{"id":2031,"date":"2022-02-04T16:05:52","date_gmt":"2022-02-04T19:05:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2031"},"modified":"2022-02-04T16:05:52","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:52","slug":"discurso-universitario-como-inibidor-ao-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/discurso-universitario-como-inibidor-ao-saber\/","title":{"rendered":"Discurso universit\u00e1rio como inibidor ao saber"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2017\" aria-describedby=\"caption-attachment-2017\" style=\"width: 226px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2017\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Editorial-226x300.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cBrain Tower\u201d\" width=\"226\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Editorial-226x300.jpg 226w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Editorial.jpg 528w\" sizes=\"auto, (max-width: 226px) 100vw, 226px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2017\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cBrain Tower\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Fernanda Brain<br \/>\n<em>Aluna Curso Regular IPB\/Bahia<\/em><\/h6>\n<p>Fui fisgada pela psican\u00e1lise mediante seu abrangente olhar para o ser humano e suas rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se tratava das fases do desenvolvimento, tampouco de comportamentos espec\u00edficos, mas sobre o saber atemporal do inconsciente (FREUD, 1975), de escutar o que est\u00e1 por tr\u00e1s das cenas coloridas que seduzem o olhar. Do enigma daquilo que n\u00e3o \u00e9 dito e parece ser imposs\u00edvel de compreender.<\/p>\n<p>O volume dos manuscritos da obra de Freud e a riqueza dos detalhes sobre o fluxo do seu racioc\u00ednio me impressionava e convidava a seguir acompanhando-o. O mesmo n\u00e3o aconteceu com os semin\u00e1rios de Lacan. Me irritava por n\u00e3o conseguir avan\u00e7ar diante de algumas passagens indecifr\u00e1veis. A leitura era demorada e quando seguia, ignorando alguns par\u00e1grafos, Lacan parecia retornar ao come\u00e7o do texto e desfazia o que havia dito. A impregna\u00e7\u00e3o do discurso universit\u00e1rio, me demandava absorver informa\u00e7\u00f5es objetivas, nas quais o di\u00e1logo com o interlocutor n\u00e3o era poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Ao atuar no \u00e2mbito hospitalar e posteriormente na cl\u00ednica, a psican\u00e1lise aplicada a terap\u00eautica ressoava no meu fazer. Seguia em an\u00e1lise, supervis\u00e3o e por uma s\u00e9rie de quest\u00f5es n\u00e3o consegui manter estudos mais sistem\u00e1ticos, atrelados a uma escola de psican\u00e1lise. O objetivo de ler toda a obra de Freud e os semin\u00e1rios de Lacan parecia estar cada vez mais inalcan\u00e7\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>Depois de alguns anos atuando em paralelo no hospital e na cl\u00ednica, a vontade de escrever a partir do que escutava e articulava com a teoria foi crescendo. Produzi textos para outros destinos que n\u00e3o fosse um evento de psican\u00e1lise. N\u00e3o me autorizava e sentia grande inibi\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o ter conseguido acumular conhecimento o bastante.<\/p>\n<p>Cheguei a pensar fazer mestrado para me sentir autorizada a escrever. Mas me sinto tolhida diante das normas cient\u00edficas. Gosto de escrever com met\u00e1foras, poesia e passagens em primeira pessoa. A ci\u00eancia poda este formato, exclui o sujeito.<\/p>\n<p>Recentemente, gra\u00e7as ao modelo <em>on line<\/em>, retornei ao curso regular no Instituto de psican\u00e1lise. Foi a partir das discuss\u00f5es sobre \u201co imposs\u00edvel de ensinar\u201d, que a forma como Lacan transmitiu o seu ensino, fez sentido para mim. Ele considerava o saber constru\u00eddo, mas n\u00e3o se prendia ao mesmo. Via cart\u00e9is, abria a possibilidade de conversa\u00e7\u00f5es nas quais o saber inconsciente poderia advir. Alertava aos seguidores que trilhava o <em>seu<\/em> percurso. Exercia a cl\u00ednica viva, do sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o (LACAN, 2006). Quando alcancei esta diretriz, me senti autorizada a escrever com minha ignor\u00e2ncia e algo da minha inibi\u00e7\u00e3o foi dilu\u00edda. Prevaleceu o desejo ao saber ao suportar o n\u00e3o saber.<\/p>\n<p>Se o ponto de partida para a pr\u00e1tica da cl\u00ednica de orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica \u00e9 o n\u00e3o saber, a resist\u00eancia dos aspirantes a psicanalistas ao se depararem com a vasta teoria pode estar associada ao sentido que os discursos universit\u00e1rio e capitalista d\u00e3o ao saber: consumo e dom\u00ednio. A submiss\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia psicanal\u00edtica \u00e9 descartada, assim como a valoriza\u00e7\u00e3o do singular. Tudanca (2008, p.94), constata que \u201cUm sujeito instalado no discurso universit\u00e1rio conhece perfeitamente a lei, mas esta \u00e9 inoperante em raz\u00e3o do lugar que ocupa\u201d, o lugar de objeto, o astudado segundo Lacan (2006), sem implica\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Garcez (2001) discute sobre o tempo em psican\u00e1lise na contemporaneidade. Aponta a pressa no acesso aos objetos de consumo como poss\u00edvel defesa neur\u00f3tica, atrav\u00e9s da qual n\u00e3o se conclui e impossibilita a emers\u00e3o de uma verdade. Ressalta a import\u00e2ncia do resgate \u00e0 singularidade como via para o tempo de cada um <em>versus <\/em>o tempo do Outro.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso revisitar os conceitos, observar as diretrizes, mas a compreens\u00e3o da Psican\u00e1lise \u00e9 atrelada ao percurso anal\u00edtico e \u00e0 escuta cl\u00ednica. Acontece na forma como o sujeito habita as palavras<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, faz conex\u00e3o com as conting\u00eancias e experi\u00eancias do sujeito. Este processo se d\u00e1 no tempo l\u00f3gico, que n\u00e3o \u00e9 considerado pela sociedade contempor\u00e2nea cujo empuxo \u00e9 produzir mais e com maior velocidade objetos para tamponar a falta inerente ao ser humano.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. O Inconsciente, In: <em>Edi\u00e7\u00e3o<\/em> <em>standart das obras completas de Sigmund Freud<\/em>. (Jayme Salom\u00e3o, trad., v.14, pp 191-248). Rio de Janeiro: Imago,1975.<\/h6>\n<h6>GARCEZ, M.M., COHEN, R.H.P Pondera\u00e7\u00f5es sobre o tempo em psican\u00e1lise e suas rela\u00e7\u00f5es com a atualidade, Psicologia em Revista, 2011.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>Meu Ensino<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.<\/h6>\n<h6>TUDANCA, L. \u2013 Discurso universit\u00e1rio. In: <em>Os objetos a na experi\u00eancia anal\u00edtica. <\/em>Rio de Janeiro: Contracapa, 2008.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003 Frase Luiz Felipe curso regular IPB 2021.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernanda Brain Aluna Curso Regular IPB\/Bahia Fui fisgada pela psican\u00e1lise mediante seu abrangente olhar para o ser humano e suas rela\u00e7\u00f5es. 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