{"id":1925,"date":"2020-11-30T19:29:23","date_gmt":"2020-11-30T22:29:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=1925"},"modified":"2020-11-30T19:29:31","modified_gmt":"2020-11-30T22:29:31","slug":"o-outro-que-segue-o-impossivel-de-dizer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2020\/11\/30\/o-outro-que-segue-o-impossivel-de-dizer\/","title":{"rendered":"O Outro que segue o imposs\u00edvel de dizer"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1860\" aria-describedby=\"caption-attachment-1860\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1860\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/7-Eugenia-Loli-On-the-Road-to-the-Akashic-Library-2018.jpg\" alt=\"Eugenia Loli - On the Road to the Akashic Library - 2018\" width=\"400\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/7-Eugenia-Loli-On-the-Road-to-the-Akashic-Library-2018.jpg 500w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/7-Eugenia-Loli-On-the-Road-to-the-Akashic-Library-2018-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1860\" class=\"wp-caption-text\">Eugenia Loli &#8211; On the Road to the Akashic Library &#8211; 2018<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Entrevista com Fernanda Otoni Brisset<\/h6>\n<h6>Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise<\/h6>\n<p><strong>Equipe Lapsus (EL):<\/strong><\/p>\n<p>O que a pr\u00e1tica anal\u00edtica <em>on-line<\/em>, alcan\u00e7ando a subjetividade da \u00e9poca pand\u00eamica, nos ensina sobre os princ\u00edpios da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana?<\/p>\n<p><strong>Fernanda Otoni<\/strong><\/p>\n<p><strong>Brisset (FOB):<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia est\u00e1 mudando a rotina do mundo, isto \u00e9 um fato!<\/p>\n<p>Passamos a experimentar, em tempo real, sem preparo pr\u00e9vio ou manual de instru\u00e7\u00e3o, uma desordem dos costumes, instalada em defesa a irrup\u00e7\u00e3o viral, que abriu o mundo \u00e0 uma esp\u00e9cie de muta\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social que hoje se faz mergulhado na tecnologia digital.\u00a0 A humanidade parece atravessar um umbral rumo a uma nova era onde a tela ser\u00e1 cada vez mais uma janela do la\u00e7o desse mundo.<\/p>\n<p>Muitas quest\u00f5es eclodem dessa nova era e alcan\u00e7am a pr\u00e1tica anal\u00edtica. Quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias do que se faz atrav\u00e9s de conex\u00f5es <em>on-line<\/em>, sem a presen\u00e7a dos corpos? O que se perde, o que se alcan\u00e7a? Quais s\u00e3o os limites e as possibilidades?<\/p>\n<p>Tal pergunta tamb\u00e9m se estende a diversos dom\u00ednios. Por exemplo, no campo da Educa\u00e7\u00e3o \u00e0 Dist\u00e2ncia (EaD): como transmitir, sem a presen\u00e7a dos corpos, as resson\u00e2ncias, ecos, mal-entendidos, chistes, caretas e equ\u00edvocos que participam do imposs\u00edvel de ensinar? \u00c9 um debate atual. O <em>home-office<\/em> substituir\u00e1 o trabalho presencial? Lembro da provoca\u00e7\u00e3o de Mario Goldemberg: com a quarentena, o sexo <em>on-line<\/em> seria um substituto \u00e0 altura para os celibat\u00e1rios? S\u00e3o perguntas que verificam a fun\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a dos corpos sempre que est\u00e1 em jogo a transmiss\u00e3o de um imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Parece que a pandemia nos faz constatar e nos ensina, mais do que antes, de que tem algo que se passa no mundo do falasser que, para acontecer, \u00e9 necess\u00e1rio uma naca de corpo&#8230; uma certa materialidade.<\/p>\n<p>O mundo pand\u00eamico for\u00e7a a psican\u00e1lise a se servir dos dispositivos <em>on-line<\/em> para prosseguir com a pr\u00e1tica anal\u00edtica quando as rela\u00e7\u00f5es, sob a forma dos corpos em presen\u00e7a, foram suspensas como resposta \u00e0 nova desordem mundial devido \u00e0 pandemia COVID-19.\u00a0 Foi num piscar de olhos a eclipse do instante de ver! Face \u00e0 exig\u00eancia sanit\u00e1ria do afastamento houve, em alguns casos e situa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, um deslocamento dos atendimentos presenciais para atendimentos <em>on-line<\/em>. Mas, quais seriam os limites e o alcance das sess\u00f5es anal\u00edticas na aus\u00eancia dos corpos f\u00edsicos do analisante e do analista?<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent (2018), na confer\u00eancia de Barcelona, aponta que \u201co analista n\u00e3o deve esquecer que n\u00e3o \u00e9 seu ser que move a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica<em>\u201d<\/em> (p. 55). Citando Lacan (1977\/1979), do Semin\u00e1rio 24, sublinha que \u201caquele que sabe \u00e9, na an\u00e1lise, o analisando e o analista entra a\u00ed como um Outro que segue (suit) (p. 18)\u201d.\u00a0 Ent\u00e3o, como segui-lo em tempos de pandemia? Como operar para tratar o imposs\u00edvel de suportar que essa situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita ativa? <em>Cada caso \u00e9 um caso<\/em> \u00e9 a resposta que salta da l\u00edngua, mas n\u00e3o basta concluir t\u00e3o rapidamente. \u00a0Cada caso \u00e9 um caso s\u00f3 e somente se garantirmos na experi\u00eancia, um por um e em cada sess\u00e3o, uma pr\u00e1tica sem <em>standard,<\/em> mas n\u00e3o sem princ\u00edpios, tal como \u00c9ric Laurent (2006) soube proferir, tornando evidente o que nossa experi\u00eancia \u00e9 testemunha:<\/p>\n<blockquote><p>A psican\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1tica da fala. Seus dois parceiros s\u00e3o o analista e o analisante, presentes a uma mesma sess\u00e3o psicanal\u00edtica. [&#8230;] Quando o analisante fala, ele quer, para al\u00e9m do sentido daquilo que diz, alcan\u00e7ar no Outro o parceiro de suas expectativas, cren\u00e7as e desejos. Ele visa o parceiro de sua fantasia. [&#8230;] O analista se abst\u00e9m de agir em nome dessa fantasia. [&#8230;] O la\u00e7o da transfer\u00eancia sup\u00f5e um lugar, o \u201clugar do Outro\u201d, que como diz Lacan n\u00e3o \u00e9 regulado por nenhum Outro espec\u00edfico. \u00c9 aquele no qual o inconsciente pode se manifestar na sua maior liberdade de dizer e, por tanto, de experimentar seus logros e dificuldades. [&#8230;] A experi\u00eancia da psican\u00e1lise n\u00e3o tem um protocolo t\u00e9cnico, a experi\u00eancia da psican\u00e1lise tem apenas uma regularidade: a da originalidade do cen\u00e1rio atrav\u00e9s do qual se manifesta a singularidade subjetiva. N\u00e3o sendo uma t\u00e9cnica se trata de um discurso que encoraja cada um a produzir a sua singularidade, sua exce\u00e7\u00e3o (s\/p).<\/p><\/blockquote>\n<p>Manter esses princ\u00edpios orientadores do ato anal\u00edtico \u00e9 a nossa orienta\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia anal\u00edtica nos ensina que a subst\u00e2ncia material conectada \u00e0 linguagem, <em>esse Um<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup><strong>[1]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>, se passa quando se fala e \u00e9 por essa via que falar a um parceiro participa da transmiss\u00e3o de um imposs\u00edvel de dizer. Cabe ao analista garantir a originalidade do cen\u00e1rio para que cada um possa, assim, manifestar sua singularidade subjetiva. O analista est\u00e1 ali como um Outro que segue <em>esse Um <\/em>que ressona e desliza sob rodinhas segundo a perspectiva do sinthoma de cada um.<\/p>\n<p><strong>EL:<\/strong><\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o do analista como um Outro que segue o esfor\u00e7o de dizer o indiz\u00edvel se modifica face ao uso da tecnologia?<\/p>\n<p><strong>FOB:<\/strong><\/p>\n<p>Certamente, a fun\u00e7\u00e3o do analista continua sendo a de sempre. Em um mundo Outro que descortina a cada dia o uso de novos recursos, a fun\u00e7\u00e3o do analista continua a ser, mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia, oferecer-se como uma presen\u00e7a, <em>semblant de objeto<\/em>, que numa parceria discreta segue o falasser no seu esfor\u00e7o em al\u00e7ar um saber fazer com sua falta a ser.<\/p>\n<p>Em tempos de pandemia, o que verificamos \u00e9 que a rotina do mundo que dava abrigo ao real se rompeu. A fantasia de um mundo familiar deu lugar a uma inquietante infamiliaridade que perdura. As refer\u00eancias cotidianas n\u00e3o servem mais de guia, as tabuletas ficaram ileg\u00edveis, e n\u00e3o h\u00e1 como assegurar o que ser\u00e1 o amanh\u00e3. Nesse cen\u00e1rio, o Outro tamb\u00e9m sofre muta\u00e7\u00e3o. Mais al\u00e9m do Outro que n\u00e3o existe, neste instante, o que concebemos como Outro, a saber o que concebemos como a rotina do <em>mundo<\/em>, rasga-se, esgar\u00e7a-se e se mostra, para todos e para cada um, sob a forma do que Lacan como o \u201cOutro rompido\u201d (LAURENT, 2006, p. 56).<\/p>\n<p>As estabiliza\u00e7\u00f5es ficcionais com as quais cada um erigiu sua defesa e teceu suas amarra\u00e7\u00f5es est\u00e3o perturbadas. A \u201cordem pr\u00e9via feita da rotina do discurso pelo qual as significa\u00e7\u00f5es se mant\u00eam, se evanesce\u201d (MILLER, 2011, s\/p). O gozo entra em disrup\u00e7\u00e3o. Mais do que nunca, a radicalidade de um Outro rompido eclode desse real e precipita em um <em>trou<\/em>, um furo, um vazio subjetivo que vibra perturbado pela instabilidade de <em>lal<\/em>\u00ed<em>ngua<\/em> face ao <em>troumatisme<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup><strong>[2]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>. O Outro est\u00e1 rompido e nesse v\u00e1cuo, \u201cno caminho do real, encontramos o Um, que \u00e9 o res\u00edduo da desconex\u00e3o\u201d (MILLER, 2007, p. 154)<em>,<\/em> da ruptura que adv\u00e9m como uma disrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente nessas situa\u00e7\u00f5es, tal como podemos ler em Lacan (1977\/1979), que a experi\u00eancia anal\u00edtica se mostra como um \u201cfazer de verdade\u201d (p. 18<em>)<\/em>, esclarecendo a fun\u00e7\u00e3o do analista. Se, por um lado, a disrup\u00e7\u00e3o de gozo coloca em evid\u00eancia o Outro rompido, por outro lado, o Um do gozo da\u00ed desalojado tensiona, for\u00e7a um <em>efeito-sentido<\/em>. Ele evoca o analista a um <em>fazer de verdade<\/em>, ou seja, como um Outro que segue o falasser em seu esfor\u00e7o de um <em>fazer novo<\/em> entre o Um, o furo e seu la\u00e7o. Instante em que esse imposs\u00edvel de apreender, qui\u00e7\u00e1, for\u00e7a a passagem mais al\u00e9m do trauma. For\u00e7a a passagem e <em>esse Um<\/em> se desliza de fic\u00e7\u00e3o a fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia anal\u00edtica, durante a pandemia, tendo a consider\u00e1-la como uma instala\u00e7\u00e3o port\u00e1til que se oferece como um dispositivo que pode ser acionado, segundo a forma e o tempo de cada um. Em alguns casos, guardar um intervalo pode ser preciso para manter a v\u00e1lvula da inconsist\u00eancia em funcionamento, l\u00e1 onde o Outro tende a consistir. Em outros casos, se um c\u00e1lculo ou por experi\u00eancia, sabemos que na aus\u00eancia da sess\u00e3o anal\u00edtica uma desamarra\u00e7\u00e3o se precipita, pois a parceria anal\u00edtica funciona ali como um fio conector do la\u00e7o social, o intervalo n\u00e3o pode se prolongar ao infinito. Para alguns outros, informar a suspens\u00e3o tempor\u00e1ria do atendimento e se colocar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o pode ser uma forma de estar ao lado, simplesmente, aguardando o uso que o falasser far\u00e1 do parceiro analista que o segue. Em todo caso, o analisante responde a seu modo \u00e0 oferta anal\u00edtica, e o analista o segue o em seu esfor\u00e7o de al\u00e7ar um dizer, um saber fazer que possa ancorar <em>esse Um<\/em> que subsiste fora da simboliza\u00e7\u00e3o<em>. <\/em><\/p>\n<p>Nesse universo vari\u00e1vel, a cl\u00ednica das amarra\u00e7\u00f5es demonstra sua plasticidade no tratamento do real e orienta o trabalho nesse tempo de desordem. Alguns decidem, ou tentam, de seguir qualquer coisa do trabalho anal\u00edtico atrav\u00e9s via conex\u00f5es telef\u00f4nicas e audio-visuais, uns chamam intermitentemente, outros aguardam a rotina voltar para retomar as sess\u00f5es, dentre outras eventualidades que surgem desse inusitado. O mundo mudou, mas o trabalho do sujeito continua sendo o de fazer com o furo que o constitui. A fun\u00e7\u00e3o do analista continua sendo a de instalar sua presen\u00e7a ao seu lado, como um Outro que segue, t\u00e3o um a um e t\u00e3o caso a caso, segundo os recursos materiais e, sobretudo, subjetivos do falasser seguindo sua originalidade sinthom\u00e1tica.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>EL:<\/strong><\/p>\n<p>Como pensar a presen\u00e7a do analista e do seu corpo nas sess\u00f5es <em>on-line<\/em>?<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>FOB:<\/strong><\/p>\n<p>Encontro no relato de alguns colegas uma orienta\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o da resposta a esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Florencia Shanadam, em seu texto <em>Modos de presen\u00e7a<\/em>, responde assim\u00a0:<\/p>\n<blockquote><p>\u00bfPodr\u00eda haber seguido en la vida si <em>\u00e9l<\/em> no me hubiese atendido por tel\u00e9fono todos los d\u00edas cuando mi madre y mi hermano murieron inesperadamente? No lo s\u00e9. \u00bfPodr\u00eda haber ido al encuentro del buen agujero si <em>\u00e9l<\/em> no me hubiese atendido por Skype, sosteniendo la mirada en la pantalla, diariamente por m\u00e1s de un mes, durante la traves\u00eda por la angustia m\u00e1s radical en el tiempo de la destituci\u00f3n subjetiva que dio paso al final? No lo creo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Avi Rybnik conta que uma de suas pacientes lhe surpreendeu ao dizer que:<\/p>\n<blockquote><p>Es m\u00e1s f\u00e1cil para m\u00ed hablar en an\u00e1lisis por tel\u00e9fono que en la cl\u00ednica con usted presente. Puedo atreverme a decir cosas que a veces me abstengo de decir en presencia\u201d. En ese momento comprend\u00ed que hab\u00eda un problema: \u00a1es demasiado f\u00e1cil! Elude algo de lo real, que Freud ya percibi\u00f3 y por ello abandon\u00f3 la hipnosis.<\/p><\/blockquote>\n<p>Com Ant\u00f4nio Di Ciaccia, encontrei resson\u00e2ncia quanto as raz\u00f5es para persistir na oferta anal\u00edtica, mesmo com o distanciamento dos corpos, posto que h\u00e1 uma aposta contida neste ato. Perguntaram a Di Ciaccia sobre a pr\u00e1tica anal\u00edtica em tempo de coronav\u00edrus e ele respondeu:<\/p>\n<blockquote><p>Traduzo Lacan de quem ainda recordo a voz.\u00a0 O que tem a ver com minha fun\u00e7\u00e3o de analista pude dizer aqueles que procuraram por mim que, ainda que seja \u00e0 dist\u00e2ncia, estou presente. E ele acrescenta: mas ainda tenho que dizer que, mais do que por eles, com frequ\u00eancia eles est\u00e3o preocupados comigo. N\u00e3o creio que seja porque sou parte da popula\u00e7\u00e3o preferida do coronav\u00edrus, mas porque \u00e9 isso que caracteriza a transfer\u00eancia: quando o Outro parece estar menos presente o sujeito a ele se agarra mais ainda.<\/p><\/blockquote>\n<p>Eis a\u00ed a fun\u00e7\u00e3o do analista, sua presen\u00e7a e corpo, mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia! Ser\u00e1 por vias assim que alguma fic\u00e7\u00e3o pode vir restaurar um certo saber fazer com esse Outro rompido. Solu\u00e7\u00f5es fora do <em>standard<\/em> se servem de recursos tecnol\u00f3gicos modernos, gambiarras, bem como objetos \u00e0 moda antiga.<\/p>\n<p>Nessa cl\u00ednica que se presentifica entre corpos a dist\u00e2ncia, modular o uso da voz, do olhar como presen\u00e7a real do analista, parceiro de gozo, torna-se primordial. A supress\u00e3o do encontro entre os corpos n\u00e3o suspende a transfer\u00eancia do <em>Um<\/em>. Do lado do analista, a oferta segue sem destituir-se do corpo, o que evoca a fun\u00e7\u00e3o do desejo do analista como causa irredut\u00edvel. Da libra de carne exigida, Lacan (1962-1964\/2005) insiste que \u201cconv\u00e9m lembrar que ela \u00e9 corpo e que somos objetais, o que significa que n\u00e3o somos objetos do desejo sen\u00e3o como corpo\u201d (p. 237).<\/p>\n<p>O que exige do analista um bom uso da heresia para evocar, com seu ato, o que reverbera, a partir desse insond\u00e1vel do ser, a favor de um la\u00e7o poss\u00edvel e seguindo a pol\u00edtica do sinthoma. Se o sinthoma porta a ortodoxia do Um, sempre o mesmo, a heresia est\u00e1 na forma como <em>esse Um<\/em> se enoda, e o analista \u00e9 um Outro que segue e diz sim ao modo como cada um enla\u00e7a o imposs\u00edvel de apreender ao RSI. \u00c9 quando a experi\u00eancia anal\u00edtica testemunha a voca\u00e7ao her\u00e9tica do gozo e, no campo das amarra\u00e7\u00f5es, v\u00ea ressoar a subvers\u00e3o necess\u00e1ria, mas sempre contingente, a favor do que \u00e9, do que h\u00e1, e insiste.<\/p>\n<p>Sigamos\u00a0!<\/p>\n<p>Tal aposta anal\u00edtica \u00e9 a nossa linha guia.<\/p>\n<p>Oxal\u00e1\u00a0!<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le s\u00e9minaire, livre XXIV: L\u2019insu que sait de l\u2019une b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre. Texto estabelecido por J.-A. Miller. Li\u00e7\u00e3o de 10 maio de 1977. In: Ornicar?, Paris, Navarin, n. 17-18, p. 18, 1979.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le s\u00e9minaire, livre XXIV: L\u2019insu que sait de l\u2019une b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre. Texto estabelecido por J.-A. Miller. Li\u00e7\u00e3o de 10 maio de 1977. In : Ornicar?, Paris, Navarin, n. 17-18, p. 18, 1979.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 10: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo, n. 79, julho\/2018.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. Princ\u00edpios Diretores do Ato Analitico, 2006. Dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/www.wapol.org\/pt\/miembros\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=5&amp;intEdicion=27&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=268&amp;intIdiomaArticulo=1. Acesso em 04 out 2020.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. L\u2019orientation lacanienne: L\u2019\u00catre et l\u2019um. Curso pronunciado no Departemento de Psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII. Li\u00e7\u00e3o de 23 de mar\u00e7o de 2011. (In\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. L\u2019orientation lacanienne: L\u2019\u00catre et l\u2019um. Curso pronunciado no Departemento de Psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII. Li\u00e7\u00e3o de 21 de mar\u00e7o de 2007. (In\u00e9dito).<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> A homofonia do \u201cesse Um\u201d nos remete ao S1.\u00a0 Lacan o soube dizer ao propor o conceito de <em>moterialit\u00e9<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Troumatisme \u00e9 um termo criado por Lacan (li\u00e7\u00e3o de 19\/02\/1974), a partir do jogo de palavras em franc\u00eas (trou \u2013 furo e traumatisme), que nos d\u00e1 a dimens\u00e3o do trauma como um buraco no interior do simb\u00f3lico.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Fernanda Otoni Brisset Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise Equipe Lapsus (EL): O que a pr\u00e1tica anal\u00edtica on-line, alcan\u00e7ando a subjetividade da \u00e9poca pand\u00eamica, nos ensina sobre os princ\u00edpios da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana? Fernanda Otoni Brisset (FOB): A pandemia est\u00e1 mudando a rotina do mundo, isto&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-1925","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-022","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1925","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1925"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1925\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1926,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1925\/revisions\/1926"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1925"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1925"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1925"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=1925"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}