{"id":1911,"date":"2020-11-30T19:15:58","date_gmt":"2020-11-30T22:15:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1911"},"modified":"2020-11-30T19:15:58","modified_gmt":"2020-11-30T22:15:58","slug":"edipo-histeria-e-neurose-sem-edipo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2020\/11\/30\/edipo-histeria-e-neurose-sem-edipo\/","title":{"rendered":"\u00c9dipo, Histeria e Neurose sem \u00c9dipo"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1861\" aria-describedby=\"caption-attachment-1861\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1861\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/8-Eugenia-Loli-Pleiadian-Surfer-2016-scaled.jpg\" alt=\"Eugenia Loli - Pleiadian Surfer - 2016\" width=\"400\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/8-Eugenia-Loli-Pleiadian-Surfer-2016-scaled.jpg 2560w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/8-Eugenia-Loli-Pleiadian-Surfer-2016-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/8-Eugenia-Loli-Pleiadian-Surfer-2016-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/8-Eugenia-Loli-Pleiadian-Surfer-2016-768x461.jpg 768w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/8-Eugenia-Loli-Pleiadian-Surfer-2016-1536x922.jpg 1536w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/8-Eugenia-Loli-Pleiadian-Surfer-2016-2048x1229.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1861\" class=\"wp-caption-text\">Eugenia Loli &#8211; Pleiadian Surfer &#8211; 2016<\/figcaption><\/figure>\n<h6>F\u00e1tima Sarmento<\/h6>\n<h6>Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise<\/h6>\n<p>O complexo de \u00c9dipo, assim como o lugar que Freud atribuiu ao pai, situam-se no \u00e2mago da experi\u00eancia anal\u00edtica. Isso levou Lacan, no seu primeiro ensino, a afirmar que \u201cn\u00e3o existe a quest\u00e3o do \u00c9dipo quando n\u00e3o existe o pai, e, inversamente, falar do \u00c9dipo \u00e9 introduzir como essencial a fun\u00e7\u00e3o do pai\u201d (LACAN, 1957-1958\/1998, p. 171). Vale destacar que Freud tinha uma concep\u00e7\u00e3o religiosa do Pai. Para ele, Deus era um substituto do Pai, acreditar em Deus era um reflexo da cren\u00e7a no Pai. A rela\u00e7\u00e3o entre o complexo paterno e a f\u00e9 em Deus era t\u00e3o estreita que Freud, desde a inven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, ao se debater com o decl\u00ednio da paternidade, atribuiu o nascimento da psican\u00e1lise ao decl\u00ednio das religi\u00f5es. De certa forma, h\u00e1 uma raz\u00e3o a ser considerada: se as neuroses se multiplicaram a partir da decad\u00eancia das religi\u00f5es, \u00e9 porque na falta do pai, como ponto de identifica\u00e7\u00e3o e sem o apoio das religi\u00f5es, s\u00f3 restou ao sujeito que se encontrava \u00e0 deriva fazer sintoma. Da\u00ed o sintoma neur\u00f3tico dizer respeito ao Pai.<\/p>\n<p>Aqui, podemos isolar um ponto que diz respeito ao seguinte: ao introduzir o pai na psican\u00e1lise, Freud introduziu tamb\u00e9m a psican\u00e1lise na religi\u00e3o. Por outro lado, Lacan deixa claro que o sentido sempre remete ao Nome-do-Pai, \u00e9 sempre religioso. Todo o esfor\u00e7o de Lacan foi tentar evitar que a psican\u00e1lise se transformasse em uma religi\u00e3o, j\u00e1 que ela tende a isso, caso a interpreta\u00e7\u00e3o s\u00f3 opere pelo sentido. Uma quest\u00e3o, ent\u00e3o, ser\u00e1 percorrida neste artigo: como sair do sentido garantido pelo discurso religioso e pela ci\u00eancia?<\/p>\n<h3><strong>\u00c9dipo e Histeria<\/strong><\/h3>\n<p>No texto <em>A psicologia das massas&#8230;<\/em>, Freud (1921\/1990) relacionou a identifica\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria com o pai, que exerce essa fun\u00e7\u00e3o pelo fato de ser merecedor do amor. Na perspectiva da teoria freudiana, o amor ao pai corresponde a salvar o pai, e era nessa dire\u00e7\u00e3o que Freud dirigia o tratamento. Ao se orientar pelo \u00c9dipo no atendimento com as hist\u00e9ricas, Freud cometeu equ\u00edvocos e isso pelo fato de que sua primeira formula\u00e7\u00e3o sobre o \u00c9dipo apresentava uma concep\u00e7\u00e3o evolucionista ao subordinar o desenvolvimento ps\u00edquico \u00e0 matura\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica do corpo. Assim, nesse primeiro tempo, o processo edipiano seguia uma inclina\u00e7\u00e3o \u201cnatural\u201d: a mulher deve dirigir-se ao homem e vice-versa. Em um segundo tempo, o \u00c9dipo passa a ser uma estrutura cujo correlato \u00e9 o complexo de castra\u00e7\u00e3o que, por sua vez, \u00e9 definido como se fosse ligado \u00e0 aus\u00eancia ou \u00e0 presen\u00e7a do falo. Vale dizer que a psican\u00e1lise s\u00f3 p\u00f4de avan\u00e7ar quanto \u00e0 teoria do \u00c9dipo e da castra\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o do falo como conceito.<\/p>\n<p>Ao tomar o \u00c9dipo como ponto de partida no tratamento de Dora, Freud (1905\/1972) insistiu no amor desta pelo Sr. K, empurrando-a para ele. Segundo Lacan (1951\/1998), isso decorre de um preconceito de Freud que se exprime com simplicidade no conhecido refr\u00e3o: \u201ctal como a linha para a agulha, est\u00e1 a menina para o menino\u201d.<\/p>\n<p>Vem da\u00ed a interpreta\u00e7\u00e3o err\u00f4nea de Freud de que o Sr. K \u00e9 o objeto de desejo de Dora. Para Lacan, Freud no primeiro momento n\u00e3o conseguiu identificar o que realmente interessava a Dora \u2013 instalar a Outra Mulher no lugar do saber. A hist\u00e9rica identifica-se com o homem enquanto portador do \u00f3rg\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o para gozar, mas para que a Outra mulher a prive dele. Assim, ela sustenta seu desejo perante o desejo do Outro como desejo insatisfeito e este \u00e9 seu modo de gozo. Ela goza de ser privada do gozo. \u00c9 a Outra quem goza como uma mulher em seu lugar. Ao supor \u00e0 \u201cOutra Mulher\u201d um saber sobre o gozo do homem, a hist\u00e9rica recusa o pr\u00f3prio corpo. Dizer que \u00e0 hist\u00e9rica s\u00f3 interessa outro sintoma \u00e9 o mesmo que dizer que ela recusa o corpo a corpo. Isso pressup\u00f5e que na histeria fica em suspenso a constru\u00e7\u00e3o de um corpo feminino. A relev\u00e2ncia do tratamento com Dora se deveu ao fato de que ela ensinou a Freud que era preciso ir al\u00e9m do \u00c9dipo. Se o \u00c9dipo se apresentou inicialmente a Freud como uma solu\u00e7\u00e3o, aqui ele se constituiu como um problema.<\/p>\n<p>Para Lacan, a estrutura de uma neurose \u00e9 essencialmente uma quest\u00e3o. O grafo do desejo \u00e9 o que melhor explora o territ\u00f3rio das perguntas e \u00e9 animado pelas quest\u00f5es: Que queres? Que sou no desejo do Outro? Essas quest\u00f5es v\u00e3o modalizando-se e na histeria se reduzem a: \u201cO que \u00e9 uma mulher? A pergunta \u00e9 sobre o desejo, sobre o feminino. O lado direito do grafo \u00e9 o das perguntas e o esquerdo \u00e9 o das respostas. Na neurose, a pergunta chega a colocar-se, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 desenvolvida j\u00e1 que o sujeito recorre ao curto circuito da fantasia para n\u00e3o se confrontar com o buraco enigm\u00e1tico do S (\u023a).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>Fig. 1 &#8211; .<\/strong> O grafo do desejo<\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1912\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/imagem_fatima_sarmento001.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/imagem_fatima_sarmento001.jpg 1066w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/imagem_fatima_sarmento001-300x281.jpg 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/imagem_fatima_sarmento001-1024x959.jpg 1024w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/imagem_fatima_sarmento001-768x719.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>Fonte:<\/strong> LACAN (1957-1958\/1998), o semin\u00e1rio, livro 5, p. 404.<\/h6>\n<p>Assim, na neurose, a resposta antecipada se p\u00f5e no n\u00edvel da fantasia para n\u00e3o chegar ao lugar onde a pergunta n\u00e3o tem resposta. Desse modo, a fantasia funciona para o sujeito como defesa para n\u00e3o o aproximar do lugar onde n\u00e3o h\u00e1 resposta. Na psicose, a estrutura da pergunta se aborta no primeiro n\u00edvel do grafo e, antes que a pergunta possa colocar-se, a resposta se faz presente no eixo especular.<\/p>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio 5<\/em>, Lacan (1957-1958\/1998) se serve do grafo para situar os tempos do \u00c9dipo. No piso inferior, temos uma etapa f\u00e1lica, primitiva, e muitas coisas podem a\u00ed se fixar \u2013 dist\u00farbios, perturba\u00e7\u00f5es e identifica\u00e7\u00f5es perversas. No segundo tempo, mais acima, \u201co pai interv\u00e9m como privador da m\u00e3e\u201d. No terceiro tempo, o pai interv\u00e9m como aquele que tem. \u00c9 a sa\u00edda do complexo de \u00c9dipo e esta sugere uma identifica\u00e7\u00e3o com o pai como Ideal do eu. Na histeria masculina, o pai n\u00e3o \u00e9 tomado como objeto de identifica\u00e7\u00e3o, mas como objeto de amor. Trata-se aqui do \u00c9dipo invertido. Para\u00a0 Lacan (1957-1958\/1998), fazer-se amar pelo pai consiste em passar, primeiramente, para a categoria de mulher, e a\u00ed estaria a forma da homossexualidade inconsciente que p\u00f5e o sujeito em uma situa\u00e7\u00e3o conflitante: por um lado, o retorno constante posi\u00e7\u00e3o homossexual em rela\u00e7\u00e3o ao pai; por outro, sua suspens\u00e3o, isto \u00e9, seu recalque em raz\u00e3o da amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o que essa posi\u00e7\u00e3o comporta. A identifica\u00e7\u00e3o da hist\u00e9rica com o pai vai dificultar sua posi\u00e7\u00e3o como mulher. Nas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, como veremos no desenho 2, a hist\u00e9rica est\u00e1 situada do lado do homem. Na histeria masculina, o homem vai situar-se do lado da mulher. \u00c9 importante salientar que, conforme Monribot (2019), o sujeito do inconsciente \u2013 do qual a hist\u00e9rica \u00e9 o paradigma \u2013 est\u00e1 sempre na vertente masculina seja qual for o sexo do sujeito em quest\u00e3o. A maternidade \u00e9 uma vers\u00e3o feminina do rep\u00fadio \u00e0 feminilidade. Uma mulher freudiana \u00e9 aquela que n\u00e3o tem (nesse caso, um p\u00eanis), mas ela pode opor-se a isso tornando-se aquela que tem (nesse caso, uma crian\u00e7a).\u00a0 Do ponto de vista freudiano, tornar-se m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 tanto uma realiza\u00e7\u00e3o da feminilidade, e sim um distanciamento dela. Ter um filho \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de uma promessa f\u00e1lica infantil feita na l\u00f3gica edipiana.<\/p>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>Fig. 2.<\/b> Quadro da sexua\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1913\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/imagem_fatima_sarmento002.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/imagem_fatima_sarmento002.jpg 400w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/imagem_fatima_sarmento002-291x300.jpg 291w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/h6>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s1\"><b>Fonte:<\/b> LACAN (1972-1973\/1985), o semin\u00e1rio, livro 20, p.105.<\/span><\/h6>\n<h3><strong>Neurose sem \u00c9dipo<\/strong><\/h3>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio 17<\/em>, Lacan (1969-1970\/1992) \u00e9 contra a ideia de p\u00f4r a identifica\u00e7\u00e3o com o pai como prim\u00e1ria, porque isso entra em contradi\u00e7\u00e3o com tudo o que a experi\u00eancia estabelece sobre a primazia da rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com a m\u00e3e.\u00a0 A prop\u00f3sito disso, Lacan (1938\/2003), desde 1938, ao situar o decl\u00ednio da imago paterna, j\u00e1 anunciava a possibilidade de patologias ligadas ao supereu materno sem media\u00e7\u00e3o, apontando desde a\u00ed para uma nova cl\u00ednica, para o mais arcaico da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito. Ainda que Lacan (1955-1956\/1985), no <em>Semin\u00e1rio 3<\/em>, tenha comentado a prop\u00f3sito da psicose de que algo do \u00c9dipo a\u00ed n\u00e3o se tenha completado, e tenha defendido que n\u00e3o existe neurose sem \u00c9dipo, no <em>Semin\u00e1rio 5 <\/em>(LACAN, 1957-1958\/1998), ele afirma que a experi\u00eancia levava a admitir que podia haver sujeitos que apresentassem neuroses em que n\u00e3o houvesse \u00c9dipo algum \u2013 ideia correlata ao supereu materno. Ali\u00e1s, nesse texto de 1938, Lacan mostra as dificuldades de sublima\u00e7\u00e3o diante dos gozos que se apresentavam desenfreados, articulando com o decl\u00ednio do pai as patologias ligadas ao supereu materno sem media\u00e7\u00e3o: como as toxicomanias, anorexias. Lacan ainda comenta, em 1938, sobre os problemas enfrentados pelo sujeito com as opera\u00e7\u00f5es de causa\u00e7\u00e3o, ou seja, dificuldades de alienar-se para produzir a separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda no <em>Semin\u00e1rio 5<\/em>, Lacan (1957-1958\/1998) assinala que \u00e9 justamente na fase pr\u00e9-edipiana que se instalam as perturba\u00e7\u00f5es que se produzem no campo da realidade. A\u00ed ele localiza, de um lado, as pervers\u00f5es e, de outro, as psicoses, admitindo que nos dois casos \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria que est\u00e1 em jogo e o campo da realidade aqui \u00e9 profundamente perturbado por imagens.<\/p>\n<p>Podemos pensar que, na atualidade, h\u00e1 uma nova forma de histeria, marcada pelos efeitos da ci\u00eancia sobre o corpo? Lacan (1977\/1981) em uma confer\u00eancia interroga:<\/p>\n<blockquote><p>Aonde foram parar as hist\u00e9ricas de antigamente, [&#8230;] como Anna O., Emmy Von N [&#8230;] que permitiram o nascimento da psican\u00e1lise? [&#8230;] O que aconteceu com os antigos sintomas? A histeria n\u00e3o se ter\u00e1 deslocado no campo social? A maluquice psicanal\u00edtica n\u00e3o a teria substitu\u00eddo? (p. 1).<\/p><\/blockquote>\n<p>Logo cedo, Freud identificou que o pai era o parceiro da hist\u00e9rica. Nesse sentido, a histeria, desde Freud, \u00e9 percebida como Dois: o sujeito hist\u00e9rico mais seu interpretante, que n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o Nome-do-Pai. Castro (2018) traz considera\u00e7\u00f5es interessantes para se pensar a histeria na atualidade. Para essa autora, o fato de a hist\u00e9rica hoje n\u00e3o tomar o pai como parceiro n\u00e3o significa que ela n\u00e3o fa\u00e7a algumas parcerias, assinalando que, na atualidade, o grande parceiro da hist\u00e9rica \u00e9 a ci\u00eancia.\u00a0 Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Lacan aproximou o discurso da hist\u00e9rica do da ci\u00eancia. Agora, n\u00e3o se trata mais do gozo da priva\u00e7\u00e3o articulado com a fantasia de suprir a falta paterna, mas de fazer valer uma priva\u00e7\u00e3o no real do corpo mediante, por exemplo, as cirurgias est\u00e9ticas. A autora ainda enfatiza que o corpo hist\u00e9rico hoje n\u00e3o atualiza mais o sintoma de um outro corpo, como vimos Dora fazer com o pai, mas utiliza seu corpo inteiro para tentar atingir o corpo d\u2019A mulher. Nessa dire\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma nova vers\u00e3o da recusa do corpo. Trata-se na atualidade de um corpo que, deixando-se cortar pela ci\u00eancia, faz a neurose adormecer. Uma histeria sem o Dois, sem o amor ao Pai, uma neurose sem \u00c9dipo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CASTRO, H. Neurose sem \u00c9dipo? <em>Revista Curinga<\/em>, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Belo Horizonte, n. 46, p. 61-69, 2018.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905). Fragmento da an\u00e1lise de um caso de histeria. In: FREUD, <em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/em>, v. 7. Rio de Janeiro: Imago, 1972.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1921). Psicologia das massas e an\u00e1lise do ego. In: FREUD, S. <em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/em>. v. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1990.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73). <em>O semin\u00e1rio, livro 20<\/em>: Mais, Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-1956). <em>O semin\u00e1rio, livro 3<\/em>: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-1958). A met\u00e1fora paterna. <em>In<\/em>: LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio, livro 5<\/em>: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1951). Interven\u00e7\u00e3o sobre a transfer\u00eancia. <em>In<\/em>: LACAN, J. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970). <em>O semin\u00e1rio, livro 17<\/em>: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1938). Os complexos familiares na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. <em>In<\/em>: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 29-90.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1977). Propos sur l\u2019hyst\u00e9rie: intervention de Jacques Lacan \u00e0 Bruxelles, 26 f\u00e9vrier 1977. <em>Quarto<\/em>, n. 2, p. 1-5, 1981. p. 1. Tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/h6>\n<h6>MONRIBOT, P. O rep\u00fadio \u00e0 feminilidade. <em>Revista Curinga<\/em>, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Belo Horizonte, n. 48, p.187-189, 2019.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e1tima Sarmento Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise O complexo de \u00c9dipo, assim como o lugar que Freud atribuiu ao pai, situam-se no \u00e2mago da experi\u00eancia anal\u00edtica. 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