{"id":1909,"date":"2020-11-30T19:09:00","date_gmt":"2020-11-30T22:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1909"},"modified":"2020-11-30T19:09:00","modified_gmt":"2020-11-30T22:09:00","slug":"ultrapassamos-os-28-minutos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2020\/11\/30\/ultrapassamos-os-28-minutos\/","title":{"rendered":"Ultrapassamos os 28 minutos"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1859\" aria-describedby=\"caption-attachment-1859\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1859\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/6-Eugenia-Loli-Enceladus-Pilgrims-2017.jpg\" alt=\"Eugenia Loli - Enceladus Pilgrims - 2017\" width=\"400\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/6-Eugenia-Loli-Enceladus-Pilgrims-2017.jpg 1024w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/6-Eugenia-Loli-Enceladus-Pilgrims-2017-300x250.jpg 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/6-Eugenia-Loli-Enceladus-Pilgrims-2017-768x640.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1859\" class=\"wp-caption-text\">Eugenia Loli &#8211; Enceladus Pilgrims &#8211; 2017<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Ricardo Gusm\u00e3o<\/h6>\n<h6>Participante do N\u00facleo de Psican\u00e1lise e Audiovisual do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/h6>\n<p>\u00c9 uma tarefa dif\u00edcil apontar quais fatores fazem com que sejamos atra\u00eddos pela narrativa de uma obra audiovisual, no entanto acho que a principal delas \u00e9 claramente a identifica\u00e7\u00e3o com os personagens ou, ao menos, com o universo ficcional. E este primeiro elo que ser\u00e1 decisivo para que o p\u00fablico assista ao filme at\u00e9 o final se d\u00e1 nos primeiros 28 minutos da trama, tempo reservado no roteiro para apresentar os personagens em seu cotidiano, algo que Joseph Campbell (1995, p.36) chamou de \u201cmundo cotidiano\u201d ou \u201cmundo comum\u201d ao apresentar as etapas da Jornada do Her\u00f3i.<\/p>\n<p>\u00c9 antes dos 28 minutos que Wesley Gibson, personagem de O Procurado (Wanted, 2008), nos \u00e9 apresentado vivendo uma vida sem nenhum glamour, na qual sofre com os abusos da sua chefe e com a trai\u00e7\u00e3o de sua namorada que transa com seu melhor amigo, tudo isso antes dele se tornar um assassino capaz de fazer com que balas fa\u00e7am curvas antes de atingirem o alvo. Tamb\u00e9m \u00e9 antes dos 28 minutos que conhecemos o jovem Donnie Darko (Donnie Darko, 2001) com suas crises de sonambulismo, bem antes de uma turbina de avi\u00e3o atingir o telhado do seu quarto e mudar toda a sua vida e das pessoas ao seu redor. Ap\u00f3s os 28 minutos, ocorre o chamado para a a\u00e7\u00e3o e a partir da\u00ed adeus normalidade, adeus mundo comum, tudo \u00e9 imprevis\u00edvel, tudo \u00e9 incerto. Os 28 minutos s\u00e3o o v\u00e9u que separa a nossa realidade da realidade ficcional.<\/p>\n<p>Aqui, no entanto, \u00e9 importante destacar que embora no cinema a m\u00e9dia dos 28 minutos seja seguida cronologicamente \u00e0 risca, ao transportar esse conceito para o mundo das s\u00e9ries, faz-se necess\u00e1rio ampli\u00e1-lo um pouco pelo pr\u00f3prio car\u00e1ter mais amplo do formato seriado. At\u00e9 mesmo quando o cinema toca no formato serial, com sequ\u00eancias como Harry Potter, Matrix e Vingadores, os 28 minutos est\u00e3o l\u00e1 em cada filme isoladamente, mas algumas vezes na forma de um filme inteiro, que dura cronologicamente muito mais que isso. No caso dos Vingadores (Avengers) que conta atualmente com quatro longas nos quais \u00e9 poss\u00edvel destacar este mundo comum nos 28 minutos iniciais de cada filme, podemos encontrar ainda o mundo comum dos intervalos. Pois, como nos mostra Lacan (1972\/ 2012, p. 79), o formato serial s\u00f3 \u00e9 dado pelo intervalo, e no caso da s\u00e9rie Vingadores, o intervalo tamb\u00e9m \u00e9 composto de filmes, nos quais vemos o mundo comum de cada um dos her\u00f3is isoladamente, com filmes como Homem de Ferro, Thor, Capit\u00e3o Am\u00e9rica, etc. E o mais curioso \u00e9 que ao encararmos cada um destes filmes como parte do mundo comum da s\u00e9rie Vingadores, teremos de assumir que cada um deles isoladamente possui tamb\u00e9m seu mundo comum nos primeiros 28 minutos, chegando pr\u00f3ximo de um fractal.<\/p>\n<p>E embora ningu\u00e9m procure assistir a um filme para ver duas horas de mundo comum, \u00e9 a partir deste mundo que \u00e9 comum tanto ao personagem quanto ao p\u00fablico, que nos permitimos sermos levados para terras distantes e situa\u00e7\u00f5es pelas quais jamais passamos e esperamos nunca passar, at\u00e9 por que o mundo comum \u00e9 confort\u00e1vel, aconchegante, seguro e familiar, como o sof\u00e1 no qual nos encontramos enquanto John Connor carrega sozinho a responsabilidade de vencer a Skynet e salvar toda a humanidade da extin\u00e7\u00e3o. O que ocorre ap\u00f3s os 28 minutos n\u00e3o \u00e9 para n\u00f3s, pois nossa vida se d\u00e1 inteiramente antes desse tempo, jamais recebemos uma carta de Hogwarts, jamais partimos para levar um anel maligno para ser destru\u00eddo em uma montanha, nossa vida segue a normalidade do dia que nascemos ao dia que morremos, sem desvios para conflitos surreais, assim como o Sol nasce todas as manh\u00e3s, ou ser\u00e1 que n\u00e3o?<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo empirista David Hume nada \u00e9 t\u00e3o certo assim e essa certeza que nos toma por completo em nossa vida cotidiana, certeza de que o Sol nascer\u00e1 todas as manh\u00e3s, como o exemplo usado pelo pr\u00f3prio autor (HUME, 1999, p.48), ou de que sempre ser\u00e1 seguro sair de casa para nossos trabalhos, ou para a nossa rotina, seja ela qual for (para usar um exemplo pr\u00f3ximo da situa\u00e7\u00e3o que estamos vivenciando com a pandemia) \u00e9 fruto do h\u00e1bito de observar que determinado fen\u00f4meno sempre ocorreu dentro daquele padr\u00e3o. No entanto um h\u00e1bito nada mais \u00e9 que um produto da mem\u00f3ria de eventos passados, e podemos at\u00e9 supor que tudo continuar\u00e1 ocorrendo seguindo este padr\u00e3o, mas n\u00e3o passar\u00e1 de uma especula\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o \u00e9 um atributo do passado garantir a normalidade do futuro, embora gostemos de pensar dessa forma a maior parte do tempo.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 que nos \u00faltimos meses ultrapassamos os nossos pr\u00f3prios 28 minutos, e agora, querendo ou n\u00e3o, temos uma longa jornada pela frente antes de retornarmos ao nosso adorado mundo comum. Deixamos o que nos era familiar para tr\u00e1s, nunca estivemos t\u00e3o longe do condado, como diria um certo hobbit, e mergulhamos em um desconfort\u00e1vel mundo de incertezas e perigos. A diferen\u00e7a \u00e9 que nada disso \u00e9 t\u00e3o glorioso na vida real. N\u00e3o h\u00e1 gl\u00f3ria quando o risco \u00e9 real, o isolamento \u00e9 real e n\u00e3o temos uma vis\u00e3o t\u00e3o clara do futuro quanto costum\u00e1vamos ter ou acredit\u00e1vamos que t\u00ednhamos se optarmos pelo ponto de vista de Hume. O que podemos fazer \u00e9 continuar lutando para que o problema que hoje nos cerca cause o menor dano poss\u00edvel a n\u00f3s e \u00e0 sociedade, para que no futuro tudo possa se ajustar, em um novo mundo comum, em novos primeiros 28 minutos.<\/p>\n<p>Ao atravessar o v\u00e9u da fic\u00e7\u00e3o nos deparamos com um estranhamento peculiar que vai ao encontro do Unheimliche freudiano, esse infamiliar que no meio de tantas formas de se manifestar aparece tamb\u00e9m naquilo que deveria estar do outro lado da tela, mas que transborda para o nosso cotidiano, e aparece para n\u00f3s como um objeto estranho que nos aterroriza, um objeto que n\u00e3o deveria estar ali, que contradiz a nossa normalidade, da mesma forma que no cinema de horror, o medo pode aparecer na forma de mortos que caminham, bonecos capazes de matar, ou visitantes vindos de outros planetas. Em nosso mundo algo est\u00e1 fora do lugar, as ruas ficaram mais vazias, o medo se manifesta a partir de um mal invis\u00edvel que pode nos encontrar a partir do que nos \u00e9 mais familiar, nossa fam\u00edlia e nossos amigos. E j\u00e1 n\u00e3o sabemos se ao ver aquele velho rosto conhecido, pelo qual nutrimos tanto carinho, podemos nos alegrar ou temos que temer um mal que se oculta sob a face daquilo que nos \u00e9 mais \u00edntimo. Tudo aconteceu muito r\u00e1pido, pouco tempo atr\u00e1s viv\u00edamos a tranquilidade de um mundo comum, agora parece que fomos transportados para O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), no qual a face do conhecido, pode esconder o que nos \u00e9 estranho. \u00c9 um cen\u00e1rio novo e por isso dif\u00edcil de lidar, mas se formos cuidadosos e pacientes aprenderemos juntos e nos adaptaremos a ele, para que em pouco tempo estejamos novamente no cen\u00e1rio conhecido, pr\u00f3ximos daqueles que amamos e sem a preocupa\u00e7\u00e3o de que um abra\u00e7o ou aperto de m\u00e3o possa trazer algo mais que o gesto de alegria de um reencontro.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CAMPBELL, J. <em>O Her\u00f3i de Mil Faces<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Cultrix\/Pensamento, 1995.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1919). <em>O Infamiliar\/Das Unheimliche<\/em>. Em: Obras incompletas. Minas Gerais: Aut\u00eantica, 2019<\/h6>\n<h6>HUME, D. Investiga\u00e7\u00e3o Acerca do Entendimento Humano. <em>In: Hume.<\/em> S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1999 (Os Pensadores)<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971-1972). <em>O Semin\u00e1rio, livro XIX:<\/em> &#8230; Ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Filmografia<\/strong><\/h6>\n<h6>CAPIT\u00c3O Am\u00e9rica: o primeiro vingador. Joe Johnston. EUA: Marvel Studios, 2011. 1 DVD (2h4m)<\/h6>\n<h6>DONNIE Darko. Richard Kelly. EUA: A Flower Films Productions: Adam Fields Productions: Gaylord Films, 2001. 1 DVD (1h48m)<\/h6>\n<h6>HARRY Potter. Chris Columbus; Alphonso Cuar\u00f3n; Mike Newell; David Yates; Heyday Films. Reino Unido, 2001-2010. 1 DVD<\/h6>\n<h6>HOMEM de ferro. Jon Favreau. EUA: Marvel Studios, 2008. 1 DVD (2h6m)<\/h6>\n<h6>MATRIX. Irm\u00e3s Wachowski. EUA: Austr\u00e1lia: Village Roadshow: Silver Pictures, 1999-2003. 1 DVD<\/h6>\n<h6>O ENIGMA de outro mundo: John Carpenter. EUA: Universal pictures: Turman-Foster Company, 1982. 1 DVD (1h49)<\/h6>\n<h6>O EXTERMINADOR do Futuro. James Cameron. EUA: Hemdale Film Corporation: Pacific Western Productions: Cinema 84, 1984. 1 DVD (1h48m)<\/h6>\n<h6>O PROCURADO. Timur Bekmambetov. EUA: Universal Studios: Spyglass Entertainment: Top Cow: Relativity Media, 2008. 1 DVD (1h50m)<\/h6>\n<h6>O SENHOR dos an\u00e9is: A sociedade do anel. Peter Jackson. EUA: WinNut Films: The Saul Zaentz Company, 2001. 1 DVD (3h48m)<\/h6>\n<h6>OS VINGADORES. Joss Whedon, Joe Russo, Anthony Russo. EUA: Marvel Studios, 2012-2019. 1 DVD<\/h6>\n<h6>THOR. Kenneth Branagh. EUA: Marvel Studios, 2011. 1 DVD (1h55m)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Gusm\u00e3o Participante do N\u00facleo de Psican\u00e1lise e Audiovisual do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia \u00c9 uma tarefa dif\u00edcil apontar quais fatores fazem com que sejamos atra\u00eddos pela narrativa de uma obra audiovisual, no entanto acho que a principal delas \u00e9 claramente a identifica\u00e7\u00e3o com os personagens ou, ao menos, com o universo ficcional. 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