{"id":1917,"date":"2020-11-30T19:19:26","date_gmt":"2020-11-30T22:19:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1917"},"modified":"2020-11-30T19:19:26","modified_gmt":"2020-11-30T22:19:26","slug":"o-delirio-da-tecnociencia-um-corpo-sem-substancia1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2020\/11\/30\/o-delirio-da-tecnociencia-um-corpo-sem-substancia1\/","title":{"rendered":"O del\u00edrio da tecnoci\u00eancia:  um corpo sem subst\u00e2ncia<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1876\" aria-describedby=\"caption-attachment-1876\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1876\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/23-Joe-Webb-Selected-collages-Placed.jpg\" alt=\"Joe Webb - Selected collages - Placed\" width=\"400\" height=\"507\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/23-Joe-Webb-Selected-collages-Placed.jpg 500w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/23-Joe-Webb-Selected-collages-Placed-237x300.jpg 237w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1876\" class=\"wp-caption-text\">Joe Webb &#8211; Selected collages &#8211; Placed<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Rog\u00e9rio de Andrade Barros<\/h6>\n<h6>Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e membro do Laborat\u00f3rio de Pesquisa em Psican\u00e1lise (LAPPSI\/UEFS).<\/h6>\n<p>Na cl\u00ednica, testemunhamos diariamente diversos arranjos que o ser de fala inventa para poder manter unidos os registros real, imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico, podendo dar consist\u00eancia ao seu corpo. \u00c9 a partir dos efeitos do choque do significante sobre a carne que a fabrica\u00e7\u00e3o do corpo n\u00e3o se permite pensar desarticulada da subjetividade de quem fala.<\/p>\n<p>O corpo, ele n\u00e3o \u00e9 dado pelo fato da biologia, neurologia ou gen\u00e9tica. Para a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, o corpo \u00e9 o que o ser de fala adora, \u201cporque cr\u00ea que o tem. Na realidade, ele n\u00e3o o tem, mas seu corpo e\u0301 sua \u00fanica consist\u00eancia, consist\u00eancia mental, e\u0301 claro, pois seu corpo sai fora todo instante\u201d, contudo, \u201cn\u00e3o se evapora\u201d (LACAN, 2007\/ 1975-1976, p. 150). Mais ainda: um corpo goza de si, dando provas de que para al\u00e9m da ordem simb\u00f3lica e da imagem que lhe permite um j\u00fabilo ortop\u00e9dico (LACAN, 1998\/1966a), h\u00e1 uma subst\u00e2ncia de gozo, da qual propriamente um tratamento anal\u00edtico n\u00e3o deixa de mirar.<\/p>\n<p>Em confer\u00eancia realizada para m\u00e9dicos, intitulada originalmente de <em>Psican\u00e1lise e Medicina<\/em>, Lacan (2001\/1966b) aborda a disjun\u00e7\u00e3o entre o gozo e saber, indicando que, mais al\u00e9m da cura para o seu sofrimento, aquilo que um paciente demanda ao seu m\u00e9dico aponta para uma falha epistemosom\u00e1tica. Isso implica dizer que a medicina pode at\u00e9 conhecer os limites do organismo e de suas fun\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o \u00e9 capaz de nomear o que um corpo quer.<\/p>\n<p>O lugar do m\u00e9dico, engendrado pelo discurso da cientificidade, encontra um percal\u00e7o, j\u00e1 que ele \u201c\u00e9 requerido em sua fun\u00e7\u00e3o de cientista fisiologista, mas [&#8230;] est\u00e1 submetido ainda a outros chamados\u201d (LACAN, 2001\/1966b, p. 10). Para al\u00e9m da cura, evidenciamos um pedido de reconhecimento como doente. A despeito dos protocolos (BRIOLE, 2009), a fala do paciente d\u00e1 a ver a dimens\u00e3o do gozo trazido com o adoecimento e sua rela\u00e7\u00e3o desarm\u00f4nica com o corpo pr\u00f3prio. A sua conduta m\u00e9dica, ao considerar a subjetividade daquele que fala, baliza-se entre a demanda de doente e o gozo do corpo (VIEIRA, 2002).<\/p>\n<p>Se uma orienta\u00e7\u00e3o lacaniana se vale do corpo vivo, em que algo do gozo pode se aparelhar com a ordem simb\u00f3lica e produzir a subjetividade, os avan\u00e7os tecnocient\u00edficos concebem a sua exist\u00eancia destitu\u00edda de qualquer cren\u00e7a. Trata-se do reducionismo organicista do corpo, onde a mente se cerebraliza, e a experi\u00eancia subjetiva se explica na atividade neuronal.<\/p>\n<p>O discurso cient\u00edfico contempor\u00e2neo, especialmente na sua conjun\u00e7\u00e3o com o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista (BRIOLE, 2013), se vale do pressuposto de um corpo mortificado, dessubjetivado. A sua produ\u00e7\u00e3o de saber, pautada sob a no\u00e7\u00e3o de um sujeito universal, deixa de lado o modo como, a partir do la\u00e7o poss\u00edvel, cada um, na sua particularidade sintom\u00e1tica, esquadrinha o estranho gozo do corpo atrav\u00e9s da palavra (MILLER, 2010).<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de cyborgs, como aponta Irizar (2016), homens maquinais, cuja mem\u00f3ria \u00e9 aquilo que o humaniza, nos mostra que o campo da linguagem, simb\u00f3lica, dotada de mist\u00e9rio e equ\u00edvoco, se pretende transcrever em biologia molecular, dessubstancializando o gozo do corpo, podendo ele mesmo ser recriado a despeito da vida. Podemos pensar que, na hist\u00f3ria e evolu\u00e7\u00e3o das tecnoci\u00eancias, se, em um primeiro momento, foi preciso objetificar o corpo, transformando-o num recept\u00e1culo da enfermidade a ser observado, hoje, o corpo-espet\u00e1culo da medicina transmuta o vis\u00edvel, assumindo um formato virtual. N\u00e3o se trata mais de um corpo esvaziado de gozo que se permite investigar sob a condi\u00e7\u00e3o de estar morto, mas de um novo corpo, hologr\u00e1fico, que se pretende infinito, ao negar a morte. Vida que, aqui, equivale ao arquivamento cerebral, mem\u00f3ria sin\u00e1ptica do que se pode reter da experi\u00eancia, como se ela fosse independente do corpo.<\/p>\n<p>\u201cAdeus ao corpo\u201d, como aponta Le Breton (2003), \u00e9 o aceno futurista da nova realidade, cuja materialidade gozoza \u00e9 superada pela virtualidade. A despeito do del\u00edrio das tecnoci\u00eancias em construir um super-humano, havendo, assim, superado a sua exist\u00eancia corporal, apartando para todo o sempre o gozo que \u00e9 obst\u00e1culo ao controle, o ser do humano persiste \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es, n\u00e3o desaparecendo. A despeito dos avan\u00e7os cient\u00edficos se pautarem no corpo como algo obsoleto, \u00e9 dele e nele que o ser de fala experimenta a vida. Assim, se a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 insepar\u00e1vel do corpo, ela \u00e9 tamb\u00e9m indissociada do desejo, do simb\u00f3lico, do gozo. \u201cSe algum dia essa situa\u00e7\u00e3o se modifica, ent\u00e3o o humano\u201d, de fato, \u201chaver\u00e1 sido superado\u201d (IRIZAR, 2016, p. 61).<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BRIOLE, G. La palavra, m\u00e1s all\u00e1 de la protocolizaci\u00f3n. <em>Colofon<\/em> \u2013 Bolet\u00edn de la Federaci\u00f3n Internacional de Bibliotecas de la Orientaci\u00f3n Lacaniana. n. 29, 2009.<\/h6>\n<h6>BRIOLE, G. Um real para o s\u00e9culo XXI. <em>Opc\u0327a\u0303o Lacaniana<\/em> &#8211; Revista Brasileira Internacional de Psicana\u0301lise, n. 65. Sa\u0303o Paulo: Edic\u0327o\u0303es Eolia: S\u00e3o Paulo, 2013.<\/h6>\n<h6>IRIZAR, L. <em>El cuerpo, extra\u00f1o<\/em>. Dos formas de entender el cuerpo: medicina y psicoan\u00e1lisis. Bilbao: Ediciones Beta III Milenio, 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966a). O est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu. Em: <strong>Escritos<\/strong>. (V. Ribeiro, trad.; pp. 96-103). Rio de Janeiro: Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966b). O lugar da psican\u00e1lise na medicina. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, 32:8-14, 2001.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976). <em>O semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LE BRETON, D. <em>Adeus ao corpo<\/em>: antropologia e sociedade. Campinas: Papirus, 2003.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. <em>Extimidad.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<h6>VIEIRA, M. A. O lugar da psican\u00e1lise na medicina &#8211; introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 uma confer\u00eancia de Jacques Lacan. <em>Cadernos do IPUB<\/em>, vol. VIII, n. 21 (Ci\u00eancia e saber no campo da sa\u00fade mental), pp. 115-114, 2002.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Uma primeira vers\u00e3o desse trabalho foi apresentada oralmente na Conversa\u00e7\u00e3o entre N\u00facleos, no \u00e2mbito do Curso Regular do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia, em 2019.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio de Andrade Barros Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e membro do Laborat\u00f3rio de Pesquisa em Psican\u00e1lise (LAPPSI\/UEFS). 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