{"id":2043,"date":"2022-02-04T16:05:51","date_gmt":"2022-02-04T19:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2043"},"modified":"2022-02-04T16:05:51","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:51","slug":"amor-uma-saida-do-discurso-do-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/amor-uma-saida-do-discurso-do-capitalista\/","title":{"rendered":"Amor, uma sa\u00edda do discurso do capitalista"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2011\" aria-describedby=\"caption-attachment-2011\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2011\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/013-300x198.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cTriceratops\u201d\" width=\"300\" height=\"198\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/013-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/013.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2011\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cTriceratops\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Graziela Vasconcelos<br \/>\n<em>Associada do IPB da EBP Se\u00e7\u00e3o Bahia<\/em><\/h6>\n<p>Se \u00e9 certo, como nos advertiu Lacan (1971\/2000), que \u201cToda ordem, todo discurso aparentado ao capitalismo deixa de lado o que chamaremos, simplesmente, as coisas do amor\u201d (p. 49), \u00e9 precisamente ele, o amor, que pode permitir ao sujeito uma sa\u00edda do discurso do capitalista. Aqui me refiro ao amor de transfer\u00eancia, que se instaura em um processo anal\u00edtico. Como nos aponta Lacan (1972\/2008) ao se referir ao amor, \u201cNa an\u00e1lise, s\u00f3 lidamos com isso, e n\u00e3o \u00e9 por uma outra via que ela opera\u201d (p. 73).<\/p>\n<p>Os impasses e sofrimentos causados pelo que nos apresenta Freud como o mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, fundamenta e elucida algo de estrutural na l\u00f3gica do capitalismo, o embara\u00e7o do sujeito com a falta e sua cren\u00e7a em uma promessa de felicidade e completude plenas. Freud (1930\/2010), como sempre, preciso e cir\u00fargico em suas observa\u00e7\u00f5es e delimita\u00e7\u00f5es, nos diz, \u201ca vida, tal como nos coube, \u00e9 muito dif\u00edcil para n\u00f3s, traz demasiadas dores, decep\u00e7\u00f5es, tarefas insol\u00faveis. Para suport\u00e1-la n\u00e3o podemos dispensar paliativos\u201d (p. 28). Ora, pois n\u00e3o \u00e9 por outra via que o capitalismo pode introduzir a oferta de seus incont\u00e1veis <em>gadgets<\/em>, promessa de um gozo sem limites. Uma promessa nunca cumprida, mas que ao fracassar, promove e sustenta o seu sucesso. Aqui o c\u00e9u n\u00e3o \u00e9 o limite e sim o objeto <em>a<\/em> elevado ao z\u00eanite social.<\/p>\n<p>Lacan \u00e9 categ\u00f3rico ao anunciar, em <em>Radiofonia,<\/em> que o mal-estar, certamente o devemos imputar ao inconsciente<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Ora, \u00e9 um paradoxo, mas o que est\u00e1 em jogo, conforme nos aponta Lacan<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, \u00e9 algo do discurso da hist\u00e9rica como propulsor da ci\u00eancia, afinal, a hist\u00e9rica \u00e9 exatamente o sujeito dividido, o inconsciente em exerc\u00edcio que convoca o mestre a produzir um saber. Mas a ci\u00eancia, apesar de alicer\u00e7ada na divis\u00e3o subjetiva, \u201c\u00e9 uma ideologia da supress\u00e3o do sujeito\u201d (LACAN,1970\/2003, p. 436), por consequ\u00eancia, da supress\u00e3o do desejo, que como sabemos, em Lacan<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, adv\u00e9m apenas no lugar da divis\u00e3o subjetiva. Nessa dire\u00e7\u00e3o, nos esclarece Bassols (2015), \u201ca pr\u00f3pria ci\u00eancia ocupou o lugar do desejo, e o desalojou, o deslocou para outro lugar em sua alian\u00e7a com o discurso capitalista\u201d (p. 130), um discurso causado pela divis\u00e3o, mas com a miss\u00e3o de sutur\u00e1-la.<\/p>\n<p>Nesse ponto, introduzo uma quest\u00e3o fundamental na Teoria Lacaniana, a da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, esta que \u00e9 causa mesmo do mal-estar do sujeito. Nesse cen\u00e1rio, para al\u00e9m dos <em>gadgets<\/em>, que como disse, sempre falham, h\u00e1 o amor, que como nos diz Lacan<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, \u00e9 precisamente o que vem em supl\u00eancia \u00e0 inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Um amor que n\u00e3o interessa ao discurso capitalista e ao qual somente se pode ascender por meio do discurso do analista, <em>bajo<\/em> transfer\u00eancia. \u00c9 que no amor \u201co que se visa, \u00e9 ao sujeito como tal\u201d (LACAN, 1972\/2008, p. 56) e isto me parece precioso e digno de nota.<\/p>\n<p>Se o discurso do capitalista opera na l\u00f3gica do mais-de-gozar, da nega\u00e7\u00e3o da falta constitutiva e da impossibilidade de um saber sobre a verdade <em>n\u00e3o-toda<\/em> do sujeito do inconsciente, ofertando seus <em>gadgets<\/em> como promessa de al\u00edvio a todo sofrimento; o discurso do analista, que s\u00f3 opera por meio do amor de transfer\u00eancia, convoca o sujeito a interessar-se pela verdade do seu sintoma, a implicar-se com seu sofrimento, fortalecendo o la\u00e7o com o Outro e colocando em jogo a dimens\u00e3o do desejo, o que\u00a0 promove, n\u00e3o de outro modo, alguma conten\u00e7\u00e3o ao gozo sem limites, evocado pelo capital. Algo que Lacan (1962\/2005) nos apresenta lindamente em seu aforismo \u201cS\u00f3 o amor permite ao gozo condescender ao desejo\u201d (p. 197). \u00c9 apenas assim que me parece ser poss\u00edvel ao sujeito, Um a Um, transformar a demanda de al\u00edvio em demanda de saber, possibilitando uma sa\u00edda do discurso do capitalista e inaugurando uma nova e singular forma de fazer e de estar.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>BASSOLS, M. <em>A psican\u00e1lise a ci\u00eancia e o real<\/em>. Rio de Janeiro: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 11, 2015.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1930). O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. In: <em>Obras completas<\/em>, v. 18. S\u00e3o Paulo: Companhia da Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958). O Semin\u00e1rio, livro 6: <em>O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962). O Semin\u00e1rio, livro 10<em>: A Ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1970). <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971).<em> O saber do Psicanalista<\/em>. Centro de Estudos Freudianos de Recife, 2000.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.(1972). O Semin\u00e1rio, livro 20<em>: mais, ainda<\/em>. (1975). Jorge Zahar Ed., 2008.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. Uma conversa sobre o amor. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana on-line 2, 2010.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003 Lacan, J. (1970\/2003). <em>Outros Escritos<\/em>. Jorge Zahar, p. 435.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u2003 Ibid., p. 436.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u2003 Lacan, J. (1958-1959 [2016]). <em>O Semin\u00e1rio, livro 6: O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. Jorge Zahar, p.26.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u2003 Lacan, J. (1972-1973 [2008]). <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em>. Jorge Zahar, p. 51<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graziela Vasconcelos Associada do IPB da EBP Se\u00e7\u00e3o Bahia Se \u00e9 certo, como nos advertiu Lacan (1971\/2000), que \u201cToda ordem, todo discurso aparentado ao capitalismo deixa de lado o que chamaremos, simplesmente, as coisas do amor\u201d (p. 49), \u00e9 precisamente ele, o amor, que pode permitir ao sujeito uma sa\u00edda do discurso do capitalista. 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