{"id":2037,"date":"2022-02-04T16:05:52","date_gmt":"2022-02-04T19:05:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2037"},"modified":"2022-02-04T16:05:52","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:52","slug":"docil-aos-ditos-e-ao-dizer1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/docil-aos-ditos-e-ao-dizer1\/","title":{"rendered":"D\u00d3CIL AOS DITOS E AO DIZER<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2003\" aria-describedby=\"caption-attachment-2003\" style=\"width: 197px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2003\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/005-197x300.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cGravity\u201d\" width=\"197\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/005-197x300.jpg 197w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/005.jpg 650w\" sizes=\"auto, (max-width: 197px) 100vw, 197px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2003\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cGravity\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Daniela Nunes Araujo<br \/>\n<em>Associada ao IPB<\/em><\/h6>\n<p>Como num tempo de compreender, come\u00e7o afirmando que trago aqui algumas reflex\u00f5es, iniciais, que tangenciam a inf\u00e2ncia, para entrar na conversa acerca da quest\u00e3o trans, t\u00e3o atual. Seria ela uma nova face do malestar? Como situamos a crian\u00e7a no processo [decis\u00f3rio] de mudan\u00e7a de sexo? De interven\u00e7\u00f5es poss\u00edveis por\u00e9m t\u00e3o tempranas no corpo? Quais as repercuss\u00f5es ps\u00edquicas da entrada cada vez mais cedo no ritmo de bloqueadores e terapias hormonais, qu\u00edmicas e cirurgias? Podemos afirmar que vivemos uma passagem do triunfo da religi\u00e3o para o triunfo da ci\u00eancia; esta, mantendo a inf\u00e2ncia [n\u00e3o mais a crian\u00e7a apenas] como objeto a servi\u00e7o da l\u00f3gica e do discurso capitalista?<\/p>\n<p>Miller (2021) provoca com a tem\u00e1tica da docilidade ao trans e aqui deslizo para a docilidade aos ditos e ao dizer, da crian\u00e7a. Para Lacan (1972-73), \u201cque se diga fica esquecido detr\u00e1s do que se diz no que se ouve\u201d (p. 26). De que se trata, portanto, quando crian\u00e7as s\u00e3o ditas trans [e suas deriva\u00e7\u00f5es] por outros? De que se trata quando crian\u00e7as se dizem trans? Quem as tem escutado? Que se escuta delas? Que se faz com o que se escuta das crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Clotilde Leguil (2016) sinaliza que se o g\u00eanero pode ser tomado para al\u00e9m das normas, excedendo-as, ou mesmo fora delas, deve-se ao fato dele ser da ordem de uma interpreta\u00e7\u00e3o singular de cada sujeito acerca do seu ser sexuado. Ele se inscreve de maneira singular na hist\u00f3ria de cada um e justo pelo fato dele se remeter \u00e0s conjunturas primordiais do sujeito, \u00e0 sua <em>marca de fabrica\u00e7\u00e3o<\/em>, diferen\u00e7a absoluta, n\u00e3o se configura como uma obriga\u00e7\u00e3o a cumprir com imposi\u00e7\u00f5es sociais. Mas quem foi mesmo que disse que o que uma crian\u00e7a fala deve ser tomado ao p\u00e9 da letra?<\/p>\n<p>Agn\u00e8s Aflalo (2021) lembra que frente ao sofrimento da crian\u00e7a, suas queixas devem ser escutadas, por\u00e9m interpretadas. Faz-se necess\u00e1rio responder \u00e0 crian\u00e7a e fazer ressoar a causa inconsciente dos sintomas. Essa causa \u00e9 feita com palavras, com imagens, mas tamb\u00e9m com um gozo que \u00e9 paradoxal, uma vez que, ao mesmo tempo que satisfaz, faz sofrer. Quando se escuta, portanto, e se responde de boa maneira, constata-se que uma crian\u00e7a pode construir um novo equil\u00edbrio. Ela ainda destaca que, justo por isso, muitas crian\u00e7as [rotuladas em sua maioria com o diagn\u00f3stico de disforia de g\u00eanero] podem vir a prescindir da tecnologia cient\u00edfica, dado que quase 90% das que foram ou poderiam assim ser diagnosticadas, quando chegam na idade adulta se arrependem dessa escolha. Traz inclusive o dado das primeiras queixas contra m\u00e9dicos que praticaram esses tratamentos. Por outro lado e de modo \u00e0 leitura do panorama social, entre os adultos, apenas 5% dos que demandaram ou obtiveram a redesigna\u00e7\u00e3o, expressam arrependimento pela mudan\u00e7a. Com isso, evidencia-se o peso da <em>idade<\/em> na percep\u00e7\u00e3o daquilo que faz sofrer: muda muito.<\/p>\n<p>Para Lacan (1980-81), o estatuto do corpo s\u00f3 se apreenderia a partir do mal-entendido; desde antes fazemos parte da linguagem confusa dos nossos antecedentes e o grande feito da psican\u00e1lise seria justo o de explorar o mal-entendido com o fim de revelar uma fantasia. Por isso interrogo se o triunfo da ci\u00eancia coloca em jogo e autoriza passagens ao ato e todas suas conseq\u00fc\u00eancias. Como respeitar a dignidade da crian\u00e7a enquanto ser a advir, sujeito em constitui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Paulo Leminski (2013), brincando com a harmoniza\u00e7\u00e3o das palavras na d\u00e9cada de 80, escreveu o seguinte <em>hai kai<\/em>: <em>se\u00a0 nem\u00a0 for\u00a0 terra\/ se\u00a0 trans\u00a0 for\u00a0 mar<\/em> (p.142).<\/p>\n<p>Hoje, a partir das hormoniza\u00e7\u00f5es em quest\u00e3o, indago daquilo que se ouve naquilo que se diz: se nem for menino ou menina, que nos cabe, enquanto praticantes da psican\u00e1lise, transformar? Quais as nossas responsabilidades a\u00ed?<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/h6>\n<h6>Aflalo, A. (2021) La querelle des enfants trans. Lacan Web T\u00e9l\u00e9vision, Youtube. Dispon\u00edvel em: &lt; https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9hqlRIvw520&gt;<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1972-73) <em>O Semin\u00e1rio. Livro 20. Mais, ainda.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1985.<\/h6>\n<h6>_______ (1980-81) <em>O Mal-Entendido<\/em>. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n 72, mar 2016.<\/h6>\n<h6>Leguil, C. (2016) <em>O ser e o g\u00eanero: homem\/mulher depois de Lacan<\/em>. Belo Horizonte: EBP Editora.<\/h6>\n<h6>Leminski, P. (2013) <em>Toda poesia Paulo Leminski<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/h6>\n<h6>Miller, J-A. (2021) <em>D\u00f3cil ao trans<\/em>. AMPBlog. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/uqbarwapol.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/JAM-DOCILE-AU-TRANS-PT.pdf&gt;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003 Produto do cartel de orienta\u00e7\u00e3o epist\u00eamica do Carrossel (2019-2021). Cartelizantes: Alice Munguba + Anal\u00edcea Calmon + Daniela Araujo (+1) + M\u00f4nica Hage + Paula Goulart.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Nunes Araujo Associada ao IPB Como num tempo de compreender, come\u00e7o afirmando que trago aqui algumas reflex\u00f5es, iniciais, que tangenciam a inf\u00e2ncia, para entrar na conversa acerca da quest\u00e3o trans, t\u00e3o atual. Seria ela uma nova face do malestar? Como situamos a crian\u00e7a no processo [decis\u00f3rio] de mudan\u00e7a de sexo? 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