{"id":2049,"date":"2022-02-04T16:05:51","date_gmt":"2022-02-04T19:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2049"},"modified":"2022-02-04T16:05:51","modified_gmt":"2022-02-04T19:05:51","slug":"tres-perguntas-para-gustavo-dessal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/02\/04\/tres-perguntas-para-gustavo-dessal\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas perguntas  para Gustavo Dessal"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2014\" aria-describedby=\"caption-attachment-2014\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2014\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/016-300x221.jpg\" alt=\"Kazuhiko Nakamura . \u201cRequiem for Industry\u201d\" width=\"300\" height=\"221\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/016-300x221.jpg 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/016.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2014\" class=\"wp-caption-text\">Kazuhiko Nakamura . \u201cRequiem for Industry\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Durante o curso de 2021, o IPB, apoiado nos discursos de Lacan, abordou os imposs\u00edveis freudianos. A partir deste percurso e inspirados na leitura de dois livros, <em>\u201cInconsciente 3.0: lo que hacemos com las tecnolog\u00edas y lo que las tecnolog<\/em>\u00edas<em> hacen con nosotros.\u201d<\/em> e <em>\u201cFace to facebook: una temporada en el manicomio global.\u201d<\/em>, fizemos tr\u00eas perguntas ao seu autor, Gustavo Dessal.<\/p>\n<p><strong>Lapsus (L):<\/strong> Numa \u00e9poca cada vez mais orientada por uma temporalidade na qual o que \u00e9 imposs\u00edvel, hoje, pode deixar de s\u00ea-lo amanh\u00e3, a <em>perda<\/em> \u2013de um ser amado, de um ideal, etc.- adquire um estatuto particular. Quais seriam os modos contempor\u00e2neos de resposta perante a perda de um ser amado?<\/p>\n<p><strong>&#8211; Gustavo Dessal (GD): <\/strong>As respostas s\u00e3o muito vari\u00e1veis e ainda nos encontramos com as modalidades cl\u00e1ssicas, desde o luto comum, que atravessa uma s\u00e9rie de fases n\u00e3o sintom\u00e1ticas, at\u00e9 o chamado luto patol\u00f3gico, que varia entre a depress\u00e3o neur\u00f3tica e a melancolia. S\u00e3o formas que continuam existindo e ainda devemos acrescentar algo que n\u00f3s, analistas, conhecemos: seja qual for a sua variante, o luto jamais cicatriza por completo. \u00c9 por esse motivo que uma perda ulterior pode reeditar outra que aparentemente tinha sido elaborada. Por\u00e9m, se h\u00e1 algo de particular em nossa \u00e9poca, \u00e9 que a renega\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica da morte no inconsciente se v\u00ea agora refor\u00e7ada por diferentes fatores. Por uma parte, um discurso que promove a falsa promessa de um horizonte de imortalidade. Em todas partes, somos assediados por mensagens, inclusive validadas por estudos supostamente cient\u00edficos, nos quais nos asseguram uma prolonga\u00e7\u00e3o cada vez maior da vida. Isso \u00e9 acompanhado por uma expans\u00e3o de m\u00e9todos cir\u00fargicos destinados a fabricar um semblante de eterna juventude. A\u00ed tamb\u00e9m nos encontramos com uma modalidade espec\u00edfica de resposta ao luto. Muitos sujeitos padecem de uma s\u00e9ria dificuldade para assumir a castra\u00e7\u00e3o que o tempo imp\u00f5e, deixando sua marca no corpo. Envelhecer implica obviamente um processo de luto que, na atualidade, est\u00e1 interceptado pela miragem de uma vida sem limites. A morte se converteu no \u201cmaior inimigo da humanidade\u201d, segundo palavras de Peter Thiel, fundador de Pay Pal, que inverteu boa parte de sua fortuna em investiga\u00e7\u00f5es destinadas a combater o fim da vida. Kurtz Weil, anterior CEO do Google, persiste no empenho de \u201creviver\u201d seu pai transferindo dados que incluem fotografias, v\u00eddeos, \u00e1udios, a sistemas de intelig\u00eancia artificial que \u201crecuperem\u201d o c\u00e9rebro do pai morto e recriem sua exist\u00eancia atrav\u00e9s de um avatar digital. Um par de anos atr\u00e1s, uma companhia coreana de alta tecnologia de realidade virtual permitiu que uma m\u00e3e se reunisse com sua pequena filha morta atrav\u00e9s de um sistema de \u00f3culos inteligentes, em uma experi\u00eancia pioneira vista por milh\u00f5es de telespectadores e que foi o in\u00edcio de algo que logo se tornar\u00e1 quotidiano: a conviv\u00eancia entre as pessoas e seus seres queridos que faleceram, mas que s\u00e3o reeditados atrav\u00e9s de avatares com os quais se poder\u00e1 dialogar. Tudo isso, que hoje nos resulta inveross\u00edmil, ser\u00e1 t\u00e3o habitual como, na atualidade, s\u00e3o as reuni\u00f5es por Zoom.<\/p>\n<p><strong>&#8211; L: <\/strong>Quais seriam os efeitos sintom\u00e1ticos de uma exist\u00eancia cada vez mais regida pela tecnologia, na qual a <em>impossibilidade<\/em> se caracteriza, entre outras coisas, pela impossibilidade de deter-se?<\/p>\n<p><strong>&#8211; GD: <\/strong>Em meu livro \u201cInconsciente 3.0\u201d coloquei a tese de que existe uma rela\u00e7\u00e3o entre a s\u00edndrome do TDH e o que se denomina \u201cmultitasking\u201d. Se observamos a evolu\u00e7\u00e3o dos dispositivos m\u00f3veis, tablets, computadores, observamos que cada novo sistema operativo inclui a possibilidade de fazer mais tarefas simult\u00e2neas: a tela pode ser dividida entre as janelas de correio eletr\u00f4nico, programador de texto, a possibilidade de assistir um v\u00eddeo e ouvir uma can algo vol\u00e1til. A vida amorosa recebeu esse impacto tamb\u00e9m. Os aplicativos s\u00e3o instrumentos perfeitamente v\u00e1lidos para conhecer gente. N\u00e3o se trata de fazer sobre elas (eles) um ju\u00edzo moral, posto que sua utiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito variada e seus resultados tamb\u00e9m. No entanto, \u00e9 algo que participa dessa corrente em que a desfocaliza\u00e7\u00e3o, a substitui\u00e7\u00e3o veloz de um objeto por outro, a caducidade instant\u00e2nea dos la\u00e7os, \u00e9 a regra habitual de funcionamento. A \u00eanfase est\u00e1 em evitar a perda de algo que poderia ser melhor, em uma corrida sem limites. Deter-se implica na possibilidade de que emerja a ang\u00fastia, por isso a velocidade tornou-se uma das principais defesas que as novas tecnologias nos proporcionam. Trata-se de evitar por todos os meios o confronto com o vazio, a escans\u00e3o que sup\u00f5e a cadeia significante, convertida em uma meton\u00edmia acelerada, uma esp\u00e9cie de euforia man\u00edaca que perdeu seu lastro, a ancoragem, o que precisamente d\u00e1 certa estabilidade ao discurso e deveria impedir sua dispers\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>&#8211; L: <\/strong>Se uma das novas formas da divis\u00e3o do sujeito se caracteriza por estar localizada entre um dejeto inteiramente sup\u00e9rfluo e uma marca contabilizada em bases de dados que se multiplicam de forma exponencial, quais as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para assumir uma posi\u00e7\u00e3o de responsabilidade subjetiva?<\/p>\n<p><strong>&#8211; GD: <\/strong>Esta n\u00e3o \u00e9 uma \u00e9poca prop\u00edcia para o que denominamos \u201cresponsabilidade subjetiva\u201d. Estamos na era da \u201cind\u00fastria dos direitos\u201d, n\u00e3o das responsabilidades. O ser falante, por defeito, est\u00e1 programado para fazer recair sobre o Outro a raz\u00e3o de sua castra\u00e7\u00e3o. Nada melhor do que os tempos atuais para refor\u00e7ar essa cren\u00e7a neur\u00f3tica de que o gozo que me falta e que por direito me corresponde, me foi injustamente arrebatado. \u00c9 uma fantasia eterna que agora encontra sua m\u00e1xima express\u00e3o. Todos somos v\u00edtimas, todos somos seres abusados pelo Outro. Isso n\u00e3o desmente, claro, a exist\u00eancia de sujeitos que s\u00e3o v\u00edtimas reais de inf\u00e2mias. Por\u00e9m n\u00e3o estou me referindo agora precisamente a isso, mas ao fato de que a vitimiza\u00e7\u00e3o se converteu em uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva que ocupa um estrelato no panorama atual. Isso se alimenta de todos os \u00e2ngulos discursivos e\u00a0 de todas as disciplinas. A cren\u00e7a delirante de que os genes explicam at\u00e9 nossas ideias religiosas, ou a escolha de nosso parceiro, \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de dissolver a import\u00e2ncia crucial da responsabilidade do sujeito. E sabemos que existe uma rela\u00e7\u00e3o estrutural entre o inconsciente e o conceito de responsabilidade subjetiva. Hoje nos encontramos com os extremos da culpa ou da inoc\u00eancia. Mas a tend\u00eancia\u00a0 \u00e9 ignorar a implica\u00e7\u00e3o que cada um de n\u00f3s tem nas consequ\u00eancias de nossos atos. A hipertecnologiza\u00e7\u00e3o contribui para isso de maneira muito eficaz, dado que entregamos uma grande parte de nossa exist\u00eancia aos dispositivos. Aos poucos, eles v\u00e3o se convertendo no relevo de nossa mem\u00f3ria, de nossas lembran\u00e7as, de nossas marcas subjetivas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o curso de 2021, o IPB, apoiado nos discursos de Lacan, abordou os imposs\u00edveis freudianos. 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