{"id":2029,"date":"2022-02-04T16:05:52","date_gmt":"2022-02-04T19:05:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2029"},"modified":"2022-02-04T16:05:52","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:52","slug":"o-que-ensina-a-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/o-que-ensina-a-psicanalise\/","title":{"rendered":"O que Ensina a Psican\u00e1lise?"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1999\" aria-describedby=\"caption-attachment-1999\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1999\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/001-225x300.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cDali with a liquified mustache\u201d\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/001-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/001.jpg 650w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1999\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cDali with a liquified mustache\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Daniela Souza Ara\u00fajo<br \/>\n<em>Associada do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/em><\/h6>\n<p>O que ensina a Psican\u00e1lise, sendo imposs\u00edvel ensinar um saber? A que se prop\u00f5em os psicanalistas quando se recusam, como parte do processo de forma\u00e7\u00e3o, a <em>ensinar<\/em> a Psican\u00e1lise? Tenho passado meses intrigada com essa provoca\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso dizer que iniciei minha jornada de forma\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise muito recentemente e que o lugar ocupado por seus transmissores tem sido, definitivamente, o de n\u00e3o ensinar um saber. Somou-se a esse meu desassossego reconhecer os psicanalistas que transmitem a Psican\u00e1lise nos semin\u00e1rios que frequento como sempre muito gentis, escutando atentamente nossos pedidos por significa\u00e7\u00e3o, acolhendo os furos despertados por meio de seus diferentes dizeres, e, mais ainda, respondendo-nos com o que chamo de respostas psicanal\u00edticas.<\/p>\n<p>Sim, respostas psicanal\u00edticas. \u00c9 como apelido a aus\u00eancia de confirma\u00e7\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o de algo que esperava receber ao me dirigir ao outro. \u00c9 a falta que transfiro e retorna sob a forma de enigma, me fazendo perceber um furo ainda maior do que eu imaginava possuir. Respostas psicanal\u00edticas me tiram a paz. Passo do \u00f3dio ao desejo, do desejo ao trabalho e s\u00f3 ent\u00e3o se abre um canal que parece tudo captar, que me faz deslizar de uma coisa \u00e0 outra, misturando surpresa, encantamento, horror, buracos e reconhecimentos, e que, frequentemente, provocam mais furos, e finalmente amor. De repente me parece que estou aqui pensando sobre um ensino que provoca efeitos de livre associa\u00e7\u00e3o e que opera a partir da transfer\u00eancia, como em uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 a proposta de ensino da Psican\u00e1lise a de operar como a \u00e9tica de sua pr\u00e1tica cl\u00ednica? Uma proposta de transmiss\u00e3o que d\u00e1 lugar de primazia \u00e0 enuncia\u00e7\u00e3o, ao equ\u00edvoco, \u00e0 indetermina\u00e7\u00e3o e ao singular, que \u00e9 oposta \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de um conhecimento generaliz\u00e1vel, \u00e9 tamb\u00e9m uma aposta no estilo. Ser\u00e1 o estilo a capacidade de transmitir a Psican\u00e1lise como arte? Leio Freud e Lacan e tenho essa impress\u00e3o sobre seus ensinos.<\/p>\n<p>Recorro \u00e0 Abertura desta colet\u00e2nea nos Escritos (1998). Referindo-se \u00e0 famosa cita\u00e7\u00e3o do Conde de Buffon (2011), proferida durante seu discurso na Academia Francesa, Lacan (1988: 9) introduz: \u201cO estilo \u00e9 o pr\u00f3prio homem\u201d. Ao nos propor aderir a essa f\u00f3rmula \u2013 \u201co estilo \u00e9 o pr\u00f3prio homem\u201d \u2013, Lacan (1988,9) nos provoca a antes questionarmo-nos: \u201co homem a quem nos endere\u00e7amos?\u201d. Esclarece em seguida que os textos reunidos nos Escritos foram organizados para \u201cesse novo leitor\u201d (1988, 10) da Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Ao estabelecermos que o estilo \u00e9 o homem a quem Lacan se dirige, corremos algum risco de nos identificarmos com esta certa identidade de homem, de leitor, aprendiz de um ensino? Bem, isso se desfaz rapidamente. Brincando e poetizando com as palavras de A carta roubada, ainda nos Escritos, Lacan subverte a no\u00e7\u00e3o de homem-identidade para a de sujeito e deixa entender que \u00e9 apenas ao sujeito do inconsciente que ele se dirige em seus Escritos. Parece se dirigir, desde a sa\u00edda, ao sujeito que se produz ao <em>final<\/em> de uma an\u00e1lise. Escancara seu desejo de que o estilo que o endere\u00e7amento dos seus textos imp\u00f5e leve o leitor a colocar algo de si. Colocar algo de si onde? No lugar da inconsist\u00eancia, da contradi\u00e7\u00e3o, da ambival\u00eancia, da fratura provocada pelo efeito da palavra.<\/p>\n<p>Um convite para que cada um coloque algo de si, de sua pr\u00f3pria poesia. A Psican\u00e1lise, pelos seus pr\u00f3prios fundamentos, n\u00e3o pode ser universalizada. Mas, ao transmiti-la como arte, parece-me que Freud e Lacan tornaram-na viva, imortal.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BUFFON, George-Louis L. <strong>Discurso sobre o Estilo<\/strong>. [s.n.] Covilh\u00e3: LusoSofia: press, 2011;<\/h6>\n<h6>LACAN, Jaques. <strong>Escritos<\/strong>.1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Souza Ara\u00fajo Associada do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia O que ensina a Psican\u00e1lise, sendo imposs\u00edvel ensinar um saber? A que se prop\u00f5em os psicanalistas quando se recusam, como parte do processo de forma\u00e7\u00e3o, a ensinar a Psican\u00e1lise? 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