{"id":2033,"date":"2022-02-04T16:05:52","date_gmt":"2022-02-04T19:05:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2033"},"modified":"2022-02-04T16:05:52","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:52","slug":"o-caderno-rosa-de-lori-lamby-e-a-letra-como-fixacao-de-gozo-pela-via-da-escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/o-caderno-rosa-de-lori-lamby-e-a-letra-como-fixacao-de-gozo-pela-via-da-escrita\/","title":{"rendered":"O caderno rosa de Lori Lamby e a letra como fixa\u00e7\u00e3o de gozo pela via da escrita"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2007\" aria-describedby=\"caption-attachment-2007\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2007\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/009-300x300.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cThe Armed Meiden\u201d\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/009-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/009-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/009.jpg 650w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2007\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cThe Armed Meiden\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Raquel Matias Correia Lima<br \/>\n<em>Associada do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/em><\/h6>\n<p>No livro de H. Hilst, composto pelo Caderno Rosa e o Caderno Negro (Hilda Hilst, 1990, O caderno rosa de Lori Lamby), temos a escrita de uma menina de oito anos, Lori, filha de um escritor, que diante da incapacidade deste em escrever um livro pornogr\u00e1fico, tomou para si tal faina, criando, ent\u00e3o, uma narrativa onde a conflu\u00eancia entre o pueril e o pornogr\u00e1fico n\u00e3o encontraram limites, apenas visam ao gozo da escrita.<\/p>\n<p>Lori (personagem do livro de Hilda) narra, em estilo de di\u00e1rio e com preciosismo de detalhes, uma hist\u00f3ria na qual \u00e9 oferecida sexualmente, pelos pais, a um \u201ctio\u201d, em troca de dinheiro e presentes sup\u00e9rfluos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma escrita que, por ser livre de censuras, deixa fluir o polimorfismo, ao passo que tamb\u00e9m funciona como uma tentativa de la\u00e7o com seu mundo, no qual Lori habita e descreve em seu di\u00e1rio, como sendo permeado por adultos intelectuais e bastante ensimesmados, que enaltecem a capacidade humana de uma escrita original, mas que ao mesmo tempo, n\u00e3o parecem integrar a menina, deixando-a sempre como uma espectadora, que recebe pouco cuidado no que tange a preserv\u00e1-la do que \u00e9 tratado nas conversas adultas.<\/p>\n<p>Lori, ao escrever um di\u00e1rio fict\u00edcio\u00b9, endere\u00e7a aos pais tanto uma suposta solu\u00e7\u00e3o para a impot\u00eancia do pai, quanto uma quest\u00e3o acerca da sexualidade: Vale tudo pela literatura, esse territ\u00f3rio onde toda fic\u00e7\u00e3o pode ser narrada?<\/p>\n<p>E ela pr\u00f3pria, num segundo tempo, responde para si, quando n\u2019<em>O caderno negro<\/em>, dirige-se ao editor do pai falando, entusiasmada, que tem muitas hist\u00f3rias infantis de sua autoria e que poderia escrever todo um caderno delas.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um momento da obra em que Lori j\u00e1 se posiciona como autora e se mostra decidida a tomar a escrita como uma via de satisfa\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o de si como Um, uma vez que essa escrita, enquanto letra, n\u00e3o seria usada como <em>semblant<\/em> e estaria rompendo com a fun\u00e7\u00e3o de encobrimento, que \u00e9 ess\u00eancia da ordem significante. Al\u00e9m disso, essa escrita de Lori rompe a cadeia significante do Outro. No caso dela, de um pai que repetidamente considerava literatura pornogr\u00e1fica como \u201cporcaria e bandalheira\u201d.<\/p>\n<p>Lori, com essa ruptura, transforma a corda que poderia estrangul\u00e1-la subjetivamente, naquela que a amarra e nomeia como uma autora infantil de \u201cbandalheiras\u201d, cujo teor \u00e9 marcado por uma escrita do <em>non sense<\/em>, do irrepresent\u00e1vel e imposs\u00edvel de se escrever. Ao mesmo tempo em que, ao fazer isso, n\u00e3o visa nenhum embate com os pais, o faz por pura satisfa\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m, por completo desconhecimento de qualquer impedimento para tanto. Faz o leitor crer que, percebe que ser uma escritora original \u00e9 um lugar autorizado, independente do teor daquilo que escreve.<\/p>\n<p>Lacan, no Semin\u00e1rio 23, pontua que o Nome-do-pai \u00e9 o detentor de uma lei, a lei do amor. Lori, durante o empenho em escrever um livro pornogr\u00e1fico, endere\u00e7ou-se tanto em nome de sua inc\u00f3gnita acerca da sexualidade e curiosidade sexual, quanto por tentar fazer um la\u00e7o com essa ins\u00edgnia paterna de amor absoluto \u00e0 literatura.<\/p>\n<p>O pai de Lori transmitiu esse amor \u00e0 filha, contudo sua impot\u00eancia, bem como (ao que se pode perceber, atrav\u00e9s do di\u00e1rio de Lori) sua sutil demiss\u00e3o, enquanto aquele que poderia exercer fun\u00e7\u00e3o de Nome-do-Pai, deixou a menina \u00e0 merc\u00ea de uma car\u00eancia simb\u00f3lica que pudesse tanto inscrever uma quest\u00e3o mais elaborada acerca da sexualidade, bem como uma interdi\u00e7\u00e3o acerca dos caminhos poss\u00edveis para acessar tal sexualidade.<\/p>\n<p>Desta forma, Lori, ainda sem saber como, lan\u00e7a-se ao gozo pela escrita, uma heran\u00e7a paterna, mas executada de forma singular, desligada da problem\u00e1tica f\u00e1lica.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 10, Lacan compreende o Falo como um significante do gozo, ligado a detumesc\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o sexual masculino, que Lori localiza como sendo a experi\u00eancia do pai diante da exig\u00eancia de escrever um livro pornogr\u00e1fico. Mas ela n\u00e3o se v\u00ea dentro dessa problem\u00e1tica f\u00e1lica, pois como diz Lacan (1962-1963 \/ 2005) \u201c\u00e0 mulher nada falta\u201d (p. 200), pois o sujeito feminino em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 detumesc\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o nada perde. Assim, Lori escreve <em>O caderno rosa<\/em>.<\/p>\n<p>Contudo, na escrita d\u2019<em>O caderno Negro<\/em>, Lori d\u00e1 uma virada: a escrita \u00e9 o falo por meio do qual ela se inscreve como Um, suportando a aus\u00eancia de significa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 sobre o que escreve, mas sobre si. N\u00e3o h\u00e1 uma quest\u00e3o a ser respondida. Permite-se que a escrita opere na dissocia\u00e7\u00e3o de seu corpo com seu ser, a escrita de uma menina de oito anos acerca de elementos pornogr\u00e1ficos em narrativas pueris, ou seja, que n\u00e3o busca uma ancoragem no campo das representa\u00e7\u00f5es, dos semblantes.<\/p>\n<p>Seria desta forma, ent\u00e3o, que Lori tomou a escrita como uma forma de sustentar-se enquanto Um? Criando um nome pr\u00f3prio para si, atrav\u00e9s do gozo pela via de uma escrita onde prevalecesse um fazer letra, o saber fazer com o real numa escrita que se reduz ao real da letra como sentido esvaziado, com S1s desencadeados, constituindo uma constela\u00e7\u00e3o de ins\u00edgnias, signos do gozo?<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>O Caderno Rosa de Lori Lamby \u00e9 um di\u00e1rio cujo teor fict\u00edcio s\u00f3 \u00e9 revelado <em>a posteriori<\/em>, n\u2019O Caderno Negro. O leitor percorre o livro sem saber se se trata de fic\u00e7\u00e3o ou se \u00e9 autobiogr\u00e1fico, confirmando que se trata de uma fic\u00e7\u00e3o apenas quando inicia o anexo, que \u00e9 O Caderno Negro. Al\u00e9m disso, \u00e9 importante salientar que foi escolhido para o presente trabalho a interpreta\u00e7\u00e3o de que os dois cadernos foram escritos por Lori, pois Alcir P\u00e9cora &#8211; estudioso da obra de Hilda Hilst &#8211; pontua que outra interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 de que os dois cadernos foram escritos pelo pai de Lori.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>BESSA, G. A escrita como \u201cum modelo \u00fanico para um assunto singular\u201d. Revista Curinga 46. Minas Gerais, EBP\/MG, 2016, 53-59.<\/h6>\n<h6>CORDEIRO, E e LUCHINA, M. O Inconsciente \u2013 do sentido do significante ao gozo da letra: um estudo lacaniano. Avances em Psicolog\u00eda Latinoamericana, vol. 35, n\u00fam. 3. Ros\u00e1rio, 2017, 583-600.<\/h6>\n<h6>HILST, H. Da prosa, O caderno rosa de Lori Lamby. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2018, 105-151.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio livro 10: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2005, 200.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio livro 23: o sinthoma, A escrita do ego. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2007, 139-151.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio livro 23: o sinthoma, Joyce, o sintoma, por Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2007, 157-165.<\/h6>\n<h6>P\u00c9CORA, A. Por que ler Hilda Hilst. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2005.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raquel Matias Correia Lima Associada do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia No livro de H. 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