{"id":2035,"date":"2022-02-04T16:05:52","date_gmt":"2022-02-04T19:05:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2035"},"modified":"2022-02-04T16:05:52","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:52","slug":"indespertavel-o-sonho-de-um-dizer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/indespertavel-o-sonho-de-um-dizer\/","title":{"rendered":"Indespert\u00e1vel &#8211; O sonho de um dizer"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2006\" aria-describedby=\"caption-attachment-2006\" style=\"width: 268px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2006\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/008-268x300.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cMechanical Silence\u201d\" width=\"268\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/008-268x300.jpg 268w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/008.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 268px) 100vw, 268px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2006\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cMechanical Silence\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Cassio Nery Dos Santos Ferreira<br \/>\n<em>N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise na Atualidade (NIPA)<\/em><\/h6>\n<p>\u00c9ric Laurent (2019), no texto <em>O despertar do sonho ou o esp d\u2019um desp<\/em>, traz uma quest\u00e3o para refletirmos: \u201co que h\u00e1 de novo na interpreta\u00e7\u00e3o do sonho?\u201d (s\/p). Nessa perspectiva, ele afirma sobre os seus pr\u00f3prios sonhos que, \u201ccontrariamente aos de Freud, eles n\u00e3o s\u00e3o inspirados pelo desejo de dormir. \u00c9 sobretudo o desejo de acordar que me agita\u201d (s\/p). O mesmo autor ainda cita Lacan (1972-1973\/1985), no semin\u00e1rio 20, onde generaliza a ideia de compreender o sonho como um instrumento de despertar.<\/p>\n<p>Nesse contexto, debru\u00e7o-me sobre algo que me chamou a aten\u00e7\u00e3o na sonoridade da palavra \u201cdespertar\u201d, atentando ent\u00e3o para o significante \u201cdizer\u201d, o qual fa\u00e7o uma rela\u00e7\u00e3o com o momento em que estamos vivendo, entrela\u00e7ando sonhar, despertar e o inesperado do real que surge com a pandemia. Desta maneira, algo despertou em mim o desejo de escrever e, nestas elucubra\u00e7\u00f5es, me deparei com outra quest\u00e3o: eu desperto? Foi atrav\u00e9s desse <em>insight <\/em>que comecei novamente a sonhar, agora, um novo sonho, neste instante, acordado!<\/p>\n<p>Enquanto Freud em sua pr\u00e1tica nos leva a considerar os fen\u00f4menos dos despertar no sonho, Lacan foi al\u00e9m e tentou nos despertar para outra coisa, que na verdade n\u00e3o deixamos de sonhar, mesmo quando acordamos, pois a realidade tamb\u00e9m \u00e9 um sonho, e n\u00f3s vivemos a sonhar. Logo, o despertar para Lacan \u00e9 da ordem do real, do acaso, do inesperado, algo que acontece, mas logo se esvai, e por isso algumas de suas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o citadas no texto de Laurent (2019) como: \u201cdespertamo-nos para continuar a sonhar\u201d; \u201cnunca nos despertamos\u201d, para nos fazer sonhar ainda mais, por\u00e9m, acordados.<\/p>\n<p>Portanto, se o real \u00e9 o verdadeiro despertar, podemos falar que esse encontro com o despertar \u00e9 parcial, ocasional, mas que tamb\u00e9m desperta para novos sonhos, visto que eles acontecem quando a barreira do sentido \u00e9 transposta. Ent\u00e3o, sonhar est\u00e1 para al\u00e9m do dormir ou acordar. O sonhar \u00e9 um despertar que desperta para novos sonhos.<\/p>\n<p>Para Laurent (2019), \u201c\u00e9 despertar tudo o que \u00e9 ultrapassagem, altera\u00e7\u00e3o, dano \u00e0 homeostase do princ\u00edpio do prazer que garante a vida\u201d (s\/p) e este \u00e9 tamb\u00e9m o princ\u00edpio do sentido. Podemos pensar nos cortes nas sess\u00f5es, nas cat\u00e1strofes, nos eventos inesperados que acontecem em nossas vidas, as conting\u00eancias, como despertares parciais. O que todos eles t\u00eam em comum? A quebra do sentido, o furo na cadeia significante de cada sujeito, a divis\u00e3o subjetiva daquele que antes estava em harmonia.<\/p>\n<p>Assim, a pandemia em que vivemos atualmente traz \u00e0 tona esse encontro com o real de cada um, diante de um inimigo invis\u00edvel, de uma amea\u00e7a ao equil\u00edbrio, de um n\u00e3o saber, de algo que barra o prazer, aquilo que n\u00e3o tem sentido algum, mas que est\u00e1 acontecendo. Em muitos, desperta o novo, mudan\u00e7as no modo de comer, de agir, de pensar, de se relacionar, enfim, algo que faz com que o sujeito caia da realidade ao trope\u00e7ar no real, podendo assim, tamb\u00e9m, inventar novas maneiras de sonhar novos sonhos, responsabilizando-se por suas escolhas.<\/p>\n<p>E se n\u00e3o h\u00e1 tempo certo para se despertar &#8211; se \u00e9 que se consegue isso -, o tempo verbal aqui tamb\u00e9m n\u00e3o importa. Logo, trago a voc\u00eas a minha quest\u00e3o inicial e a devolvo para que se perguntem: eu desperto? De esperto, nada tenho, mas ao dizer isso e me escutar, algo tocou, despertou. O significante \u201cdespertar\u201d em nossa l\u00edngua tem um som especial, pelo menos que me chamou a aten\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da associa\u00e7\u00e3o ao verbo \u201cdizer\u201d.<\/p>\n<p>Quando se conjuga o verbo na primeira pessoa do singular, o sujeito fala: eu desperto, no entanto, o som \u00e9 de um \u201ceu disperto\u201d, um \u201ceu-diz-perto\u201d, um eu que diz perto, um dizer pr\u00f3ximo de algo, uma fala que se aproxima daquilo que se quer falar, mas que n\u00e3o se consegue, pois, como sabemos, n\u00e3o se pode falar tudo: o real \u00e9 indiz\u00edvel. Na an\u00e1lise, esses despertares podem ser observados tanto nos efeitos terap\u00eauticos, quanto em retifica\u00e7\u00f5es subjetivas, quando os analisantes passam a ter <em>insigths<\/em>, mudando o discurso. \u00c9 quando conseguem se escutar melhor, ou seja, dizer-perto, tamb\u00e9m \u00e9 dizer para si, se escutar, despertar, diz-pertar!<\/p>\n<p>Nesse sentido, despertar \u00e9 uma forma de se aproximar do real, deixando por alguns instantes o gozo da realidade, do princ\u00edpio do prazer, \u00e9 dizer at\u00e9 aqui, at\u00e9 certo ponto, at\u00e9 onde se encontra sentido. Ent\u00e3o, esse despertar, como diz Laurent (2019) \u00e9 parcial, para continuarmos a sonhar o sonho da realidade. Pois o real \u00e9 indiz\u00edvel, assustador, e para muitos, um pesadelo.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de dizer sobre o sonho, deixo algo que me fez quest\u00e3o e que pode fazer um paralelo com o imposs\u00edvel do real, a ideia do sonho-de-um-dizer! O sujeito desperta, parcialmente, mas, \u00e9 preciso dormir, sonhar, fantasiar e, assim, a cor dar \u00e0 pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Estar\u00edamos, ent\u00e3o, vivendo o sonho-de-um-dizer? Um indespert\u00e1vel? \u00c0s vezes, nos assustamos com uma conting\u00eancia. Despertamos, mas logo voltamos a dormir e sonhar, a tentar dizer. E talvez nunca digamos.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73) <em>O Semin\u00e1rio, Livro 20<\/em>: Mais, Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. (2019). <em>O despertar do sonho ou o esp d\u2019um desp<\/em>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/articulos.php?sec=el-tema&amp;sub=textos-de-orientacion&amp;file=el-tema\/textos-de-orientacion\/19-09-11_el-despertar-del-sueno-o-el-esp-de-un-sue.html. Acesso em 03 out. 2020.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cassio Nery Dos Santos Ferreira N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise na Atualidade (NIPA) \u00c9ric Laurent (2019), no texto O despertar do sonho ou o esp d\u2019um desp, traz uma quest\u00e3o para refletirmos: \u201co que h\u00e1 de novo na interpreta\u00e7\u00e3o do sonho?\u201d (s\/p). 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