{"id":2047,"date":"2022-02-04T16:05:51","date_gmt":"2022-02-04T19:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2047"},"modified":"2022-02-04T16:05:51","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:51","slug":"a-dor-na-pandemia-e-o-discurso-do-analista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/a-dor-na-pandemia-e-o-discurso-do-analista\/","title":{"rendered":"A dor na pandemia e o discurso do analista"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2000\" aria-describedby=\"caption-attachment-2000\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2000\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/002-300x300.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cBeehive\u201d\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/002-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/002-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/002.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2000\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cBeehive\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Christianne Alc\u00e2ntara<br \/>\n<em>Aluna do Curso Regular do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/em><\/h6>\n<p>Publicado pela primeira vez em 1930, O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> j\u00e1 trazia uma senten\u00e7a de Sigmund Freud (2011: p.33):<\/p>\n<p>Parece fora de d\u00favida que n\u00e3o nos sentimos bem em nossa atual civiliza\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 dif\u00edcil julgar se, e em que medida, os homens de \u00e9pocas anteriores sentiram-se mais felizes, e que papel desempenharam nisto suas condi\u00e7\u00f5es culturais. Sempre nos inclinaremos a apreender nossa mis\u00e9ria objetivamente, isto \u00e9, a nos transportar para tais condi\u00e7\u00f5es com as nossas exig\u00eancias e suscetibilidades, para ent\u00e3o examinar que ocasi\u00f5es nelas ver\u00edamos para experimentar felicidade ou infelicidade.<\/p>\n<p>Se pararmos para refletir sobre a pandemia da Covid-19, que come\u00e7ou em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, na China, e que se alastrou por todo o mundo, tra\u00e7amos o panorama contempor\u00e2neo. De uma hora para outra, as pessoas precisaram parar de interagir de forma presencial, evitar o \u201cir e vir\u201d e, ainda por algum tempo, foram submetidas ao isolamento social. Passaram a conviver com um inimigo invis\u00edvel, que se materializava nas milhares de mortes noticiadas.<\/p>\n<p>O que se identificou a partir da\u00ed foi um trauma coletivo, em que n\u00e3o se conseguiam viver lutos, pessoas ca\u00edam em melancolia, deparavam-se com quadros de ansiedade, ang\u00fastia e depress\u00e3o. Recorreu-se \u00e0 tecnologia para amenizar a dor da perda do conv\u00edvio com o outro. Al\u00e9m dos rituais f\u00fanebres e das festas de anivers\u00e1rio on-line, m\u00e9dicos come\u00e7aram a se curvar \u00e0s consultas virtuais. Os psicanalistas tamb\u00e9m se renderam \u00e0 modalidade.<\/p>\n<p>Testemunhas de um mal-estar coletivo em que a express\u00e3o das dores dos analisantes passaram a ser mediadas pelo computador, psicanalistas se viram \u00e0s voltas com questionamentos quanto \u00e0 efic\u00e1cia da cl\u00ednica <em>on-line<\/em>. Ao mesmo tempo, foram desafiados a acolher todas as dores a uma dist\u00e2ncia diminu\u00edda pelos recursos tecnol\u00f3gicos com os quais poucas pessoas tinham familiaridade.<\/p>\n<p>Se, ao escrever O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, Freud se encontrava em um per\u00edodo entreguerras e j\u00e1 anunciava que os seres humanos \u201cbuscam a felicidade, querem se tornar e permanecer felizes\u201d, a pandemia dava sinais de que a tal \u201cfelicidade\u201d era inating\u00edvel. A crise sanit\u00e1ria descontrolada e a oscila\u00e7\u00e3o entre puls\u00f5es de vida e de morte atordoaram a popula\u00e7\u00e3o que passou a se sentir ainda mais desamparada.<\/p>\n<p>\u00c9 neste momento que a procura pelo analista se d\u00e1: quando o sujeito j\u00e1 n\u00e3o suporta o desencontro com uma possibilidade de \u201cvida feliz\u201d e se v\u00ea desamparado. Lacan<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> (1998: p.620-621) afirma que se imagina que o psicanalista \u00e9 feliz:<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o \u00e9 a felicidade, ali\u00e1s, que se vai pedir-lhe? E como lhe seria sens\u00edvel d\u00e1-la se n\u00e3o tivesse um pouco dela, diz o bom senso? \u00c9 fato que n\u00e3o nos recusamos a prometer a felicidade (&#8230;)<\/p><\/blockquote>\n<p>O analista \u00e9 ent\u00e3o convocado \u00e0 escuta de um sujeito que j\u00e1 n\u00e3o consegue lidar com a disputa pela domin\u00e2ncia, estabelecida entre o discurso cient\u00edfico e o discurso do capitalista. Se a Ci\u00eancia orienta o isolamento social, o Capitalista reclama a imperiosa necessidade de \u201cn\u00e3o parar\u201d. A economia reivindica sua soberania, cria um impasse que confunde acerca do valor da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Impactado pela crise, o analista precisa, por meio do seu discurso, provocar o sujeito a \u201cre-contar\u201d sua trajet\u00f3ria. Ao mesmo tempo, \u00e9 instado a fazer furo nos discursos da ci\u00eancia e do capitalista, de forma a \u201cajudar\u201d o analisante a descobrir-se sujeito da sua pr\u00f3pria conduta, bem como do seu desejo.<\/p>\n<p>Para Lacan<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, \u00e9 o discurso que faz la\u00e7o social. Se a pandemia pareceu desfazer la\u00e7os, o analista os mant\u00e9m por meio do seu discurso. Presencial ou virtualmente, \u00e9 ineg\u00e1vel que ele \u201cd\u00e1 sua presen\u00e7a\u201d e, no atual contexto hist\u00f3rico, talvez ela n\u00e3o seja notada apenas mais tarde, como j\u00e1 observou Lacan.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. <strong>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011;<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <strong>O Semin\u00e1rio, livro 17 &#8211; o avesso da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992;<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003 FREUD, Sigmund. <strong>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u2003 LACAN, Jacques. <strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u2003 LACAN, Jacques. <strong>O Semin\u00e1rio, livro 17 &#8211; o avesso da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christianne Alc\u00e2ntara Aluna do Curso Regular do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia Publicado pela primeira vez em 1930, O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o[1] j\u00e1 trazia uma senten\u00e7a de Sigmund Freud (2011: p.33): Parece fora de d\u00favida que n\u00e3o nos sentimos bem em nossa atual civiliza\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 dif\u00edcil julgar se, e em que medida, os homens&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2047","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-023","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2047","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2047"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2047\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2048,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2047\/revisions\/2048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2047"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}