{"id":1903,"date":"2020-11-30T19:04:33","date_gmt":"2020-11-30T22:04:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1903"},"modified":"2020-11-30T19:04:33","modified_gmt":"2020-11-30T22:04:33","slug":"nao-fazemos-mais-amor-como-antes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2020\/11\/30\/nao-fazemos-mais-amor-como-antes\/","title":{"rendered":"N\u00e3o fazemos mais [amor] como antes&#8230;"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1863\" aria-describedby=\"caption-attachment-1863\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1863\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/10-Joe-Webb-Selected-collages-Beach-Body-Ready.jpg\" alt=\"Joe Webb - Selected collages - Beach Body Ready\" width=\"400\" height=\"530\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/10-Joe-Webb-Selected-collages-Beach-Body-Ready.jpg 500w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/10-Joe-Webb-Selected-collages-Beach-Body-Ready-226x300.jpg 226w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1863\" class=\"wp-caption-text\">Joe Webb &#8211; Selected collages &#8211; Beach Body Ready<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Glauco de Carvalho Morais<\/h6>\n<h6>Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/h6>\n<p>O mundo n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo e essa opini\u00e3o \u00e9 un\u00e2nime. N\u00e3o se nasce, vive ou morre do mesmo jeito que antes. A expressiva velocidade em que a tecnologia acontece desde a d\u00e9cada de 90 \u00e9 t\u00e3o marcante em nossas vidas que para estar \u201cdesatualizado\u201d do mundo basta perder a conex\u00e3o com a Internet durante algumas horas. O homem contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo e suas formas de la\u00e7o social tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise, que sempre est\u00e1 atenta \u00e0s muta\u00e7\u00f5es sociais, n\u00e3o ignora os efeitos do contempor\u00e2neo sobre o sujeito, \u00e9 o que afirma Graciela Brodsky (2013):<\/p>\n<blockquote><p>O saber que nos ocupa, o saber da cl\u00ednica, \u00e9 um saber mutante. A cl\u00ednica da qual nos ocupamos \u00e9 sens\u00edvel ao Outro social: se o Outro muda, muda a cl\u00ednica, uma vez que a cl\u00ednica n\u00e3o est\u00e1 dada no real (p.7).<\/p><\/blockquote>\n<p>Atento as mudan\u00e7as sociais, ainda em 1953, Lacan advertiu que se: \u201cdeve renunciar \u00e0 pr\u00e1tica da psican\u00e1lise todo analista que n\u00e3o conseguir alcan\u00e7ar em seu horizonte a subjetividade de sua \u00e9poca\u201d (p. 321).<\/p>\n<p>A primazia do falo e as consequ\u00eancias ps\u00edquicas da aus\u00eancia da simboliza\u00e7\u00e3o do sexo feminino levaram Lacan a formular o axioma: \u201cn\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (LACAN, 1973\/ 2003, p.454). Essa afirma\u00e7\u00e3o parte do pressuposto de que a condi\u00e7\u00e3o estrutural do sujeito \u00e9 faltante, que no outro nunca ser\u00e1 encontrado aquilo que falta. Sempre estaremos incompletos.<\/p>\n<p>Precedendo o axioma \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o\u201d, e seguindo para uma articula\u00e7\u00e3o poss\u00edvel diante da condi\u00e7\u00e3o estrutural do sujeito, Lacan estabeleceu quatro discursos &#8211; modaliz\u00e1veis em suas disposi\u00e7\u00f5es &#8211; que organizariam as rela\u00e7\u00f5es entre sujeito, Outro, saber e objeto. S\u00e3o eles: Discurso do Mestre, da Hist\u00e9rica, da Universidade e do Analista. O princ\u00edpio de todo discurso ou la\u00e7o social \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o do campo do sujeito com o campo do Outro, no qual se faz presente a falta, a incompletude. Em 1970, no Semin\u00e1rio 17 \u2013 O avesso da psican\u00e1lise, Lacan (1969-70\/ 1992) menciona uma \u201cmuta\u00e7\u00e3o capital [&#8230;] que confere ao Discurso do Mestre seu estilo capitalista\u201d (LACAN, (1969-70\/ 1992, p.160). Uma subvers\u00e3o no matema entre o significante e o sujeito, ser\u00e1 suficiente para constituir o que ele denominar\u00e1, em Televis\u00e3o (LACAN, 1974), Discurso do Capitalista \u2013 nesse discurso, o sujeito n\u00e3o se dirige a um Outro &#8211; como nos outros &#8211; mas ao objeto. Nessa nova forma de la\u00e7o, a rela\u00e7\u00e3o com o objeto \u00e9 privilegiada e promissora, pois extinguiria o mal-estar e faria existir a hipot\u00e9tica completude &#8211; a rela\u00e7\u00e3o sexual. No matema observamos que os objetos mais-de gozar <em>(a)<\/em> v\u00eam no lugar da produ\u00e7\u00e3o e, com um fr\u00e1gil anteparo da l\u00f3gica significante (S1 -&gt; S2), deixa o sujeito \u00e0 merc\u00ea dos objetos ($ &lt;- a). Isso indica que todo discurso que \u00e9 conectado no capitalismo, deixa de lado as coisas da falta, do amor. (LACAN, 1971-1972).<\/p>\n<p>Ao se referir ao amor, Lacan (1960-61\/1992) indica que \u201camar \u00e9 dar aquilo que n\u00e3o se tem, a algu\u00e9m que n\u00e3o o quer\u201d (p.122). Ainda que enigm\u00e1tico, esse axioma lacaniano resulta numa redund\u00e2ncia l\u00f3gica, visto que para amar, o sujeito precisaria reconhecer que h\u00e1 algo em si que falta e que supostamente estaria no outro. Isso quer dizer que se amo, assumo que algo me falta, que sou incompleto, ent\u00e3o endere\u00e7o a possibilidade de completude \u2013 atestando que h\u00e1 falta &#8211; ao outro que supostamente me completaria, dou aquilo que n\u00e3o tenho &#8211; a algu\u00e9m que n\u00e3o o quer\u2026<\/p>\n<blockquote><p>A atualidade, reflexo dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e cient\u00edficos, al\u00e9m de oferecer um consumo desenfreado, responde a um imperativo categ\u00f3rico: goze!, que pode ser lido como um empuxo ao gozo, com ou sem o Outro. No que concerne ao amor, ainda que atualmente haja tentativas do sujeito contempor\u00e2neo estreitar seus la\u00e7os com o objeto, retirando da cena o Outro, sabemos o qu\u00e3o solit\u00e1rio e mortificante \u00e9 o gozo sem ele (Outro), e como o amor se faz necess\u00e1rio para a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito. N\u00e3o nos esque\u00e7amos \u201cO que vem em supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual \u2013 que n\u00e3o existe \u2013 \u00e9 precisamente o amor.\u201d (LACAN, 1972-73\/1985, p.62).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ainda que s\u00f3 saibamos as consequ\u00eancias da atualidade no futuro, a experi\u00eancia cl\u00ednica anuncia o qu\u00e3o um \u201cnovo amor\u201d, uma nova forma de la\u00e7o tem sido fundamental para a sociedade atual, horizontalizada.<\/p>\n<blockquote><p>O novo amor da p\u00f3s-modernidade representa um novo tipo de humanismo, uma transcend\u00eancia laica. N\u00e3o morremos mais por grandes causas, mas morremos por quem nos toca de perto, por quem divide nossa vida no imposs\u00edvel do vazio das grandes causas [&#8230;] se antes o amor era tradi\u00e7\u00e3o e disciplina, hoje \u00e9 inven\u00e7\u00e3o e responsabilidade (FORBES, 2013, p1).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ainda que n\u00e3o se nas\u00e7a, viva ou morra do mesmo modo, n\u00e3o deixamos de amar. Mas, certamente, mudamos a nossa forma de fazer par com o Outro e com o objeto de satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o. \u00c9 esse um dos reflexos do discurso do capitalista, pois, se por um lado ele tende a objetifica\u00e7\u00e3o, a mortifica\u00e7\u00e3o e a aniquila\u00e7\u00e3o da falta, por outro, ratifica a castra\u00e7\u00e3o, favorece as novas formas de amar e de lidar com o indiz\u00edvel e ainda d\u00e1 provas que \u201ca rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d (LACAN, 1973\/ 2003, p. 454).<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BRODSKY, G. A loucura nossa de cada dia. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana <em>On-line<\/em> nova s\u00e9rie \u2013 Ano 04 \u2013 N\u00famero 12 \u2013 2013.<\/h6>\n<h6>FORBES, J. Um novo amor est\u00e1 no ar. Dispon\u00edvel em http:\/\/www.jorgeforbes.com.br\/br\/artigos\/um-novo-amor-esta-no-ar.html Acesso em 15 de setembro de 2020.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1953). Escritos. Fun\u00e7\u00e3o e Campo da fala e da linguagem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1960-1961). O Semin\u00e1rio, livro 8 &#8211; A transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970).\u00a0O semin\u00e1rio &#8211; Livro 17 \u2013 O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971-1972).\u00a0O semin\u00e1rio &#8211; Livro 19 &#8211; Ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972). \u201cO aturdito\u201d. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973).\u00a0O semin\u00e1rio &#8211; Livro 20 \u2013 Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1974). \u201cTelevis\u00e3o\u201d. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Glauco de Carvalho Morais Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia O mundo n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo e essa opini\u00e3o \u00e9 un\u00e2nime. N\u00e3o se nasce, vive ou morre do mesmo jeito que antes. 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