{"id":2041,"date":"2022-02-04T16:05:51","date_gmt":"2022-02-04T19:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2041"},"modified":"2022-02-04T16:05:51","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:51","slug":"mae-so-ha-uma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/mae-so-ha-uma\/","title":{"rendered":"\u201cM\u00e3e s\u00f3 h\u00e1 uma\u201d"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2012\" aria-describedby=\"caption-attachment-2012\" style=\"width: 173px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2012\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/014-173x300.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cSalome\u201d\" width=\"173\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/014-173x300.jpg 173w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/014-592x1024.jpg 592w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/014.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 173px) 100vw, 173px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2012\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cSalome\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Fernanda Dum\u00eat e M\u00e1rcia Ledo<br \/>\n<em>Associadas do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia; Integrantes do CIEN- Bahia; Participantes do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise e Crian\u00e7a, Carrossel <\/em><\/h6>\n<blockquote><p><strong>\u201c<\/strong>Quando olho para o espelho acho que eu sou voc\u00ea. Tem algu\u00e9m dentro de mim sem um tempo para sai. Acho que eu quero muito. Acho que n\u00e3o quero nada. Acho que s\u00f3 quero achar algum lugar para encostar uma cabe\u00e7a inflamada.\u201d (Cabe\u00e7a Inflamada, M\u00fasica de Pedro Tambelin para o filme \u201cM\u00e3e s\u00f3 h\u00e1 uma\u201d de Anna Muylaert)<\/p><\/blockquote>\n<p>No primeiro semestre de 2021, o Cine CIEN Bahia prop\u00f4s uma conversa\u00e7\u00e3o <em>online<\/em> em torno do filme <em>M\u00e3e s\u00f3 h\u00e1 uma<\/em>, um drama brasileiro escrito e dirigido por Anna Muylaert. MUYLAERT, A. (2016), <strong>\u201cM\u00e3e s\u00f3 h\u00e1 uma\u201d<\/strong> Dire\u00e7\u00e3o de Anna Muylaert. S\u00e3o Paulo, Brasil. Distribui\u00e7\u00e3o Vitrine V\u00eddeos.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, o N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise e Crian\u00e7a \u2013 Carrossel \u2013 se serviu do filme em um dos seus encontros virtuais. O enredo do filme se enla\u00e7a com o tema proposto pelo Instituto da Crian\u00e7a em 2021 &#8211; <em>A Diferen\u00e7a Se<\/em><em>xual.<\/em><\/p>\n<p>Lan\u00e7ado em 21 de junho de 2016, este longa foi ganhador do pr\u00eamio <em>Teddy Awaards<\/em> que \u00e9 considerado uma premia\u00e7\u00e3o oficial do p\u00fablico LGBT no Festival de Berlim.<\/p>\n<p>Embora se trate de uma fic\u00e7\u00e3o, foi inspirado no caso Pedrinho, um menino roubado numa maternidade em Bras\u00edlia, em 1986, que foi localizado 16 anos depois em Goi\u00e2nia, quando se deu o reencontro com sua fam\u00edlia biol\u00f3gica. O roteiro vai mais longe do que uma adapta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria deste menino, ampliando-a para um sens\u00edvel retrato do sujeito adolescente na contemporaneidade, suas err\u00e2ncias, experimenta\u00e7\u00f5es e dificuldades com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a sexual, pois sua narrativa contempla quest\u00f5es sobre a origem, a fam\u00edlia e a sexualidade. Uma interessante interlocu\u00e7\u00e3o \u00e9 feita partindo da ideia de identidade, a identidade familiar &#8211; origem &#8211; e de g\u00eanero. O presente trabalho trata, portanto, dos ecos desta interlocu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 protagonizado por Pierre, um jovem de perfil andr\u00f3geno que n\u00e3o obedece \u00e0s conven\u00e7\u00f5es, gosta de meninas e beija meninos. Em casa, escondido no banheiro, experimenta batons e abusa de selfies e nudes. O personagem \u00e9 justamente introduzido no filme numa cena em que durante uma festa, dan\u00e7a sensualmente com outro rapaz, mas logo na sequ\u00eancia acaba tendo rela\u00e7\u00f5es sexuais com uma garota, ele mesmo fazendo uso de lingerie e cinta liga.<\/p>\n<p>Neste momento delicado de sua adolesc\u00eancia, Pierre descobre que tem duas m\u00e3es. A primeira, a m\u00e3e que o criou junto \u00e0 irm\u00e3, \u00e9 a m\u00e3e pela qual ele tem amor. E a segunda tem por ele um afeto imenso e uma expectativa de encontro com o filho que tanto esperava reencontrar, mas para ele \u00e9 uma desconhecida.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0s dificuldades e impasses, a identidade deste jovem \u00e9 trocada: na fam\u00edlia biol\u00f3gica, Pierre era Felipe.<\/p>\n<p>O corpo de Pierre \u00e9 um lugar de experimenta\u00e7\u00e3o, lugar de novas produ\u00e7\u00f5es, numa tentativa de constru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria que d\u00ea conta de sua exist\u00eancia. \u00c0 quest\u00e3o \u201co que sou no desejo do Outro?\u201d, ele responde no corpo e com o corpo, pois Pierre n\u00e3o fala nada, mas se veste de mulher. Na verdade, ele faz mais do que se vestir, ele reivindica o uso da roupa. Ele experimenta o corpo e parece fazer um contorno com a roupa.<\/p>\n<p>Neste sentido, o filme nos remete ao que Lacan descreve sobre o corpo e o mal-entendido. Para ele, os seres falantes nascem do mal-entendido e o corpo \u201c\u00e9 o fruto de uma linhagem e assim parte das infelicidades que lhes acontecem, est\u00e1 relacionado ao que houve de mal entendido, at\u00e9 n\u00e3o poder mais\u201d (Lacan,1980)<\/p>\n<p>(&#8230;) \u00c9 isso que voc\u00eas herdam! \u00c9 isso que voc\u00eas sentem na pele. O mal-entendido vem de antes. O mal entendido vem desde antes \u00e0 medida que h\u00e1, desde sempre, este belo legado que lhes pertence ou do qual voc\u00eas fazem parte, a sabida confus\u00e3o dos ancestrais. (ibid. p. 22-23).<\/p>\n<p>Destacamos uma cena em que Pierre sai do sil\u00eancio. Se inicialmente ele estava numa posi\u00e7\u00e3o objetalizada em que n\u00e3o o escutavam, n\u00e3o lhe davam a palavra; no boliche, com a fam\u00edlia reunida, Pierre est\u00e1 de vestido e, numa explos\u00e3o, grita: \u201cFui roubado duas vezes, voc\u00eas roubaram minha vida!\u201d E afirma com veem\u00eancia: \u201cN\u00e3o me chamem de filho!\u201d. Pierre ainda n\u00e3o os considera sua fam\u00edlia e sai da cena.<\/p>\n<p>O filme termina com uma cena interessante que, apesar de n\u00e3o nos dar elementos suficientes, aponta para uma concess\u00e3o com a parceria do irm\u00e3o biol\u00f3gico que o escuta, bate em sua porta e quer dele saber. N\u00e3o sem que Pierre insista na busca de saber sobre sua irm\u00e3 adotiva de quem se desencontrou neste meio tempo, portanto, indicando n\u00e3o prescindir de sua tamb\u00e9m origem. Podemos dizer, que ele inventa um modo de n\u00e3o ficar submetido a uma origem que se precipita sobre o sujeito, que caiu em cima dele ao mesmo tempo em que caiu no mundo. (Ansermet, 2014)<\/p>\n<p>A atualidade do filme traz quest\u00f5es da contemporaneidade e interessa em especial, mas n\u00e3o s\u00f3 aos analistas, pois os impasses sobre a origem e a sexualidade v\u00eam, cada vez mais, chegando aos consult\u00f3rios, suscitando quest\u00f5es \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de ensino, jur\u00eddicas, m\u00e9dicas etc.<\/p>\n<p>Como as crian\u00e7as e adolescentes constroem narrativas sobre a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, a pr\u00f3pria origem? Sobretudo na contemporaneidade, onde as fam\u00edlias se deslocaram, se pluralizaram, n\u00e3o s\u00f3 como institui\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m como discurso? O que faz impasse aos sujeitos, frutos de um desejo por vezes an\u00f4nimo?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>ANSERMET, F. (2014). \u201cElegir el sexo\u201d, Boletim Tiresias, publica\u00e7\u00e3o da 13a Jornadas da ELP, Madrid, 2014.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1980), \u201cO mal entendido\u201d, Ornicar, pg. 22-23. \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o Original (juin,1981), \u201cLe Malentendu\u201d, pronunciado em 10 de junho de 1980.<\/h6>\n<h6>MUYLAERT, A. (2016), \u201cM\u00e3e s\u00f3 h\u00e1 uma\u201d Dire\u00e7\u00e3o de Anna Muylaert. S\u00e3o Paulo, Brasil. Distribui\u00e7\u00e3o Vitrine V\u00eddeos<\/h6>\n<h6>ROY, D. (2016), \u201cProte\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia\u201d. In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n.72, mar\u00e7o de 2016.<\/h6>\n<h6>TAMBELIN, P. (2016), \u201cCabe\u00e7a Inflamada\u201d. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=zZZwtwb3dZM<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernanda Dum\u00eat e M\u00e1rcia Ledo Associadas do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia; Integrantes do CIEN- Bahia; Participantes do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise e Crian\u00e7a, Carrossel \u201cQuando olho para o espelho acho que eu sou voc\u00ea. Tem algu\u00e9m dentro de mim sem um tempo para sai. Acho que eu quero muito. 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