{"id":2023,"date":"2022-02-04T16:05:52","date_gmt":"2022-02-04T19:05:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2023"},"modified":"2022-02-04T16:05:52","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:52","slug":"o-instituto-e-o-impossivel-de-ensinar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/o-instituto-e-o-impossivel-de-ensinar\/","title":{"rendered":"O Instituto e o imposs\u00edvel de ensinar"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2013\" aria-describedby=\"caption-attachment-2013\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2013\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/015-225x300.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cSilent Warrior\u201d\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/015-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/015.jpg 650w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2013\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cSilent Warrior\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Rog\u00e9rio Barros<br \/>\n<em>Diretor Geral IPB, Membro da EBP\/AMP<\/em><\/h6>\n<p>Frente ao imposs\u00edvel pand\u00eamico que o contexto <em>covid<\/em> nos imp\u00f5e, com medidas sanit\u00e1rias de distanciamento, agitam-se os corpos com a emerg\u00eancia de um real que ganha o semblante de um v\u00edrus, cujas leis a ci\u00eancia ainda pretende desvendar. Fomos, assim, acometidos por um real que se desaloja da natureza, a\u00ed mesmo onde o del\u00edrio da ci\u00eancia em escrever as suas leis no campo da biologia fracassa. Multiplicam-se as vozes autorit\u00e1rias do discurso cient\u00edfico j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o acreditadas como outrora. O <em>terraplanismo <\/em>e a <em>vacina que torna o sujeito comunista<\/em> nos d\u00e3o pistas de um certo desvario, organizado pela via da pura segrega\u00e7\u00e3o, j\u00e1 profetizada por Lacan (1967\/2003).<\/p>\n<p>Novas e velhas constru\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas, ora paranoicas, ora f\u00f3bicas, despontam como como solu\u00e7\u00f5es a este cen\u00e1rio incerto, podendo ser provis\u00f3rias ou n\u00e3o. N\u00e3o descartamos tamb\u00e9m as respostas de cont\u00e1gio hist\u00e9rico que inundam os nossos <em>Whatsapps<\/em> com <em>Fake News<\/em>.<\/p>\n<p>Estamos em uma nova ordem simb\u00f3lica, em que as normativas consagradas e organizadas atrav\u00e9s de um Nome do Pai simb\u00f3lico, falocentrado, abrem caminho para novas elabora\u00e7\u00f5es e possibilidades. \u00c9 especialmente nessa dire\u00e7\u00e3o que caminha o \u00faltimo ensino de Lacan, como sinaliza Laurent (2007) em <em>A sociedade do sintoma<\/em>: ao fracasso do pai, inventar um pai que sirva.<\/p>\n<p>O decl\u00ednio do Nome-do-Pai simb\u00f3lico acompanha a queda das grandes narrativas que estruturavam o campo social. Casamento, igreja, exercito, escola, universidade s\u00e3o alguns exemplos de institui\u00e7\u00f5es discursivas que passam por abalos estruturais significativos e que apresentam desafios para transmitir o seu saber, cuja finalidade \u00e9 dar um tratamento ao gozo, favorecendo a constru\u00e7\u00e3o de uma borda, contorno poss\u00edvel, litoral.<\/p>\n<p>A nova diretoria do IPB se serve daquilo que aprendeu com a diretoria anterior, que na conting\u00eancia da pandemia, sustentou o seu ensino de forma remota, reinventando as formas de la\u00e7o pautadas na transmiss\u00e3o dos fundamentos da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana nessas novas trincheiras virtuais. Como aponta Gabriela Dargenton (2017), no seu texto <em>Lalangue on-line<\/em>, publicado na revista <em>La cause do d\u00e9sir<\/em>, n\u00famero 97, a vida <em>on-line<\/em> nos permite captar as mudan\u00e7as de lal\u00edngua da civiliza\u00e7\u00e3o, que nos endere\u00e7a a uma transforma\u00e7\u00e3o profunda na pr\u00f3pria psican\u00e1lise, nos apresentando novos signos e novas formas de la\u00e7o. Reinventar o la\u00e7o, ent\u00e3o, \u00e9 a nossa aposta.<\/p>\n<p>Retomo o t\u00edtulo da interven\u00e7\u00e3o: <em>O Instituto e o imposs\u00edvel de ensinar<\/em>. Como \u00e9 poss\u00edvel notar, utilizo o conectivo l\u00f3gico matem\u00e1tico \u201ce\u201d que traz o sentido de simultaneidade, possibilidade de exist\u00eancia ao mesmo tempo. Esse conectivo difere de outro, \u201cou\u201d, que conecta duas afirma\u00e7\u00f5es carregando o sentido de que pelo menos uma delas seja verdadeira. Apostamos, assim, na simultaneidade da exist\u00eancia IPB e do imposs\u00edvel de ensinar, sendo essa mesma a b\u00fassola que causa o nosso ensino.<\/p>\n<p><strong>O Instituto<\/strong><\/p>\n<p>Afinal, o que \u00e9 o Instituto? Para responder a essa quest\u00e3o, precisamos retomar a funda\u00e7\u00e3o da Escola de Lacan.<\/p>\n<p>No ato de funda\u00e7\u00e3o, Lacan (1964\/2003), t\u00e3o sozinho como sempre esteve em sua rela\u00e7\u00e3o com a causa psicanal\u00edtica, d\u00e1 as diretrizes da Escola Francesa de Psican\u00e1lise. Seu objetivo \u00e9 reconduzir a pr\u00e1xis original e cortante inventada por Freud, garantindo o controle interno e externo por uma cr\u00edtica ass\u00eddua que denuncie os desvios e concess\u00f5es que amorteceriam os efeitos desta inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com esse ato, estabelece tr\u00eas se\u00e7\u00f5es para o funcionamento da Escola: 1. A Se\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise Pura, referente a pr\u00e1xis e doutrina da psican\u00e1lise propriamente dita, onde se incorporam as subse\u00e7\u00f5es Doutrina da psican\u00e1lise pura, Cr\u00edtica interna de sua <em>pr\u00e1xis<\/em> de forma\u00e7\u00e3o e a Supervis\u00e3o. 2. Se\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise Aplicada, que implica a extens\u00e3o da terap\u00eautica psicanal\u00edtica e sua aplica\u00e7\u00e3o a outros campos afins, como \u00e9 o caso a cl\u00ednica m\u00e9dica. 3. Se\u00e7\u00e3o de Recenseamento do Campo Freudiano, que faz a atualiza\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios que a pr\u00e1xis anal\u00edtica deve receber na tens\u00e3o com o discurso cient\u00edfico, favorecendo, nessa articula\u00e7\u00e3o, a comunica\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise e a garantia da recep\u00e7\u00e3o de inspira\u00e7\u00f5es complementares que outros discursos possam oferecer.<\/p>\n<p>O controle interno dos princ\u00edpios da psican\u00e1lise na Escola \u00e9 garantido pela primeira Se\u00e7\u00e3o, onde alojamos a forma\u00e7\u00e3o do analista, a supervis\u00e3o e a psican\u00e1lise did\u00e1tica. Por sua vez, as duas \u00faltimas se\u00e7\u00f5es inserem a Escola no campo da extens\u00e3o, cujo controle externo se faz na proximidade com os outros discursos, e especialmente o cient\u00edfico, seja na sua aplica\u00e7\u00e3o terap\u00eautica ou no ensino. Como afirma Bernardino Horne, consultor permanente do IPB, a extens\u00e3o aponta para a intens\u00e3o, ao passo que a intens\u00e3o aponta para a extens\u00e3o (RANGEL, 2014).<\/p>\n<p>Na Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro sobre o psicanalista da Escola, Lacan (1967\/2003) \u00e9 enf\u00e1tico ao indicar que o psicanalista s\u00f3 se autoriza a si mesmo. Isso implica dizer que n\u00e3o h\u00e1 um curso que certifique o seu of\u00edcio. Cabe a Escola garantir a sua forma\u00e7\u00e3o, o que retroage no efeito de que o analista deva se tornar respons\u00e1vel pelo progresso da pr\u00f3pria Escola. Lacan ainda sublinha a intens\u00e3o como sendo a did\u00e1tica da forma\u00e7\u00e3o do analista, que envolve a an\u00e1lise pessoal e supervis\u00e3o, e <strong>a <\/strong>extens\u00e3o como a fun\u00e7\u00e3o presentificadora da psican\u00e1lise no mundo.<\/p>\n<p>Podemos destacar algumas investidas de Lacan no campo da extens\u00e3o. Esse \u00e9 o caso da funda\u00e7\u00e3o do Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade de Paris-VIII, em 1968 e a anexa\u00e7\u00e3o, feita por Miller, com o apoio de Lacan, da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, no ano de 1977, cujo objetivo era o estabelecimento de um ensino que pudesse corresponder a uma defini\u00e7\u00e3o lacaniana da cl\u00ednica. Desejava-se, assim, estabelecer conex\u00f5es com os cursos e a pr\u00e1tica de apresenta\u00e7\u00e3o de enfermos dentro da universidade.<\/p>\n<p>Em 1979, Lacan cria o Campo Freudiano, um espa\u00e7o diferente daquele da institui\u00e7\u00e3o anal\u00edtica e da universidade, para a <em>difus\u00e3o<\/em> da psican\u00e1lise. Por \u00faltimo, temos a funda\u00e7\u00e3o, feita por Miller, do Instituto do Campo Freudiano em 1987, para desenvolver a tarefa de <em>ensino e investiga\u00e7\u00e3o<\/em> da psican\u00e1lise, podendo leva-la a outros pa\u00edses. \u00c9 nesse contexto que se insere o Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia.<\/p>\n<p>Como diferenciar, sob essas bases hist\u00f3ricas, a Escola do Instituto?<\/p>\n<p>A Escola mant\u00e9m o objetivo proposto pela Se\u00e7\u00e3o da Psican\u00e1lise Pura. Nela, busca-se responder ao que \u00e9 um psicanalista, contando com os dispositivos do cartel e do passe. A Escola \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica propriamente dita. Entretanto, a suposi\u00e7\u00e3o de saber que sustenta o discurso anal\u00edtico, ao qual a escola suporta, tende a fechar-se, se autodestruindo se n\u00e3o for confrontada com outros discursos, externamente.<\/p>\n<p>O Instituto, ent\u00e3o, assume a fun\u00e7\u00e3o de aguilh\u00e3o da Escola, pautado no saber exposto, fazendo barra ao mort\u00edfero da suposi\u00e7\u00e3o do saber. Como afirma Francisco Paes Barreto (2010), o Instituto \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o <em>parauniversit\u00e1ria<\/em> que abrange as se\u00e7\u00f5es da Psican\u00e1lise Aplicada e do Rescenseamento do Campo Freudiano, propostas por Lacan no seu Ato de Funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Miller (1998), em sua <em>Tese sobre o Instituto do Campo Freudiano<\/em>, indica que o saber exposto do Instituto faz barra ao saber suposto da Escola. No Instituto, prevalece a transfer\u00eancia de trabalho, ao passo em que na Escola, prevalece o trabalho da transfer\u00eancia. O Instituto volta-se, assim, ao matema, discurso sem palavras, para transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise e seu ensino, nas letras que o rigor epist\u00eamico, na sua proximidade com o discurso universit\u00e1rio, nos exige ao comunicar.<\/p>\n<p>No Instituto, o saber est\u00e1 com o cargo de comando, assim como o \u00e9 no discurso universit\u00e1rio. Isso implica que o saber predomina, o talento e o trabalho te\u00f3rico, a compet\u00eancia intelectual e a pesquisa. H\u00e1 no Instituto algo de at\u00f3pico, j\u00e1 que, pelo ensino dos fundamentos da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, ele tende a ser o mesmo em todo lugar do mundo. Nessa mirada, se a Escola se particulariza na tens\u00e3o com o Outro social, esposando os contornos da cidade, regi\u00e3o, pa\u00eds, o Instituto mant\u00e9m-se como um matema, maneira que Lacan encontra para comunicar as bases da psican\u00e1lise sob f\u00f3rmulas l\u00f3gicas, ao modo da matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Lembramos, por\u00e9m, que o Instituto \u00e9 <em>parauniversit\u00e1rio<\/em>. O seu prefixo \u201cpara\u201d, indica uma aproxima\u00e7\u00e3o, estar acerca de, n\u00e3o se confundindo com a universidade. Isso implica dizer que no Instituto, apesar do saber estar no comando, exposto nas transmiss\u00f5es dos ensinantes, h\u00e1 tamb\u00e9m espa\u00e7o para o efeito de sujeito, que, ao investigar sobre um tema, tamb\u00e9m paga com a libra de carne do seu sintoma na constru\u00e7\u00e3o daquilo pode transmitir. Assim, ao ensinar, estamos todos na posi\u00e7\u00e3o de analisandos, j\u00e1 que o saber \u00e9 furado e incompleto, dando provas de que a sua exposi\u00e7\u00e3o sup\u00f5e um sujeito que tenta transmitir.<\/p>\n<p>Os cursos, a aplica\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise \u00e0 terap\u00eautica, a apresenta\u00e7\u00e3o de casos cl\u00ednicos, os n\u00facleos de investiga\u00e7\u00e3o, as conversa\u00e7\u00f5es com o Outro social, s\u00e3o os meios basais atrav\u00e9s do qual o Instituto se faz vivo. Trata-se da extens\u00e3o da intens\u00e3o da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, pela via do saber exposto e do percurso investigativo, n\u00e3o sem contar com o rigor epist\u00eamico do retorno a Freud e Lacan em suas letras, onde encontramos os tra\u00e7os do esfor\u00e7o de comunicar algo do imposs\u00edvel que \u00e9, sempre, a experi\u00eancia com o indiz\u00edvel traum\u00e1tico, real.<\/p>\n<p><strong>Imposs\u00edvel de ensinar<\/strong><\/p>\n<p>Educar, governar e psicanalisar s\u00e3o os of\u00edcios imposs\u00edveis nomeados por Freud (1937\/1996) em <em>An\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel<\/em>. Na sua virada epistemol\u00f3gica da d\u00e9cada de 20, j\u00e1 tendo introduzido \u00e0 sua teoriza\u00e7\u00e3o o mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, o pai da psican\u00e1lise assinala que h\u00e1 sempre um resto pulsional que n\u00e3o atinge a satisfa\u00e7\u00e3o, retornando. Com efeito, apresenta os limites desses of\u00edcios frente a este resto, que est\u00e1 tanto na base da compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, quanto na inapreens\u00e3o ou absor\u00e7\u00e3o do rochedo da castra\u00e7\u00e3o. O sintoma persiste, apesar de analisado, e resta um saber fazer com ele, como nos indica Lacan, na sua releitura de Freud. H\u00e1 um limite na homeostase simb\u00f3lica, e isso se evidencia tamb\u00e9m no campo da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se Freud (1905\/1976) nos apresenta nos seus <em>Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade <\/em>que o investimento no mundo externo depende de uma lat\u00eancia da sexualidade, isso serve para ensinar que a base da educa\u00e7\u00e3o se encontra articulada a puls\u00e3o epistemof\u00edlica. Ou seja, isso se educa \u00e0 base de uma satisfa\u00e7\u00e3o desviada, substitutiva, por isso, sempre parcial. H\u00e1 uma sobra, resto imensur\u00e1vel que persiste, nos dando pistas de que h\u00e1 na puls\u00e3o um quanto sempre inciviliz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Destaco, ent\u00e3o, <strong>o poss\u00edvel<\/strong>, articulado a puls\u00e3o e seu circuito em Freud, e o imposs\u00edvel, articulado ao resto da opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que retorna, de onde, por exemplo, Freud depreende a necessidade de um analista retornar \u00e0 an\u00e1lise, j\u00e1 tendo chegado ao seu fim, de tempos em tempos.<\/p>\n<p>Retiro de Miller (2010), no seu curso <em>Extimidade<\/em>, uma passagem que nos serve para compreender o Campo Freudiano, onde se afiliam os diversos Institutos. Ele nos diz que a palavra campo faz refer\u00eancia a um campo de gravidade. Sobre o que orbita o Campo Freudiano? Em torno da Coisa freudiana.<\/p>\n<p>Ao apresenta-lo desse modo, Miller indica que h\u00e1 a\u00ed uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o harm\u00f4nica entre duas dimens\u00f5es: o campo e a Coisa. A coisa \u00e9 extima ao campo, apresentando-se fora. Entretanto, o neologismo extimidade indica tamb\u00e9m se tratar do mais \u00edntimo posto fora, em alteridade. A exist\u00eancia da Coisa, nesse sentido, depende do campo, que lhe d\u00e1 os limites conceituais, podendo disso extrair suas consequ\u00eancias, aproximando-a da comunica\u00e7\u00e3o e do ensino.<\/p>\n<p>Isso faz ver o fundamento lacaniano da psican\u00e1lise, tal qual Lacan (1958\/2003) formula em <em>A psican\u00e1lise verdadeira, e a falsa<\/em>. Ele diz: \u201ca psican\u00e1lise verdadeira tem seu fundamento na rela\u00e7\u00e3o do homem com sua fala\u201d (p. 173), podendo ser extendida atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o que tangencia, bordeia e faz c\u00edrculos ao redor de um furo. O real, inven\u00e7\u00e3o lacaniana para abordar o imposs\u00edvel, tamb\u00e9m apresentado ao longo dos seus semin\u00e1rios, sob os axiomas \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, \u201ca mulher n\u00e3o existe\u201d, \u201ch\u00e1 Um\u201d, \u201dUm pai\u201d, nos faz ver a sua orienta\u00e7\u00e3o ao <em>real mudo<\/em>, mas logicamente isolado na linguagem como <em>indiz\u00edvel<\/em>.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 atrav\u00e9s da linguagem e da escritura poss\u00edvel que temos pistas do real: a linguagem nos permite, assim, \u201ccoloc\u00e1-lo em quest\u00e3o\u201d (Ibid., p. 178). Nessa dire\u00e7\u00e3o, \u201cnenhum ensino fala do que \u00e9 a psican\u00e1lise\u201d (LACAN, 1967\/2003, p. 250), sendo ela mesma imposs\u00edvel de se enunciar, como pontua Lacan na <em>Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro<\/em>.<\/p>\n<p>Miller (2012) indica que o real \u00e9 sem lei. Trata-se de uma f\u00f3rmula contundente que indica que o real \u00e9 imposs\u00edvel de apreender, a despeito do esfor\u00e7o de toda a ci\u00eancia, sobretudo a ocidental, em diferenciar um eu cogniscente de um objeto pass\u00edvel de apreens\u00e3o. O real do inconsciente evidencia justamente a cegueira irredut\u00edvel do sujeito da ci\u00eancia, cujas inven\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais que semblantes de real, simulacros que nos permitem crer no discurso universit\u00e1rio em conjun\u00e7\u00e3o com o discurso capitalista.<\/p>\n<p><strong>De que se trata o real na psican\u00e1lise?<\/strong><\/p>\n<p>Com Freud (1900\/1969), o abordamos desde o umbigo do sonho. \u00c9 o imposs\u00edvel de interpretar do <em>Pai, n\u00e3o v\u00eas que estou queimando?<\/em>, ou mesmo na f\u00f3rmula da trimetilamina que se apresenta no sonho da inje\u00e7\u00e3o de Irm\u00e3, saindo de dentro da sua garganta, escrita para n\u00e3o ler. Sexualidade feminina e morte s\u00e3o destacadas por Freud como irrepresent\u00e1veis.<\/p>\n<p>Com Lacan, o real encontra-se localizado em um imposs\u00edvel l\u00f3gico, o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever na experi\u00eancia do sujeito que fala e goza de um corpo. Essa formula\u00e7\u00e3o, entretanto, se fez a partir dos caminhos pelos quais Lacan tenta incluir o real da psican\u00e1lise e seu modo de ensino no campo das ci\u00eancias.<\/p>\n<p>Tomo por refer\u00eancia o livro de Miquel Bassols (2015) intitulado <em>A psican\u00e1lise, a ci\u00eancia e o real<\/em>. Ele nos indica que na d\u00e9cada de 40, vemos Lacan pensar a psican\u00e1lise como uma ci\u00eancia da subjetividade, ao lado das ci\u00eancias sociais e da antropologia, posi\u00e7\u00e3o que se modifica na d\u00e9cada de 50, ao localiz\u00e1-la como ci\u00eancia conjectural, tentativa de romper com a divis\u00e3o entre as ci\u00eancias naturais e ci\u00eancias humanas. A psican\u00e1lise se aproxima, nesse momento, das ci\u00eancias da linguagem, per\u00edodo conhecido como estruturalista da psican\u00e1lise lacaniana.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 60, Lacan aproxima a psican\u00e1lise da l\u00f3gica matem\u00e1tica, com o desejo de conceber <em>uma ci\u00eancia do real<\/em>. Um desejo n\u00e3o t\u00e3o diferente daquele de Freud na constru\u00e7\u00e3o do <em>Projeto para os neurologistas<\/em>, abandonado posteriormente. Nesse momento, o matema \u00e9 oferecido por Lacan como possibilidade de transmiss\u00e3o integral no ensino, ainda que dependa sempre do discurso e da l\u00edngua partilhada para torn\u00e1-lo efetivo. O matema \u00e9 a idealiza\u00e7\u00e3o de um discurso sem palavras, que transmite algo com m\u00e1xima redu\u00e7\u00e3o do sentido, minimizando o mal-entendido da linguagem. Na d\u00e9cada de 70, Lacan afirma mais seguramente que a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia, que se trata de uma escroqueria, uma tagarelice que traz efeitos. Como isso, recorre a topologia para alojar o real, imposs\u00edvel de apreender, que n\u00e3o pode ser evocado ou manejado sen\u00e3o atrav\u00e9s da resson\u00e2ncia, apartada por completo da sem\u00e2ntica, mas manuseada nos n\u00f3s, tran\u00e7as, etc. Um esfor\u00e7o de poesia, um tratamento pelo significante que o aventa, sem lhe dar sentido.<\/p>\n<p>Nesse pequeno grande esse percurso realizado, que vai do imposs\u00edvel de apreender do real, passando pelo esfor\u00e7o <em>parauniversit\u00e1rio<\/em> de ensin\u00e1-lo atrav\u00e9s dos matemas, renovo o nosso interesse pela causa que nos faz gravitar. O poder dos imposs\u00edveis, como nos indica Lacan (1969-1970\/1992) no semin\u00e1rio 17, <em>O avesso da psican\u00e1lise<\/em>, longe de nos pregar na impot\u00eancia frente o real em jogo, oxigena a transitividade que nos permite aludir, bordejar, inventar. Nesse ano de trabalho que se inicia, que possamos, com as nossas rodinhas de barbante, fazer costuras poss\u00edveis, que vivifiquem o nosso desejo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BARRETO, F. P. O Instituto e a Escola. Em: <strong>Revista Almanaque On-line. <\/strong>Belo Horizonte: Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, v. 4, n. 6, 2010.<\/h6>\n<h6>BASSOLS, M. <strong>A psican\u00e1lise, a ci\u00eancia, o real<\/strong>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2015.<\/h6>\n<h6>DARGENTON, G. Lalangue on line. <strong>La Cause du D\u00e9sir<\/strong>: Internet avec Lacan. n, 97. 2017.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1900). A interpretac\u0327a\u0303o dos sonhos. Em: <strong>Edic\u0327a\u0303o standard brasileira das obras psicolo\u0301gicas completas de Sigmund Freud<\/strong>, Vol. IV e V, Rio de Janeiro, Imago, 1969.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905) Tre\u0302s ensaios sobre a teoria da sexualidade. Em: <strong>Edic\u0327a\u0303o Standard Brasileira das obras completas<\/strong>, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1937) An\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel. Em: <strong>Obras Completas de Sigmund Freud,<\/strong> Vol. XXIII. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958). A psican\u00e1lise verdadeira, e a falsa. Em: <strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964). Ato de funda\u00e7\u00e3o. Em: <strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1967). Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Em: <strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970).\u00a0 <strong>O semin\u00e1rio, livro 17<\/strong>: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. <strong>A Sociedade do sintoma<\/strong>: a psican\u00e1lise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Tese sobre o Instituto no Campo Freudiano. Em: <strong>Almanaque de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental<\/strong>. Belo Horizonte: Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, ano 1, n.1, p.3, nov.1998.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. <strong>Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do IX Congresso da AMP<\/strong>, 2012. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.congresamp2014.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Presentation-du-theme_Jacques-Alain-Miller.html.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. <strong>Extimidad<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<h6>RANGEL, M. L. Instituto, aguilh\u00e3o da Escola. Em: <strong>Lapsus. <\/strong>Salvador: Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia, n. 14, set., ano 2014.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio Barros Diretor Geral IPB, Membro da EBP\/AMP Frente ao imposs\u00edvel pand\u00eamico que o contexto covid nos imp\u00f5e, com medidas sanit\u00e1rias de distanciamento, agitam-se os corpos com a emerg\u00eancia de um real que ganha o semblante de um v\u00edrus, cujas leis a ci\u00eancia ainda pretende desvendar. 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