{"id":1905,"date":"2020-11-30T19:06:00","date_gmt":"2020-11-30T22:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1905"},"modified":"2020-11-30T19:06:00","modified_gmt":"2020-11-30T22:06:00","slug":"o-feminino-mais-ainda-banhado-a-luto-e-melancolia-des-fiando-pedacos-de-elena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2020\/11\/30\/o-feminino-mais-ainda-banhado-a-luto-e-melancolia-des-fiando-pedacos-de-elena\/","title":{"rendered":"O feminino, mais, ainda, banhado a luto e melancolia: des-fiando peda\u00e7os de Elena"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1868\" aria-describedby=\"caption-attachment-1868\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1868\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15-Joe-Webb-Selected-collages-image-asset-3.jpg\" alt=\"Joe Webb - Selected collages - image asset 3\" width=\"400\" height=\"557\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15-Joe-Webb-Selected-collages-image-asset-3.jpg 500w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15-Joe-Webb-Selected-collages-image-asset-3-216x300.jpg 216w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1868\" class=\"wp-caption-text\">Joe Webb &#8211; Selected collages &#8211; image asset 3<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Delza Eloy de Santana Gon\u00e7alves<\/h6>\n<h6>Aluna do Curso Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL\/IPB)<\/h6>\n<blockquote><p>\u201c I\u2019m sick with love<\/p>\n<p>Touch me<\/p>\n<p>I turn to water&#8230;\u201d<\/p>\n<h6>(Clifford &amp; Pinheiro, 2012)<\/h6>\n<\/blockquote>\n<p>A ep\u00edgrafe acima \u00e9 letra de uma can\u00e7\u00e3o, inspirada em um texto de Guimar\u00e3es Rosa, produzida especialmente para o document\u00e1rio Elena (2012). Dirigido pela mineira Petra Costa, \u00e9 um trabalho autobiogr\u00e1fico de tamanha sensibilidade, do qual selecionei peda\u00e7os para desdobrar a leitura de la\u00e7os que se d\u00e3o no relacionamento de tr\u00eas mulheres, marcados pela fratura da perda.<\/p>\n<p>Lacan (1972 \/ 2008) nos presenteou com a fineza de seu olhar para o Outro gozo, feminino, esse sem margem, que se lan\u00e7a \u00e0 imensid\u00e3o do infinito, que \u00e9 vida-beira-morte. Em <em>mais, ainda<\/em>, anuncia \u201cn\u00e3o se pode dizer que seja a vida, pois aquilo tamb\u00e9m porta a morte, a morte do corpo, por repeti-lo. \u00c9 de l\u00e1 que vem o <em>mais<\/em>, o em-corpo, o A <em>inda<\/em>\u201d (p. 12).<\/p>\n<p>\u00c9 no corpo que Elena experimenta, at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o, um mais, ainda. \u201c<em>T\u00f4 me vendo no vidro do trem. Nossa, como eu engordei em tr\u00eas dias. Que decad\u00eancia! Enquanto eu como, tenho vontade de nunca parar. Acabou, mas eu vou comer mais. Eu quero mais, eu fico pensando no que pode vir depois&#8230; mesmo sabendo que de certa forma n\u00e3o tem fim [&#8230;] Me sinto gorda e vazia<\/em>\u201d. A dor de Elena \u00e9 aguda e lateja na carne, um vazio invade o \u00edntimo de seu ser. Ela \u00e9 tomada por um redemoinho de afetos e n\u00e3o consegue sair, \u00e9 levada ao mais, ainda, para onde o gozo sem borda convoca ao nada.<\/p>\n<p>Freud (1917 \/ 1996) diferencia que, no luto, \u00e9 o mundo que se torna pobre e vazio, ao passo que, na melancolia, \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito que se concebe assim, \u2018decadente\u2019. O melanc\u00f3lico n\u00e3o fez o luto de sua perda, tampouco sabe o que perdeu, no entanto, identifica-se \u00e0 pura aus\u00eancia do objeto, do qual torna-se insepar\u00e1vel, enredado intrinsecamente \u00e0 sua sombra. Elena achava-se ausente de si mesma: \u201c<em>esse corpo t\u00e1 doente, a vida o fez totalmente doente; [&#8230;]<\/em> <em>eu vou me degradar e escorrer por esse ralo\u201d. <\/em>Penso, em contrapartida, que Elena achava-se t\u00e3o em si mesma, no real c\u00e1ustico, que a vida se tornara insuport\u00e1vel. O sem borda \u00e9 para dentro.<\/p>\n<p>Em <em>O Aturdito<\/em>, Lacan (1972 \/ 2003) nomeia \u201cdevasta\u00e7\u00e3o\u201d o que atravessa a rela\u00e7\u00e3o da menina com a m\u00e3e, de quem ela espera, em v\u00e3o, uma resposta para dar conta do <em>n\u00e3otodo<\/em> que lhe circunda. A m\u00e3e de Petra e Elena, por sua vez, confessa que, desde os 13 anos, ansiava morrer, via-se velha e tr\u00e1gica. <em>Um dia, sentada em frente ao espelho da penteadeira do seu quarto, ela<\/em> [a m\u00e3e] <em>faz um desenho, o desenho de sua tristeza. <\/em>\u00c9 o falho contorno das v\u00edsceras, que se desnudam do v\u00e9u, e escapa a\u00ed, onde o encontro com o real emana e ressoa. Elena se busca: <em>\u201cme olho no espelho [&#8230;]\u201d<\/em>; e o que se revela \u00e9 o gozo opaco: \u201c<em>[&#8230;] n\u00e3o vejo nada atr\u00e1s dos meus olhos\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Laurent (2012), em <em>A Psican\u00e1lise e a Escolha das Mulheres<\/em>, dedica um cap\u00edtulo \u00e0 priva\u00e7\u00e3o, conceito que Lacan desenvolve, ao longo de seu ensino, em contraponto ao masoquismo feminino de Freud. Discorre que n\u00e3o se trata de as mulheres serem masoquistas, mas de estarem ao abrigo da amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o, o que lhes permite, facilmente, n\u00e3o sem se devastar, dispor de si mesmas e de seus corpos para alcan\u00e7arem o Outro gozo, sem limite.<\/p>\n<p><em>\u201cVoc\u00ea l\u00ea para mim a hist\u00f3ria original, em que ela sofre para se tornar mulher, perde a voz e morre. A pequena sereia aceita passar pela dor de uma faca atravessando seu corpo, sangrando seu corpo, para ganhar pernas e assim dan\u00e7ar\u201d. <\/em>Nessa cena, Petra narra a interpreta\u00e7\u00e3o que a irm\u00e3 construiu em uma ocasi\u00e3o para designar a desventura da pequena sereia nos desfiladeiros de um fazer-se mulher. \u00c9 uma refinada percep\u00e7\u00e3o de Elena, que me remete \u00e0 Brousse (2019), em <em>Mulheres e Discursos<\/em>, ao sublinhar o sangue e as l\u00e1grimas enquanto os fluidos femininos por excel\u00eancia. Fa\u00e7o um for\u00e7amento, e apreendo que Elena dizia, peculiarmente, de seus pr\u00f3prios fluidos, seu embara\u00e7o na circunscri\u00e7\u00e3o de um gozo que lhe tomava violentamente. Ademais, Brousse prop\u00f5e que, na devasta\u00e7\u00e3o, \u00e9 um objeto que ocupa o lugar de significante mestre, e n\u00e3o um nome. Portanto, a ang\u00fastia grita ante um objeto n\u00e3o metaforizado, um objeto que denuncia o corte cru, des-velado.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio \u00e9 um retrato primoroso do processo de luto da diretora. <em>\u201cEu me vejo tanto nas suas palavras que come\u00e7o a me perder em voc\u00ea<\/em>\u201d. Treze anos mais jovem, ela estava com sete quando a irm\u00e3 consumou o suic\u00eddio. \u201c<em>Esse mist\u00e9rio, me sinto escura. Num escuro que nunca vai terminar\u201d<\/em> &#8211; trecho da carta que Elena deixou. Petra perde sua irm\u00e3, sua \u00fanica irm\u00e3, e seu espelho fr\u00e1gil de um fazer-se mulher irrompe em cacos. <em>\u201cSe ela me convence de que a vida n\u00e3o vale a pena, eu tenho que morrer com ela, eu tenho medo do que o tempo vai fazer comigo\u201d. <\/em>Pois bem: o tempo, as conting\u00eancias e sua gana, Petra, te possibilitaram fazer rachadura nas palavras, inventar um significante novo para o indiz\u00edvel da passagem ao ato de um grande amor.<\/p>\n<p><em>\u201cAs mem\u00f3rias v\u00e3o com o tempo, se desfazem, mas algumas n\u00e3o encontram consolo, s\u00f3 algum al\u00edvio nas pequenas brechas da poesia. Voc\u00ea \u00e9 a minha mem\u00f3ria inconsol\u00e1vel, feita de pedra e de sombra. E \u00e9 dela que tudo nasce, e dan\u00e7a\u201d. <\/em>Miller (2016), em<em> Un esfuerzo de poesia<\/em>, retoma a pung\u00eancia da palavra desvestida do comum. \u00c9 a\u00ed que habita a motriz de uma simboliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do inef\u00e1vel, que d\u00ea conta de revestir o insuport\u00e1vel do real da morte. Arrisco supor que a \u201cmem\u00f3ria inconsol\u00e1vel\u201d de Petra \u00e9 nuance de sua singularidade. O \u2018inconsol\u00e1vel\u2019, que n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de apagamento, mas de uma reconfigura\u00e7\u00e3o que vivifique o <em>falasser.<\/em><\/p>\n<p>Ao completar 21 anos, a m\u00e3e de Petra lhe diz <em>\u201cagora voc\u00ea est\u00e1 mais velha que a Elena\u201d<\/em>.\u00a0 Foi ao ultrapassar algo da identifica\u00e7\u00e3o com a irm\u00e3, que p\u00f4de, ent\u00e3o, <em>\u201csentir sua morte outra vez\u201d<\/em>, decantar a perda de um outro lugar, <em>\u201cde fora\u201d<\/em>. Suportou tomar dist\u00e2ncia do entrela\u00e7amento que a fazia uma s\u00f3 com a irm\u00e3. Ocorre aqui uma muta\u00e7\u00e3o, como assinala Freud (1917\/ 2006) no percurso do luto, que permite a Petra retomar o encantamento do mundo. Todavia, h\u00e1 um resto que escorre no sulco e n\u00e3o se apaga, o incur\u00e1vel, como aponta Miller (2011). Este d\u00e1 vida, em Petra, \u00e0 Elena.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio encerra embalado pela can\u00e7\u00e3o <em>\u201cI\u2019m sick with love, touch me, I turn to water&#8230;\u201d<\/em>. Estou doente de amor, toque-me, me torno \u00e1gua&#8230; (tradu\u00e7\u00e3o livre). Banhada na correnteza do luto, Petra entoa <em>\u201cme afogo em voc\u00ea, em Of\u00e9lias [&#8230;] Enceno a nossa morte&#8230; Para encontrar ar&#8230; Para poder viver\u201d.<\/em> O document\u00e1rio \u00e9 todo um encenar a morte, mas, tamb\u00e9m, um encenar os rebentos que pulsam das mem\u00f3rias-marcas dessas mulheres.<\/p>\n<p>Ao encenar a morte, \u201ca nossa morte\u201d, h\u00e1 um descolamento, Petra deixa de habit\u00e1-la e passa a lhe fazer visitas, em imers\u00f5es, pois, para se fazer uma travessia, sobretudo digna de um luto feminino por excel\u00eancia, \u00e9 imprescind\u00edvel, ainda, mergulhos nos confins da dor de existir. No mergulho-visita, h\u00e1 elabora\u00e7\u00e3o. Petra desfia n\u00f3s, separa perdas de perman\u00eancias, urge o incur\u00e1vel.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BROUSSE, M.-H. <em>Mulheres e Discursos<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa. 2019.<\/h6>\n<h6>CLIFFORD, M.; PINHEIRO, F. I turn to water. Trilha sonora original. 2012. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=c8Jp-2L3jww. Acesso em 14 set. 2020.<\/h6>\n<h6>ELENA. Dire\u00e7\u00e3o: Petra Costa. Produ\u00e7\u00e3o: Bernardo Bath; Julia Bock; Petra Costa; Sara Dosa; Fernando Meirelles; Caroline Onikute; Moara Passoni; Tiago Pavan; Tim Robbins; Daniela Santos. Brasil: Busca Vida Filmes, 2012. 80 min. Son., Color., 35 mm.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1917). Luto e melancolia. In: <em>A hist\u00f3ria do movimento psicanal\u00edtico: artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916).<\/em> Rio de Janeiro: Imago, 1996. p.245-263.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972). O aturdito. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 448-497<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972). <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. Do masoquismo \u201cfeminino\u201d \u00e0 priva\u00e7\u00e3o. In: <em>A psican\u00e1lise e a escolha das mulheres<\/em><strong>.<\/strong> Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012. p. 69-86.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A<em>. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos em Lacan: Entre o Desejo e o Gozo<\/em><strong>. <\/strong>Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. <em>Un esfuerzo de poesia<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2016.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Delza Eloy de Santana Gon\u00e7alves Aluna do Curso Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL\/IPB) \u201c I\u2019m sick with love Touch me I turn to water&#8230;\u201d (Clifford &amp; Pinheiro, 2012) A ep\u00edgrafe acima \u00e9 letra de uma can\u00e7\u00e3o, inspirada em um texto de Guimar\u00e3es Rosa, produzida especialmente para o document\u00e1rio Elena (2012). Dirigido pela mineira&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-1905","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-022","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1905","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1905"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1905\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1906,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1905\/revisions\/1906"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1905"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1905"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1905"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=1905"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}