso, a <em>Intervalle-Cap<\/em> \u00e9, de fato, um lugar que acolhe a urg\u00eancia subjetiva. Seus praticantes lidam com o real em jogo da urg\u00eancia subjetiva.<\/p>\n<h3><strong>Cl\u00ednica de fim de semana: escans\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>O que tamb\u00e9m caracteriza esse lugar \u00e9 sua abertura limitada ao final de semana, s\u00e1bados e domingos durante o dia, sem interrup\u00e7\u00e3o. De fato, no fim de semana, muitas estruturas de atendimento ou sociais est\u00e3o fechadas ou menos dispon\u00edveis. \u00c9 o momento de suspens\u00e3o das obriga\u00e7\u00f5es e compromissos sociais, para se dedicar \u00e0 fam\u00edlia, aos amigos, aos lazeres e \u00e0s compras. Assim, esse momento d\u00e1 lugar tamb\u00e9m a uma cl\u00ednica do vazio e do isolamento. Para muitos, este momento se traduz em ansiedade, pensamentos negativos ou suicidas, dor f\u00edsica, err\u00e2ncia, alcoolismo.<\/p>\n<p>Assim, no fim de semana, <em>Intervalle-Cap<\/em> oferece um tempo e um espa\u00e7o para fazer uma pausa, uma escans\u00e3o, em contraponto ao resto da semana. Lugar de ref\u00fagio contra o isolamento e a err\u00e2ncia, o acolhimento psicanal\u00edtico \u00e9 uma presen\u00e7a do corpo e da fala de seus praticantes.<\/p>\n<p>Este acolhimento n\u00e3o faz parte da l\u00f3gica tradicional de tratamento ou de atendimento, com consulta marcada, obedecendo a um protocolo porque ele opera em primeiro lugar no <em>hic et nunc<\/em>, o aqui e agora do encontro, da urg\u00eancia.<\/p>\n<h3><strong>Uma pr\u00e1tica entre v\u00e1rios in\u00e9dita<\/strong><\/h3>\n<p>H\u00e1 outra disposi\u00e7\u00e3o bastante espec\u00edfica para este lugar: de um fim de semana a outro, os praticantes se revezam, trocam. Quando uma pessoa volta uma segunda vez, muitas vezes, ela n\u00e3o encontrar\u00e1 necessariamente o mesmo praticante.<\/p>\n<p>Se o praticante que recebe n\u00e3o \u00e9 sempre o mesmo, a s\u00e9rie de interventores n\u00e3o \u00e9 infinita. Um sujeito encontra um praticante e fala com ele; nas pr\u00f3ximas vezes, ele encontra outros. Depois de alguns finais de semana, ele pode encontrar o primeiro interventor e os outros. Neste \u00ednterim, algo foi tecido, uma dimens\u00e3o temporal se instaura e o trabalho n\u00e3o se fixa em uma repeti\u00e7\u00e3o. Ele leva a um esfor\u00e7o, digamos, renovado, do lado do sujeito e uma renova\u00e7\u00e3o da escuta do lado do praticante.<\/p>\n<p>De fato, a experi\u00eancia mostra que essa organiza\u00e7\u00e3o se adapta a muitos dos quais recebemos que t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o muito problem\u00e1tica com a linguagem e a fala, e que n\u00e3o est\u00e3o prontos para se endere\u00e7ar desde o in\u00edcio e regularmente a um \u00fanico praticante, pelo menos num primeiro momento. Trata-se de um engajamento com o Outro que pode ser muito dif\u00edcil, se n\u00e3o imposs\u00edvel, para eles. Aqui, o sujeito usar\u00e1 a estrutura do <em>Intervalle <\/em>a seu pr\u00f3prio crit\u00e9rio, de acordo com seu ritmo e uso pessoal, cujo \u00fanico saber \u00e9 que ele ter\u00e1 que se endere\u00e7ar a um praticante. Isso responde \u00e0 liberdade desses sujeitos marcados por rupturas em suas vidas, cujo la\u00e7o com o Outro \u00e9 t\u00eanue, desconfiado, o que chamamos de precariedade simb\u00f3lica, termo forjado por Hugo Freda na \u00e9poca em que dirigia o CPCT Paris-Chabrol (FREDA, 2007).<\/p>\n<p>Opera-se, ent\u00e3o, para estes sujeitos, uma \u00abtransfer\u00eancia\u00bb com o lugar e com o conjunto dos praticantes que permite evitar ou atenuar os fen\u00f4menos persecut\u00f3rios sempre presentes no encontro com um \u00fanico praticante. \u00c9 uma transfer\u00eancia que inclui a possibilidade de um acolhimento, ao mesmo tempo cont\u00ednuo e descont\u00ednuo, do qual os sujeitos se apropriam, e dizem algo, a cada vez, de maneira singular. Com esta organiza\u00e7\u00e3o especial do nosso trabalho, introduzimos um tipo novo de Outro, pluralizado, menos amea\u00e7ador, que acolhe sua fala e que sobretudo n\u00e3o exige nada.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o que faz a coes\u00e3o e o enquadramento deste trabalho entre v\u00e1rios \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica comum a seus praticantes: todos em posi\u00e7\u00e3o de analisantes, inscritos numa transfer\u00eancia ao discurso anal\u00edtico. Caso contr\u00e1rio, essa pr\u00e1tica de acordo com estas modalidades especiais de aplica\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise em institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o seria poss\u00edvel. As anota\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas regulares da parte dos v\u00e1rios praticantes que recolhem os ditos do sujeito, seus significantes, permite regular e controlar esse trabalho entre v\u00e1rios, como o de cada interventor. O exerc\u00edcio regular de escrita dos casos, a partir destas notas, engaja tamb\u00e9m os praticantes.<\/p>\n<h3><strong>O acolhimento psicanal\u00edtico? <\/strong><\/h3>\n<p>O que os sujeitos que se endere\u00e7am \u00e0 <em>Intervalle <\/em>nos confiam \u00e9 sobre um gozo mort\u00edfero, invasivo, que os transborda, afeta seus corpos e os isola do Outro. Os praticantes s\u00e3o chamados a responder, sem pressa, produzindo \u00abatos\u00bb, formulando uma fala, realizando interven\u00e7\u00f5es simples que operam um corte, uma parada, uma borda, para limitar o gozo.<\/p>\n<p>Trata-se de recolher o fora de sentido do gozo, o fora do discurso, de acentuar, registrar, memorizar os significantes S1 isolados, desamarrados, os significantes petrificados que fixam uma identifica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m aqueles que nomeiam um gozo, indicadores de uma conduta repetitiva; reconhecer tamb\u00e9m aqueles que apaziguam, que t\u00eam um efeito de pontua\u00e7\u00e3o, de parada. Por essa primeira opera\u00e7\u00e3o, e, pela a segunda, ponderada, do \u00abdi\u00e1logo\u00bb, alguns sujeitos poder\u00e3o, em um segundo momento, construir, minimamente, uma hist\u00f3ria, a que chamamos de efeito de sujeito.<\/p>\n<p>A <em>Intervalle <\/em>baseia sua a\u00e7\u00e3o no discurso psicanal\u00edtico e na sua \u00e9tica. Em primeiro lugar, este discurso d\u00e1 lugar ao gozo.<\/p>\n<p>Primeiro efeito do apaziguamento: a descoberta de um lugar baseado em um discurso no qual pode vir se alojar o gozo sem que isso retorne, ecoe em um Outro e suas demandas, suas perguntas intrusivas e suas exig\u00eancias. Um lugar livre, no seu princ\u00edpio, n\u00e3o apenas de qualquer objetivo de cura, mas sobretudo de qualquer imperativo de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, as da psican\u00e1lise, o sujeito pode encontrar uma presen\u00e7a suport\u00e1vel, a do praticante incompleto por esse discurso. Um praticante que n\u00e3o encarna o sujeito suposto saber sobre ele, mas que leva em conta, prioritariamente, a rela\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica que o sujeito mant\u00e9m com a linguagem, com o Outro. Uma pr\u00e1tica que aposta sempre na responsabilidade do sujeito.<\/p>\n<p>Mas, s\u00e3o tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es concretas, pragm\u00e1ticas, do exerc\u00edcio do enquadramento geral estabelecido para o acolhimento do <em>Intervalle-Cap<\/em> &#8211; no qual os participantes se inscrevem &#8211; que permitem os efeitos de apaziguamento da ang\u00fastia, de limita\u00e7\u00e3o do gozo. Assim, os praticantes e entrevistas, v\u00e1rios e diferentes, formam um conjunto de elementos discretos, um conjunto ao mesmo tempo finito (a s\u00e9rie finita dos interventores ligados por uma mesma \u00e9tica e na posi\u00e7\u00e3o de analisantes) e incompleta (posi\u00e7\u00e3o de revezamento da estrutura \/ seus parceiros e pluraliza\u00e7\u00e3o do Outro barrado pela permuta\u00e7\u00e3o dos praticantes que abre tamb\u00e9m para um outro lugar). Esse conjunto constitui a flexibilidade e capacidade de manobra da institui\u00e7\u00e3o do qual sujeito poder\u00e1 fazer uso, no seu pr\u00f3prio ritmo, para se orientar e se reconectar de maneira menos amea\u00e7adora ao Outro, respeitando a sua liberdade.<\/p>\n<p>Finalmente, a <em>Intervalle-Cap<\/em> permite um manejo descont\u00ednuo do tempo que produz efeitos de borda, de limite: a abertura circunscrita nos dois dias do fim de semana em oposi\u00e7\u00e3o significante aos dias \u00fateis da semana, a escans\u00e3o da consulta \u00fanica ou, ao contr\u00e1rio, a pluralidade das entrevistas em um mesmo dia, separadas por intervalos de tempo &#8211; o tempo da presen\u00e7a, cadenciado pelo sujeito no local. Esse manejo do tempo, que respeita e segue o tempo l\u00f3gico do sujeito, determina, assim, uma cl\u00ednica que visa \u00abdeixar a emerg\u00eancia na porta\u00bb (LEGUIL, 1995, p. 30). Uma cl\u00ednica que procura evitar que o sofrimento agudo do sujeito se torne uma emerg\u00eancia psiqui\u00e1trica, que sua ang\u00fastia n\u00e3o repercuta numa lament\u00e1vel passagem ao ato.<\/p>\n<h3><strong>Psican\u00e1lise aplicada e conclus\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>A validade de uma pr\u00e1tica, segundo a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, \u00e9 verificada nos seus efeitos para o sujeito no real, uma modifica\u00e7\u00e3o de sua rela\u00e7\u00e3o com o real. O termo \u00abPsican\u00e1lise Aplicada\u00bb foi criado por Jacques Lacan em 1964, no seu ato de funda\u00e7\u00e3o da EFP. Jacques Lacan criou, junto \u00e0 se\u00e7\u00e3o da \u201cpsican\u00e1lise pura\u201d, o que poderia se esperar de uma se\u00e7\u00e3o da \u00abpsican\u00e1lise aplicada\u00bb e especificou sua inten\u00e7\u00e3o acrescentando: \u201c[&#8230;] o que significa terap\u00eautico\u00bb. Stevens, que foi um dos primeiros a inventar uma nova pr\u00e1tica com a cria\u00e7\u00e3o h\u00e1 30 anos do <em>COURTIL<\/em>, institui\u00e7\u00e3o de atendimento para crian\u00e7as psic\u00f3ticas em Tournai<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, lembrou que n\u00e3o h\u00e1 modelo nem receitas de institui\u00e7\u00e3o de psican\u00e1lise aplicada. O <em>Intervalle-CAP<\/em> \u00e9 um modelo que n\u00e3o existia antes e cujo acolhimento tem suas especificidades que determinam, em parte, a cl\u00ednica que ali se descobre.<\/p>\n<p>Cada institui\u00e7\u00e3o lacaniana de psican\u00e1lise aplicada tem seu estilo particular, um modo de acolhimento que tem suas particularidades e que n\u00e3o se sustenta somente no estilo de seus praticantes, mas tamb\u00e9m no seu modo de organiza\u00e7\u00e3o e de inser\u00e7\u00e3o no tecido social e tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es que mant\u00e9m com a pol\u00edtica. Assim, a pr\u00e1tica entre v\u00e1rios n\u00e3o ser\u00e1 realizada sempre da mesma maneira.<\/p>\n<p>O termo \u00abpr\u00e1tica entre v\u00e1rios\u00bb foi criado por J.-A. Miller para designar o novo trabalho cl\u00ednico realizado por v\u00e1rias pessoas em 1974 no <em>Antenne 110<\/em>, outra institui\u00e7\u00e3o pioneira para crian\u00e7as autistas dirigida por A. Di Ciaccia.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica entre v\u00e1rios \u00e9 particularmente indicada e mesmo desej\u00e1vel quando \u00aba demanda anal\u00edtica \u00e9 forclu\u00edda e que a alian\u00e7a do sujeito com o significante se tornou fr\u00e1gil\u00bb (CIACCIA, 2005, p. 118) por um gozo mort\u00edfero, diz Di Ciaccia e, neste caso, acrescenta: \u00abA pr\u00e1tica entre v\u00e1rios pode revelar uma certa validade operat\u00f3ria\u201d (p.118).<\/p>\n<p>O acolhimento psicanal\u00edtico na institui\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos nomes da pr\u00e1tica entre v\u00e1rios, pr\u00e1tica entre v\u00e1rios de psican\u00e1lise aplicada ao tratamento do gozo psic\u00f3tico. O acolhimento psicanal\u00edtico para esses sujeitos tem como prop\u00f3sito terap\u00eautico o efeito de capitonagem do gozo. Requer que o praticante esteja \u00e0 altura do ato convocado pelo real que surge da experi\u00eancia, que ele tente \u00abficar no n\u00edvel do real\u00bb (MILLER, 2001, p.11).<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica do praticante orientado pela psican\u00e1lise, que a distingue de todas as outras posi\u00e7\u00f5es psicoterap\u00eauticas existentes, \u00e9 que \u00abele n\u00e3o precisa se inserir no la\u00e7o social prescrito pelo discurso do mestre\u201d (MILLER, 2010, p. 15). Jacques-Alain Miller nos lembra tamb\u00e9m que \u00abo discurso do mestre acredita na sa\u00fade mental\u00bb, acredita \u201cnesse ideal que \u00e9 proibido ao analista\u00bb. O psicanalista mant\u00e9m-se \u00e0 dist\u00e2ncia desse ideal e procura manter-se o mais pr\u00f3ximo do real traum\u00e1tico com o qual esses sujeitos lidam diariamente.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de \u201cacolhimento psicanal\u00edtico\u201d, termo que foi utilizado pela primeira vez com a cria\u00e7\u00e3o do <em>Intervalle-CAP<\/em>, inspirou outras institui\u00e7\u00f5es. Recentemente, foi criado a FIPA, a Federa\u00e7\u00e3o das Institui\u00e7\u00f5es de Psican\u00e1lise Aplicada, que re\u00fane as institui\u00e7\u00f5es mais ou menos antigas, dentre elas o <em>CLAP<\/em> &#8211; Passagem <em>p<\/em><em>our les tous petits<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup><strong>[4]<\/strong><\/sup><\/a><\/em> (Centro Lacaniano de acolhimento Psicanal\u00edtico). Outra, criada para receber adolescentes, <em>Paradox<\/em><em>es<\/em>.<\/p>\n<p>O <em>Interval<\/em><em>le<\/em><em>-Cap<\/em> \u00e9 uma estrutura que sustenta uma pr\u00e1tica in\u00e9dita cuja liberdade de a\u00e7\u00e3o \u00e9 favorecida pela sua margem de manobra, pelo seu modo \u201ckit\u201d, instala\u00e7\u00e3o pronta para desmontar e remontar em qualquer lugar favor\u00e1vel ou n\u00e3o hostil ao discurso psicanal\u00edtico, lugares que se tornaram raros. \u00c9 um modelo entre outros.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CIACCIA, A. D. La pratique \u00e0 plusieurs. Em: <em>La Cause Freudienne<\/em>, n\u00b0 61, pp.107-118, 2005.<\/h6>\n<h6>FREDA, H. La pr\u00e9carit\u00e9. Em: <em>La Cause Freudienne<\/em>, n\u00ba 65, mars 2007, p. 213-219.<\/h6>\n<h6>LEGUIL, F. La s\u00e9v\u00e8re rigueur de ce moment qui passe. Em: <em>Quarto<\/em>, n\u00b0 58, d\u00e9cembre 1995, p. 30.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. Le r\u00e9el est sans loi. Em: <em>La Cause Freudienne<\/em>, n\u00b0 49,2001.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. Le salut par les d\u00e9chets. Em: <em>Mental<\/em>, n\u00b0 24, p.15, 2010.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> A Intervalle-Cap fica na Rua Regnault, n\u00famero 58, em Paris. Para mais informa\u00e7\u00f5es, acessar o site institucional: https:\/\/sites.google.com\/site\/capintervallepublic\/home.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Texto apresentado em julho de 2018 no N\u00facleo de Psicose (IPB).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Recomendamos assistir o recente e formid\u00e1vel filme\/document\u00e1rio sobre esta institui\u00e7\u00e3o de psican\u00e1lise aplicada intitulado\u00a0\u00abA c\u00e9u aberto\u00bb, de Mariane Ot\u00e9ro.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Primeira inf\u00e2ncia, de 0 \u00e0 4 anos.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catherine Meut Diretora do Intervalle-Cap. Membro da \u00c9cole de la Cause Freudienne e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise Mathieu Siriot Psic\u00f3logo da Intervalle-Cap H\u00e1 quatorze anos atr\u00e1s, abrimos um centro de acolhimento psicanal\u00edtico com psic\u00f3logos cl\u00ednicos, participantes do primeiro Atelier de Psican\u00e1lise Aplicada da ECF, criado por Jacques-Alain Miller. 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